Uilson, talvez, seja o menos conhecido entre os 18 jogadores
da seleção masculina de futebol que disputará a Olimpíada. Ele é reserva do
Atlético-MG, atua em poucas partidas por ano, e tinha apenas 1% de chance de
poder estar nos Jogos no próximo mês de agosto.Esse percentual não tem a ver com suas qualidades como
goleiro nem com a concorrência na posição.

Uilson tinha 1% de chance de viver.
Aliás, 1% de chance de nascer.

Sua existência é um desafio à ciência. É que sua
mãe, Ângela, engravidou depois de fazer laqueadura, processo de esterilização
feminina que obstrui as trompas, onde o espermatozoide se une ao óvulo.

A chance de isso acontecer é tão pequena que não há
convergência no percentual de exceção. Há quem fale em 0,5%, 1%, em 0,001%, ou em uma
a cada 10 mil mulheres.

Seja qual for, Uilson, caçula de quatro irmãos, é um “sobrevivente”.– Foi algo inusitado, minha mãe havia operado e oito anos
depois eu nasci.

Procurei saber um pouco sobre o assunto e vi que é bem raro
acontecer, mas quando Deus escolhe não existe nada nem ninguém que possa
impedir – afirma o goleiro nascido em Mucuri, na Bahia, a 88 quilômetros de
Nanuque, em Minas Gerais, onde moravam os pais e não havia maternidade.Do pai, por sinal, vieram o mesmo nome e a inspiração
profissional.

Uilson Oliveira chegou a ser campeão capixaba em 1976 pelo
Vitória, e tentou a sorte no Atlético-MG, mas, ao contrário do filho, não teve
êxito, e trocou o futebol pela pesca. Uilson, o garoto olímpico brasileiro, começou a jogar como
lateral, depois foi volante, e, nas idas com o pai às peladas amadoras, pegou
gosto pelas luvas.

Dos 11 aos 14 anos de idade, Uilson passou pelos três
principais clubes mineiros. Primeiro foi o Cruzeiro, de onde rapidamente foi
dispensado.

Em seguida, passou num teste no América e, aos 14 anos, graças aos
duelos com o Galo, recebeu um convite e lá está até hoje, aos 22.______________________________________________________________________________AS REFERÊNCIASNa infância:Na atualidade:No Brasil:_____________________________________________________________________________”Uilson bola!”No América, aliás, ele adotou um estilo um pouco diferente.

Nas saídas de gol, o tradicional grito de “eeeeeuuu” não estava dando muito
certo. A solução para se comunicar melhor foi passar a gritar o próprio nome:
“Uiiiillsooonnn”, “Uilson boooolaaaa.

..

”.– (risos) Tem horas que ainda faço isso, mas deixei um pouco
de lado.

Hoje o pessoal identifica melhor minha voz, mas não tem problema se eu
precisar fazer. Na área, o goleiro tem que liderar, comandar e saber como
comandar – conta o jovem, que tenta se adequar às exigências do futebol
moderno:– Eu me vejo como um goleiro mais técnico, até porque o
futebol de hoje exige isso.

Procuro trabalhar bem com os pés, mas sei que o
mais importante ainda é estar pronto para as defesas, saídas de gol, tudo que
exige o trabalho com as mãos. Procuro ter boa noção de espaço e ser o mais
tranquilo possível.

Na Olimpíada, Uilson sabe que só jogará caso haja algum
incidente com Fernando Prass, 16 anos mais velho e candidato a capitão da
seleção. Mas quem ousa duvidar do rapaz que só tinha 1% de chance de nascer, e,
agora, quer escrever mais um capítulo de sua história, e na história do país.

– A medalha de ouro ficaria marcada porque nunca
foi conquistada. Vamos lutar por isso.

Muitos craques já tiveram oportunidade,
fizeram boas campanhas, mas o ouro não veio. Sabemos da cobrança, ainda mais
por ser uma competição no Brasil, mas também sabemos que podemos escrever a
nossa história no futebol brasileiro.

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Fonte: Globo Esporte