Basta um pequeno abalo para movimentar as placas tectônicas do futebol. Uma vitória aqui, uma derrota ali, e o vencedor de ontem vira o perdedor de hoje – como mostram as decisões que o Brasil acompanhou neste fim de semana. Em jogos tão importantes, alguns saem por cima, e outros perdem terreno.

Confira abaixo quem sobe e quem desce no futebol brasileiro depois do último domingo.O bom trabalho de Dorival Júnior no Santos ganhou mais um elemento neste domingo.

Ao contrário de todos os treinadores que encararam o Audax com marcação por pressão na saída de bola – o que fazia com que seus times cansassem em determinado momento, como ocorreu com o São Paulo nas quartas de final –, o comandante do Peixe resolveu recuar seus atacantes e adiantar seus zagueiros, encurtando assim o campo do time de Fernando Diniz. Resultado: o Audax encontrou mais dificuldade para se infiltrar na defesa santista.

“Conversamos muito durante a semana sobre o que fazer, e essa foi a maneira que encontramos pra diminuir os espaços do Audax e tentar neutralizar o toque de bola deles”, disse Dorival, reconhecendo, porém, que a tática não foi perfeita e seu time acabou dando algumas brechas. Poderia ter sido mais uma grande jornada de Tchê Tchê.

Mas não foi bem assim. Já acertado com o Palmeiras, o ala do Audax fez uma assistência a favor e uma contra no empate por 1 a 1 com o Santos.

Foi dele o passe para Mike abrir o placar para o time de Osasco. Porém.

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Foi dele também o passe para Ronaldo Mendes empatar. Numa saída de bola errada, Tchê Tchê deu de bandeja para o meia santista interceptar o contra-ataque, avançar, ajeitar e mandar uma bomba para o fundo da rede.

Como o Santos não perde na Vila Belmiro pelo Paulistão desde 2011, a tarefa do Audax ficou muito mais difícil depois da falha do ala.Do caos, surgiu Martín Silva em dezembro de 2013 para acertar com o Vasco e estancar uma ferida que maltratava o clube – que revezara, repetindo fracassos, goleiros como Alessandro, Diogo Silva e Michel Alves naquele ano.

O uruguaio não demorou a mostrar que era muito mais seguro que seus antecessores. Ele esteve na campanha pouco empolgante do retorno à Série A em 2014 e depois não conseguiu impedir nova queda no ano seguinte.

E acabou vivendo, neste domingo, um de seus melhores momentos pelo Vasco. Saiu fortalecido do domingo ao impedir resultado melhor do Botafogo – sobretudo ao fazer grande defesa aos 38 do segundo tempo, em chute de Ribamar.

Seu desempenho se tornou ainda mais exponencial quando comparado a Jefferson, que falhou no gol de Jorge Henrique.Não foi uma boa semana para Jefferson.

Primeiro, o goleiro ficou fora da lista de 40 jogadores pré-convocados por Dunga para a Copa América – perde cada vez mais espaço na Seleção. Depois, falhou no gol da vitória do Vasco sobre o Botafogo no primeiro jogo da decisão do Campeonato Carioca.

Referência de segurança da defesa, o ídolo da torcida alvinegra fez o que não costuma fazer: calculou mal uma saída pelo alto e viu o baixinho Jorge Henrique, de cabeça, fazer o único gol da partida. Enquanto a bola entrava, Jefferson se estirava no gramado do Maracanã, já ciente do erro que cometera – um erro que se torna ainda mais evidente por ser tão raro de acontecer com ele.

 Argel teve neste domingo, ao bater o Juventude em Caxias do Sul, uma das vitórias mais expressivas de sua passagem pelo Beira-Rio. Depois de assumir um vestiário aos cacos após a goleada de 5 a 0 para o Grêmio no ano passado, o treinador cumpriu sua primeira missão: organizar a casa e quase levar o time colorado à Libertadores.

Mas faltava, e continua faltando, o segundo passo: fazer o time jogar melhor. Com futebol pragmático, poucos sinais de envolvimento tático e aposta no talento de garotos, o Inter jamais empolgou em 2016.

Mesmo assim, Argel está em vias de ser campeão. Em Caxias do Sul, foi bem.

Modificou o posicionamento de Vitinho – de onde saiu o passe para o gol de Andrigo. Se efetivamente for campeão, ganhará fôlego para manter seu trabalho (que chegou a ser ameaçado) no Inter.

A potência da Dupla Gre-Nal é uma moeda que tem, do outro lado, a fragilidade do interior gaúcho como consequência. A última vez que uma equipe rompeu a hegemonia de Porto Alegre no Gauchão foi em 2000, com o Caxias, treinado por Tite.

Desde então, é até comum clubes interioranos beliscarem as finais, mas sem grande capacidade de alcançar os títulos. Este ano, a realidade parecia diferente.

O Juventude, em momento de recuperação para o clube, apresentou um time bem estruturado, de campanha sólida na primeira fase e responsável por eliminar o Grêmio nas semifinais. Contra um Inter menos empolgante do que em outros anos, desenhou-se a chance de o Ju voltar a ser campeão estadual – algo que não acontece desde 1998.

Mas a derrota em casa foi um duro golpe na esperança alviverde. O título tornou-se improvável, e o interior gaúcho perdeu a chance de recuperar um pouco do espaço que tinha no passado.

O lateral-esquerdo Danilo nem titular do América-MG é. Estava no banco neste domingo, vendo sua equipe batalhar com o Atlético-MG no primeiro duelo da final estadual.

