Primeiro, o estudante Gabriel Marques da Silva, 17, estranhou ter que trocar de setor a cada três meses na empresa em que trabalha, mas só o fato de pensar na possibilidade de uma rotina monótona o fez superar o medo e a ansiedade do primeiro emprego. “Gosto de desafios, estou sempre buscando o novo, mais conhecimento a cada dia. Faço parte da geração que nasceu no meio da tecnologia. Não consigo ficar parado”, admite.

Os fones de ouvido e o celular sempre à mão falam por si. Eles não costumam fazer muito barulho por onde passam, mas, no mercado de trabalho, o impacto da chamada Geração Z promete ser grande. São pessoas nascidas entre 1990 e 1999, já na era dos smartphones.

Estima-se que 34,9 milhões de brasileiros se enquadrem nesse perfil, o equivalente a 16,7% da população do país. Esses jovens que não separam o mundo online do offline já representam 2% da força de trabalho, ou 2 milhões de brasileiros, devendo chegar a 20% em 2020.

Para alguns especialistas, os nascidos neste milênio serão chefes da geração Y (de 20 a 37 anos) em pouco tempo. Atualmente desempenhando funções no setor de marketing e relacionamento do Ensino Social Profissionalizante (Espro), Silva pensa mesmo em atuar na área de tecnologia e com tarefas que possa desenvolver no conforto da sua casa. Tudo pelo bem-estar na vida pessoal e na profissional, como mostra estudo da empresa norte-americana Robert Half em parceria com a Enactus, com 770 jovens Z.

Exigentes e autodidatas, além de não gostarem de hierarquias rígidas e horários poucos flexíveis: para 64% dos ouvidos na pesquisa, mais importante do que “ser chefe” é ter oportunidade de crescer no emprego, na profissão, na vida. Já a conquista de cargos altos é objetivo de apenas 3%.

Para essa geração Z, por exemplo, ganhar menos, desde que o emprego seja mais agradável, não seria um problema. Segundo a coach de vida e carreira Ana Lisboa, esses jovens entendem que o trabalho é apenas uma parte do que é necessário fazer ao longo do dia, mas não é o principal motivo da vida deles. “A geração Y, que veio antes da Z, respeitava regras, mas já achava que o mando do jogo não estava totalmente com a empresa. Já os mais novos acham que trabalhar é legal, mas não precisam morrer por causa disso”, diz.

Questões. O primeiro desafio, no entanto, segundo a pedagoga e supervisora de educação profissional da Espro Kellia Marla, é desenvolver a maturidade. “Eles são muito ansiosos, muito rápidos, não conseguem esperar. Esse imediatismo tem a ver com o fácil acesso ao grande volume de informações. Falta ter foco e atingir um ponto de equilíbrio para amadurecer tudo o que eles têm de bagagem de informação”, avalia.

Há uma tendência de que sejam futuros profissionais com abordagem mais generalista, mas com o perfil multitarefa. Além disso, não estando tão preocupados com as questões organizacionais, e, sim, com as pessoais e com o quanto podem ser felizes e se desenvolver, eles se tornam mais individualistas.

Para a geração que não vive offline, mas está quebrando alguns tabus em relação à produtividade, trabalho e prazer, atuar em equipe também gera certa resistência. “A timidez é uma característica dessa geração. Por ficarem muito calados, ouvindo música e mexendo no celular, eles não têm uma boa interação. A dificuldade de trabalhar em equipe e do contato físico existe, e eles ficam mais isolados”, reconhece Kellia.

Basta saber agora se o atual mercado brasileiro está preparado para abrigá-los. Segundo Ana, nas empresas tradicionais, a adaptação tende a ser bem mais complicada, e os jovens Z podem não ter uma vida longa. Segundo a coach, nas culturas organizacionais com chefes da geração X (nascidos entre 1960 e 1979), os choques serão grandes. “É a primeira geração que já nasceu com a internet. Eles não se desconectam, e, por isso, empresas que cobram uma obrigação quase cega não são atrativas para essa geração”, observa.

Assim como o comportamento dos jovens, as organizações também devem estar em constante evolução, e, para elas, o desafio maior será o de atualizar seus negócios e criar novas formas de liderança e motivação, além de programas de carreira atrativos para reter esses talentos.

Minientrevista

Fátima Orci, psicóloga, master coach e master PNL. Sócia-fundadora da Assessoria de desenvolvimento humano Fors & Yamaguti

A geração Z ainda é uma incógnita para empresários e líderes?

Sim, porque é uma geração que vem muito conectada com essa era da informação. Então, é uma geração rápida na busca, na assimilação e bastante focada naquilo que ela quer. Porém, um pouco diferente da geração Y, pois está buscando equilíbrio na questão da qualidade de vida. E os gestores na maior parte das empresas ainda estão focados no alto desempenho, nos resultados a qualquer preço e custo. Essa geração começa a trazer questionamentos para esse modelo de negócio.

Então, as empresas que compreenderem as características desse novo grupo profissional e se adaptarem a esse público sairão na frente?

Penso que sim. No entanto, é um grande desafio porque a maioria das empresas ainda está sustentando a consciência da entrega e do resultado, mas sem olhar o caminho sustentável para que essa entrega aconteça. Os profissionais da geração Z vêm com boa formação, bagagem e são comprometidos não só com a entrega, pura e simplesmente, mas também com o que significa essa entrega e com a missão deles na empresa. O trabalho, para eles, não é só mais uma atividade profissional onde eles vão obter status e sucesso, com a alta remuneração em foco. Eles têm como foco a própria gestão da vida e do seu bem-estar. Para entregar um bom trabalho, é preciso estar bem. Além disso, são profissionais que não mais estabelecem uma relação de dependência com seus gestores.

