(Foto : Divulgação)Rachel Ripani conhece bem as marcas que uma vítima de abuso sexual carrega consigo por toda a vida. Famosa por seu papel na novela “Caras e Bocas” (2009), a atriz foi alvo de violência sexual em quatro ocasiões diferentes. Na mais grave delas, acabou indo parar no hospital.

“Infelizmente eu tive vários contatos com a violência sexual, no total quatro vezes. A primeira vez eu tinha 7 anos.

Com a minha família na sala, um primo de 19 anos recém saído do Exército me pediu para ver meu quarto novo. Chegando lá, ele me empurrou sobre a cama, me segurou, baixou minha calcinha e me chupou.

Eu não tinha ideia do que estava acontecendo, a sensação horrorosa de que tinha algo muito errado, ele tapando minha boca, eu imobilizada. De ponta cabeça, minha boneca preferida me encarava, e tudo que eu conhecia do mundo mudava radicalmente naqueles minutos.

Minha irmã percebeu que estávamos demorando para voltar e subiu, me salvando do que poderia acontecer ainda. Ele me levantou me vestindo a calcinha, eu frouxa como uma boneca de pano, em silêncio o resto da noite.

Nunca aconteceu nada com ele”, disse em entrevista ao site Marie Claire.
“A segunda vez eu tinha 10 anos.

Estava praia com uma amiga dentro do elevador e um grupo de rapazes de 18 19 anos entrou e começou a fazer brincadeiras com a gente. Começamos a rir e quando o elevador parou no andar que eles estavam, nos puxou para fora.

Vieram cinco para cima de mim e fui carregada. Minha amiga, que era mais alta e forte, conseguiu chutá-los e escapou.

Eles me colocaram para dentro do apartamento e eu peguei uma vassoura para tentar me defender mas eles faziam piadas obcenas: ‘sabe o que a gente vai fazer agora com você?’. Corri e me tranquei no banheiro.

Nessa hora minha amiga voltou com a mãe de um amigo nosso e ela começou a bater na porta e gritar para eles me soltarem e felizmente não aconteceu nada. A sensação foi muito apavorante.

Meu pai tirou a satisfação com os garotos e eles disseram que eu queria. Aí meu pai calou-se.

”, prosseguiu.
“A Terceira durou uns dois anos, durante férias de julho e dezembro, em uma casa no interior onde um grupo de amigos passava as férias.

Foi no período entre meus 11 e 13 anos até eu contar para minha família. Era um amigo do meu pai.

Quando eu estava na piscina, ele mergulhou e passou por baixo de mim colocando a mão na minha genitália, como se não tivesse feito nada. E eu não entendia aqui porque era muito nova.

Toda vez que íamos para o sítio e ele estava, algo acontecia. Uma vez, ele levou uma namorada e disse para mim com ela presente: ‘Vem tomar banho com a gente.

’ Até que um dia, ele falou: ‘Vou atrás da sua irmã’. Corri e contei para os meus pais.

A minha mãe reuniu todos que estavam presentes e falou para eu contar para todo mundo. Mas não falei.

Não conseguiria falar na frente do meu pai e ele ficou muito bravo comigo, disse que eu estava inventando. Esse amigo dele passou por mim, pegou no meu ombro, me deu piscadinha e sussurrou: ‘Brigadão.

’”, continuou.
“A quarta vez foi com 21 anos.

Foi no fim da tarde, eu estava patinando no Parque da Aclimação, em São Paulo. Eu vestia calça de moletom, camiseta e usava um rabo de cavalo.

Um homem trombou em mim nós dois caímos no chão.
Me levantei e saí correndo, aí ele começou a gritar dizendo que eu o havia machucado.

Parei e fui socorrê-lo.  Ele me pegou pelo pescoço, me arrastou até a uma árvore.

Tinha uma faca e esperou anoitecer para me estuprar. Lutei muito.

Ele me asfixiava, eu desmaiava, ele esperava eu acordar para continuar. Foram quatro horas de luta.

Ele fazia tanta força na minha boca para ficar fechada que depois tive que costurar minha língua, fiquei toda machucada. Teve um momento que eu não aguentava mais lutar.

Depois que ele acabou, me levou ao lago para me lavar, me ajudou a pular o muro, me levou até meu carro e me deu um relógio. Eu estava catatônica, exausta.

Era como se eu fosse um cavalo que ele queria domar. Cheguei em casa, fui a uma delegacia com a minha mãe e essa experiência é horrível.

Um lugar frio, que só tem homens ouvindo sua história. Nesta última experiência de violência, fiquei bulímica por três anos [como fui muito machucada no pescoço e na boca, eu não conseguia engolir a comida — literalmente não conseguia ‘engolir’ o que tinha acontecido comigo) e tive pânico de lugares arborizados por anos.

Depois disso, fui embora do Brasil. O Paulo Autran, meu padrinho de profissão, acompanhou as investigações.

Um dia, ele me informou que o cara estava preso em Campinas [em São Paulo] e, depois de um tempo, morreu.
Estupro não tem nada a ver com sexo.

Tem a ver com violência e poder.  E todas as coisas que a gente ouve hoje em dia são: ‘Mas onde você estava? Como estava vestida? Mas na rua naquele horário sozinha?’ Tudo isso piora ainda mais a sensação de que não é o mundo que está errado, mas sim, você.

Me senti roubada de um futuro sem mácula ou traumas, afinal tive que aprender a lidar com o sexo antes de saber do que se tratava e aprender de um jeito muito difícil o que é adequado ou não. Achava que eu era ‘quebrada’.

Minha terapeuta me ajudou muito a separar todas as emoções confusas que ficam no fundo. Mas ainda não caminho na rua sozinha, se estiver escuro.

Tem que ter vergonha quem faz, não quem sofre.
O complicado mesmo ainda é lidar com a cultura do estupro.

E ver que muitas mulheres ainda a perpetuam”, finalizou.

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Fonte: TV Foco