E de repente foi chamado a entrar em campo para substituir Tiago Luís, lesionado, ainda no primeiro tempo. Responsabilidade danada, né? Afinal, não pode comprometer.

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Mas e se o sujeito, além de não comprometer, vai lá e faz dois gols? Pois foi o que aconteceu. O melhor domingo da carreira de Danilo foi marcado por duas pancadas que venceram o goleiro Victor e deixaram o Coelho em vantagem na decisão do Mineiro.

Mesmo que ainda fique no banco, agora tem moral de titular. Boa parte da torcida do Atlético-MG tem o pé atrás com Diego Aguirre.

E a desconfiança aumentou depois do primeiro jogo da final do Campeonato Mineiro. O treinador, por causa da Libertadores, optou por poupar jogadores (caso de Lucas Pratto, por exemplo), apostou em Patric como titular e acabou derrotado pelo América-MG no Independência: 2 a 1.

Preservar atletas, aliás, é um ponto de discórdia no trabalho do treinador desde os tempos de Inter. Aguirre agora tem responsabilidade ainda maior de superar o Racing na Libertadores para amenizar a bronca da Massa.

Não teve gol de Grafite no empate por 1 a 1 com o Campinense neste domingo. Ele até perdeu uma chance clara.

E quem se importa? Ídolo da torcida coral, o atacante conquistou seu primeiro título com a camisa do time do coração. Assim, cumpriu seu maior objetivo no retorno ao Tricolor: ser campeão.

Depois de ajudar no retorno à elite do futebol nacional, conquistou a Copa do Nordeste, com cinco gols em oito jogos, e agora parte em busca do título estadual. É a chance de fechar um ciclo quase perfeito.

“É uma sensação que não se explica. Jogo pelo Santa Cruz e sou torcedor do clube.

Vencer com essa camisa é incrível. Vou comemorar duas vezes”, afirmou o atacante.

O Campinense fez campanha surpreendente, teve o apoio de sua torcida, saiu aplaudido da final e perdeu a chance de ganhar um título que já tem – foi campeão da Copa do Nordeste em 2013. Saiu derrotado, claro, porque queria mais uma taça.

Mas, pensando friamente, talvez a decepção seja maior para o futebol paraibano do que para o próprio Campinense. É que o estado perdeu a chance de ver uma competição continental pela primeira vez em sua história – se tivesse conquistado a Copa do Nordeste, o Campinense ganharia uma vaga na Sul-Americana, benefício que não existia em 2013.

Claro, o torcedor do Treze, por exemplo, ficou feliz ao ver o rival se dar mal, mas a Paraíba perdeu a chance de viver um momento único.Se tem um sujeito que nesta segunda-feira não pode ser acusado de ir mal em clássico baiano é Vagner Mancini.

Ele venceu mais um Ba-Vi – seu quarto em quatro jogos. Ao comandar a vitória de 2 a 0 sobre o Bahia no primeiro duelo da decisão estadual, mostrou ter o time na mão.

O Vitória jogou com segurança, com tranquilidade, sem afobação – por isso, controlou o melhor ataque da competição sem grandes sustos. Mancini encaminhou a conquista e viu o bom trabalho que realiza no Leão ser ainda mais fortalecido.

Campeão estadual nos dois últimos anos (pelo Ituano em 2014 e pelo Vasco em 2015), Doriva busca o tri, agora no Bahia. Mas viu o objetivo ficar mais distante neste domingo, ao ser dominado e derrotado pelo Vitória, por 2 a 0, no primeiro clássico da decisão regional.

O treinador teve uma semana e meia para preparar a equipe para a final, e o resultado prático foi decepcionante: um time frágil na defesa, desarticulado, lento na transição ao ataque. O Bahia caiu nas semifinais da Copa do Nordeste e agora está em apuros na final do Baiano, o que pode provocar novo estrago na carreira de um treinador que fazia projeção ascendente, mas que já não foi bem no São Paulo.

Talvez o maior vencedor do fim de semana no futebol brasileiro seja Paulo Autuori. O time não vinha bem, ainda se lamentava a perda da Primeira Liga para o Fluminense, e o treinador já tinha seu trabalho contestado.

Para piorar, o Atlético-PR perdeu três jogadores importantes para o primeiro duelo da decisão do Paranaense (Otávio, Vinícius e André Lima). O cenário era desanimador.

E o que aconteceu? Vitória por 3 a 0. E vitória por 3 a 0 com o dedo do comandante, que colocou Hernani no lugar de Jadson e Ewandro na posição de Marcos Guilherme – e viu suas escolhas fazerem gols na partida.

O Rubro-Negro pode até perder por dois gols de diferença na partida de volta para ser campeão. Era evidente que o Coritiba vivia um 2016 melhor do que o Atlético-PR.

Demonstrava ter uma equipe equilibrada, não havia levado um gol sequer na fase final do estadual, desfrutava os gols de Kleber Gladiador, lembrava da vitória no Atletiba da primeira fase. E aí tudo ruiu ao levar 3 a 0 no primeiro jogo da decisão estadual.

Não foi apenas o jogo: o Coritiba perdeu a autoestima. E isso é fundamental no clube – que vem apostando em jogadores experientes, em parte, justamente para aumentar o espírito vencedor de seu vestiário.

Tanto quanto taticamente, o time de Gilson Kleina precisará trabalhar mentalmente para a finalíssima.
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Fonte: Globo Esporte