Outros especialistas acreditam que os nascidos neste milênio serão chefes da geração Y em pouco tempo. Como serão esses chefes?

Esses futuros gestores da geração Z vão dar muito mais foco para o processo, para o caminho até o resultado final – e não no resultado em si –, diferentemente do pessoal da geração cujo processo pouco importa. O que observo nos atendimentos é que esse jovens Y, tanto homens quanto mulheres, estão desenvolvendo patologias que antes só eram vistas em pessoas mais velhas, como depressão, síndrome do pânico e quadros de câncer, justamente porque os níveis de estresse são altamente intensos com relação às entregas e ao comprometimento no trabalho. Os gestores dessa nova geração Z estarão muito mais preocupados em garantir um processo mais ecológico, onde a construção é mais sustentável e saudável ao longo do tempo. Para eles, a saúde emocional do funcionário é tão importante quanto a saúde intelectual.

O que então eles poderiam resgatar de outras gerações (baby boomers, X e Y) para poder ajudá-los nessa caminhada?

Hoje as empresas fazem muitas reuniões por conferência, resolvem muitas coisas pelo e-mail e WhatsApp, mas chega um momento em que esses recursos não substituem o contato pessoal. Pode parecer simples, mas resgatar esse contato com o outro, aquele momento do café, de “jogar conversa fora”, é importante para se abrir para as trocas de novas experiências e de não mais ter a máquina como mediadora das relações. (LM)

Blogueira vira empresária nos EUA

A moçada com perfil Z também tem uma veia empreendedora mais forte do que a de outras gerações. “Não sei se eles vão querer ficar muito tempo trabalhando para alguém. Vão querer ter a própria start-up, montar um blog… Como os pais dessa galera são da geração Y, é mais fácil que eles deem total apoio às iniciativas empreendedoras dos filhos”, aposta a coach Ana Lisboa.

É o caso da jovem Nina Negre, 20. Tudo começou com o blog Hey Florida, que nasceu para que ela pudesse mostrar a sua família e aos amigos que haviam ficado no Brasil suas experiências – leia-se dicas de restaurantes e passeios – nos Estados Unidos.

O sucesso foi tanto (ela contabiliza mais de 30 mil curtidas no Facebook por postagem) que Nina e sua mãe, Rose Negre, abriram a agência de turismo receptivo Hey Florida Travel, que oferece suporte aos turistas brasileiros que desembarcam nos aeroportos internacionais de Miami e Fort Lauderdale. “Na verdade, desde criança eu sempre brincava de montar empresas, e com 8 ou 9 anos já alugava revistinhas para meus colegas de aula, vendia pulseirinhas, enfim, estava sempre inventando algo que pudesse me dar a sensação de que eu estava empreendendo e gerando resultados”, lembra a jovem.

Praticamente todos os clientes da agência ficam sabendo dos serviços prestados pelas redes sociais, como Instagram, Snapchat ou mesmo pesquisando pelo Google. Por isso, segundo Nina, seria praticamente “impossível” atingir os mesmos resultados e toda essa proximidade sem estar presente na rede. Para ela, o ambiente ideal de trabalho é onde tiver conexão de internet, seja na praia, em cafeterias, em hotéis, aeroportos ou mesmo no conforto de seu quarto.

“Nunca me imaginei trabalhando em uma profissão no estilo tradicional, dentro de uma empresa, cumprindo horário e tarefas limitadas. Amo muito ter essa liberdade e flexibilidade no meu dia a dia. Eu não tenho uma rotina certa de trabalho, estou frequentemente viajando em busca de novos conteúdos, locais legais para conhecer e sempre cuidando de cada detalhe dos passeios de nossos clientes”, conta. (LM)

Jovem busca ser feliz e valoriza experiências com outras gerações

Em sua rotina como estagiária de videomaker, Mariana Corrêa da Silva, 19, lida principalmente com profissionais de no máximo uma geração anterior (nesse caso, a Y) e por isso, logo em sua primeira experiência profissional, ela se considera “afortunada”, ao contrário de outros colegas, cujo desafio vai além das tarefas corporativas.

“Numa escala geral, observo que muitos jovens enfrentam como desafio o conflito de ideias, pois as gerações passadas têm uma forma de trabalho já estruturada, o que torna difícil para que eles cedam às inovações que os mais jovens procuram trazer”, pondera.

Mariana diz que consideraria a experiência de trabalhar em profissões atípicas aos nativos digitais como aprendizado. “Não deixaria de pelo menos tentar e de aprender o máximo possível com a estrutura, os chefes e as rotinas, mesmo que isso exigisse uma adaptação aos processos daquela empresa, o que geralmente é o mais difícil”, afirma.

E, assim como os jovens de sua idade, daqui a dez anos ela espera “estar feliz”, em um cargo de liderança, mas principalmente “de confiança”, exercendo um trabalho que inspire e que seja bem reconhecido. “A questão financeira é um dos pontos que mais preocupam, mas ela virá com a execução de um trabalho benfeito”, finaliza.(LM)

UM OLHO NO CELULAR, OUTRO NO ‘MINECRAFT’

Século XXI. Os jovens nascidos a partir do ano 2000 são conhecidos como “nativos digitais”, “geração fundadora”, “milenials” ou “globalists”, entre outras definições.

Ambiente de simulação. No topo da preferência desses jovens estão jogos como o “Minecraft”, em que a construção de mundos e personagens junto com outros jogadores é um dos objetivos. O Facebook, por exemplo, é um ambiente mais polarizado, com um debate fraco, que gera um comportamento mais infantil.