Na onda de transferências do futebol brasileiro para o chinês nos últimos anos, a maioria dos atletas teve companhia de compatriotas ou sul-americanos no elenco a que se destinavam. Os ex-corintianos Renato Augusto e Ralf, por exemplo, foram juntos para o Beijing Guoan. Diego Tardelli, Jucilei, Aloísio, Gil e o argentino Montillo são treinados por Mano Menezes, no Shandong Luneng.

E, no Guangzhou Evergrande, Ricardo Goulart, Alan, Paulinho e o colombiano Jackson Martinez atuam sob comando de Luiz Felipe Scolari. Mas o caso de um dos destaques da Superliga Chinesa nesta temporada chama atenção: o boliviano Marcelo Moreno é o único sul-americano em um elenco recheado de chineses que ainda buscam se entender na atual edição do campeonato.

Não por acaso, o resultado é escancarado na tabela: o Changchun Yatai é o lanterna, com dois pontos em seis partidas. Mas Moreno tem se destacado no ataque da equipe, sendo o atual artilheiro da competição com cinco gols.

Os números do boliviano têm ainda mais impacto se comparados ao total da equipe, que balançou as redes apenas sete vezes na Superliga (o boliviano é responsável por 71,4% dos gols do clube). Na terceira rodada, por exemplo, Moreno fez três no empate por 4 a 4 frente ao Tianjin Teda – o outro foi contra.

– Eu acho que no futebol ninguém joga sozinho. Estamos nesse momento de se conhecer melhor, temos alguns jogadores ainda se entrosando, se adaptando.

Com certeza, isso é importante para todo mundo e a experiência que eu tenho ajuda bastante para que a gente possa desempenhar um bom trabalho na China. A adaptação não é fácil, a cidade é bem fria, mas a gente tenta passar por cima de tudo isso – disse o jogador, em entrevista por telefone ao GloboEsporte.

com.A vontade de Moreno é terminar o atual contrato com o Changchun, que vai até o fim da temporada.

Mas seu empresário, Fabiano Farah, revela que há sondagens de outras equipes chinesas pelo jogador, e que times do Brasil e da Europa também já mostraram vontade de contar com o boliviano a partir de 2017. Por estar “adaptado e valorizado”, o agente acredita que o atleta vive situação de conforto.

 – O Marcelo tem hoje uma situação contratual muito favorável, ele está adaptado e valorizado e podemos assinar um pré-contrato em junho, já que o contrato termina em dezembro deste ano. Ele cumpriu, com folga, uma etapa de suma importância que foi a adaptação no clube, na liga e com a grande diversidade cultural do país.

Poucos conseguem, muitos não se adaptam e desistem. Mas o processo não foi fácil.

Ele teve que comer um escorpião por dia para isso – afirmou Farah.Sobre uma possível volta ao Brasil, há preferência: o Cruzeiro, pelo qual Moreno foi campeão brasileiro em 2014, duas vezes campeão mineiro e artilheiro da Libertadores.

 Além dos números, fala alto o fator emocional. Na Raposa, o boliviano é lembrado com carinho especial pela torcida.

E se as duas passagens vitoriosas pelo time mineiro não servem de garantia, uma cena que ficou famosa em outubro do ano passado dá essa certeza: durante a vitória por 3 a 0 sobre o Sport no Mineirão, o jogador foi flagrado no meio de uma torcida organizada do clube na arquibancada.- Foi a maior sensação que eu tive na minha carreira, estar ali com a torcida, vendo o Mineirão lotado, cantando as músicas do Cruzeiro.

..

Para subir ali tem que ter história. Não é qualquer um que vai ali cantar com o torcedor.

Esse respeito a gente ganhou jogando dentro de campo, fazendo gols, tendo identificação com o clube. Foi tudo natural, nada forçado, ninguém precisou fazer marketing, porque ninguém precisa.

Com certeza foi um momento que vai ficar marcado na minha carreira – lembrou.Mas se sua saída do Cruzeiro foi marcada por bons sentimentos, deixando saudades nas duas partes, o mesmo não pode ser dito em relação à Bolívia.

Na companhia de outros atletas, o jogador renunciou à seleção em setembro do ano passado, por conta de declarações do técnico Julio César Baldivieso. E ao que parece, por seu tom convicto, a situação não tem horizonte de mudança:- Tudo continua igual.

É triste, dói bastante, mas estamos fazendo pelo bem do futebol boliviano. A gente acredita e sabe que em qualquer momento isso pode mudar.

Acreditamos, eu e os outros jogadores, que o futebol boliviano tem condições de melhorar. Vamos esperar para que possamos mostrar isso.

Desde fevereiro de 2015, quando se transferiu à atual equipe, Moreno mora com a esposa Marilisy Antonelli na cidade de Changchun. O jogador diz estar vivendo um aprendizado a cada dia, em um país de cultura bem diferente tanto do Brasil quanto da Bolívia.

A maior dificuldade, ele afirma, é o idioma, que dificulta tanto no dia a dia quanto na convivência com os companheiros de clube. Mas, apesar dos obstáculos, o jogador se sente abençoado pela quantidade de conhecimento a que vem sendo exposto.

– A China está me oferecendo muita coisa que eu não tinha visto antes. A gente se encanta com cada coisa que vê.

Entramos na cultura, tentamos fazer igual a eles. O idioma é bem difícil de entender, não estamos acostumados com a alimentação, mas vamos levando.

Esse é o único jeito de a gente viver. Com certeza, o futebol está crescendo bastante, jogadores e treinadores de grande potencial estão chegando.

As grandes estrelas do futebol brasileiro estão vindo para China. Daqui a um tempo, acredito que o futebol chinês crescerá ainda mais – concluiu.

*Estagiário, sob supervisão de Thiago Dias
.

Fonte: Globo Esporte