Há alguns dias nós escrevemos sobre cólicas menstruais e a leitora Thaísa Garzillo disse ter achado importante o fato de falarmos de homens trans que ainda menstruam. De fato, é importante tocarmos nesse assunto, afinal muitas pessoas ainda não têm noção de que a adaptação de gênero nem sempre faz com que pessoas nascidas mulheres, mas que hoje são homens, deixem de ter algumas características comuns da biologia feminina, como a menstruação.Em casos nos quais o transexual opta pela adaptação cirúrgica e hormonal, mas não faz a retirada do útero, é totalmente possível que ele menstrue e que, inclusive, tenha filhos. É exatamente esse o caso do canadense Trevor MacDonald, que tem dois filhos, um de cinco anos e um de 18 meses.

A imagem de MacDonald, de barba e amamentando o filho mais novo, ainda causa espanto, então o jovem prefere não se expor muito. Nascido mulher, Trevor deu início à adequação de gênero há oito anos, e mesmo depois desse tempo, ainda precisa lidar com os entraves de não apenas ser transexual, mas de ter um parceiro e dois filhos biológicos. “Pessoas como eu são orientadas e ficar de fora”, disse, em declaração publicada no The Guardian.

Sobre “nascer no corpo errado”

Travor amamenta o filho.

Devido à experiência prática que tem a respeito de ser um homem trans que amamenta, MacDonald decidiu falar mais a respeito do assunto em um livro, que foi publicado recentemente, no qual explora as facetas de ser uma pessoa do gênero masculino que engravidou.

O pai coruja e agora escritor afirma que não se sente confortável com o senso comum de que pessoas trans “nasceram no corpo errado”. Segundo ele, a questão de identidade de gênero é muito mais ampla do que essa afirmação, justamente pela questão da gravidez, afinal, ele explica que as pessoas o julgam com base nessa máxima e questionam como pode ter escolhido engravidar se “nasceu no corpo errado”.

Aos 31 anos, MacDonald começou sua adaptação de gênero depois dos 20 anos, quando mudou de nome e deu início ao tratamento hormonal. Quando finalmente foi tendo sua identidade de gênero também em sua aparência, sua vida mudou, inclusive no aspecto amoroso, já que MacDonald vive em um casamento feliz com seu parceiro e, agora, com a família que constituíram.

Família

No início, a ideia do casal era a de optar pela adoção, mas eles sabiam que dificilmente conseguiriam ser aceitos no processo, simplesmente por serem um casal constituído por um homem trans e de um homem homossexual. Como MacDonald não havia realizado a histerectomia, que é a cirurgia que remove o útero, os dois perceberam que tinham meios biológicos de terem um filho. E assim aconteceu.

Depois da decisão, MacDonald deixou de tomar os hormônios e, mesmo depois de engravidar, continuou com a barba no rosto e a voz mais grossa, ou seja, ao longo da gestação, ele manteve a fisionomia masculina. Como sabiam que lidariam com todo tipo de preconceito, os dois programaram as gestações para que elas chegassem ao estágio final no inverno – dessa forma, MacDonald usaria roupas maiores e evitaria constrangimentos.

Por causa disso, muitas pessoas estavam achando que MacDonald tinha engordado um pouquinho: “Nossos vizinhos da porta ao lado não souberam que existia uma gravidez até que nós chegamos com o bebê”, revelou o pai sobre o primeiro filho.

Gestação e transfobia

Família feliz.

Quando contou a respeito da gestação para os colegas de trabalho, MacDonald passou, de novo, por mais situações constrangedoras, afinal muitas pessoas voltaram a chama-lo de “ela” e passaram a dizer que ele seria mãe em vez de pai. Nesse sentido, ele explica que, de fato, estamos acostumados com a questão de que gestar um bebê é algo feminino, mas que ele, como homem trans, não enxerga na gestação uma questão de gênero, e por isso não quer ser chamado de “mãe”.

Para a alegria do casal, apesar de MacDonald ter retirado os seios, ele conseguiu amamentar os filhos, e esse é outro ato que ele prefere desconstruir em termos de gênero. Os problemas, é claro, têm relação com as reações das pessoas, principalmente quando está em público e precisa amamentar o filho mais novo. Nesses casos, vai até o banheiro, mas como ele usa o banheiro masculino, as pessoas ainda estranham a presença dele com uma criança de colo.

Blog

Viu só? Deu certo. =)

Para dividir sua história com o mundo, e especialmente com outros homens trans que planejem engravidar, MacDonald criou um blog onde conta suas experiências em termos de gestação, amamentação e paternidade trans. Não demorou, obviamente, para que ele se tornasse um porta-voz internacional sobre o assunto, afinal começou a receber perguntas de transexuais de todo o mundo.

Ao perceber o tamanho da repercussão de seu trabalho, MacDonald se uniu a um grupo de cientistas canadenses e, com a ajuda deles, traçou um perfil de 22 homens trans de todo o mundo que deram à luz, explicando questões hormonais, psicológicas e físicas.

A ideia por trás de tudo isso é basicamente proporcionar um espaço de acolhimento a pessoas trans e de esclarecimento àqueles que quiserem desconstruir seus preconceitos. Sempre há tempo de aprender a tolerar as diferenças, você não acha?