Conhecido pela irreverência fora de campo, Nilton viveu meses conturbados no início do ano. O sorriso deu lugar à preocupação após ser flagrado no exame antidoping em novembro de 2015. Foram sete meses afastado do grupo do Internacional, tempo mais do que suficiente para colocar a cabeça no lugar e planejar o próximo passo na carreira.

A felicidade voltou bem longe do Brasil. Em junho, o volante foi negociado com o Vissel Kobe, do Japão, e desembarcou do outro lado do mundo com moral: número 10 na camisa, gol nos primeiros jogos e direito a música da torcida.

 Nilton não foge do assunto doping, pelo contrário, usa a situação adversa para se motivar. Em entrevista por telefone ao GloboEsporte.

com, o jogador relembra a frustração, mas afirma ter passado pelo problema sem maiores complicações, principalmente pelo apoio da família e amigos, como o treinador Argel, antes comandante do Internacional, e Alecsandro, que atualmente passa pela mesma situação. No momento, o pensamento é retribuir a confiança da diretoria do Vissel Kobe, que apostou no jogador mesmo longe do melhor momento da carreira.

  Sei que não fiz nada pensando em melhorar meu desempenho para ganhar em cima dos companheiros do meu próprio clube. Esse período foi muito chato, não passava de jeito nenhum.

Mas coloquei na minha cabeça que eu tinha que ser mais profissional ainda, porque esse tempo afastado poderia me prejudicar.”- Com
certeza (é um recomeço), até pela forma como foi.

Sempre fui muito transparente na minha
profissional e pessoal. Sou dentro de campo o mesmo que sou fora, agindo sempre
de uma maneira correta, procurando nunca fazer mal a ninguém.

Eu quero deixar
uma imagem boa para os meus filhos, nós jogadores somos exemplos para crianças
dessa nova geração, e é isso que deixei no Brasil, mesmo com essa situação do
doping. Eu estava muito tranquilo até no momento do julgamento, na hora da punição.

Sei que não fiz nada pensando em melhorar meu desempenho para ganhar em cima
dos companheiros do meu próprio clube. Esse período foi muito chato, não passava de jeito nenhum.

Mas coloquei na minha cabeça que eu tinha que ser
mais profissional ainda, porque esse tempo afastado poderia me prejudicar.
Acabei treinando, mais obediente em algumas coisas que não estava dando tanta
importância.

Quando retornei fiz dois jogos pelo Internacional, ainda em alto
nível. Contra o São Paulo, no Morumbi, conseguimos a vitória e joguei 45
minutos depois de sete meses afastado.

 A minha vida sempre foi passando por cima de adversidades. Dificuldades sempre houve e nunca vão acabar.

Foi um momento que pensei muita coisa, não era hora de ficar culpando um ou outro, mas sim focar e se motivar. Agora, no Japão, mesmo sabendo o que aconteceu comigo, eles depositaram confiança.

É por isso que estou aqui, me esforçando e mostrando para eles que não vão se arrepender por terem tomado essa decisão, para cada vez mais cair nas graças dos torcedores e fazer história no Vissel Kobe. São 25 anos de clube e nenhum título, e por onde passo conquisto títulos.

Aqui não vai ser diferente. Pelo time japonês, três jogos, uma vitória, um empate e uma derrota – e a busca pelo primeiro título longe do Brasil, que seria também o primeiro do Vissel Kobe nos 25 anos de histórioa.

A camisa 19, característica do volante, foi substituída pela 10. Com o novo número, novas responsabilidades, assumidas com naturalidade e, como não podia faltar, dose de bom humor.

 – Quando eu
estava para concretizar a negociação eu tinha pedido a 19, mas era do nosso
capitão, o Kazuma, e eu respeitei. Acabou que a 10 estava vaga, e eu gosto de
responsabilidade, de desafios, acabei assumindo.

Estou conseguindo ter boas
atuações, consegui cair na graça dos torcedores desde o início. Fizeram até
musiquinha já (risos), isso está sendo muito bom para mim, para minha vida.

Era um
momento que estava precisando respirar ares novos, estou conseguindo isso no
Vissel Kobe. Toda vez
que pego a camisa para vestir, eu olho bem e acabo assimilando, tirando bons
pensamentos, pensando que jogadores de alto nível já usaram a camisa 10.

É
claro que não penso em querer fazer coisas semelhantes a eles, mas sim coisas
de acordo com as minhas limitações. Mas de vez em quando tem que tirar algumas da cartola, né (risos)? Toque de
letra, um calcanhar, um chapéu.

..

Nesse penúltimo jogo fiz um gol de cabeça,
característica forte minha, mas dei um passe e deixei meu companheiro na cara
do gol, passe de 30, 40 metros. A gente acaba tirando algumas coisas da cartola
para estar ajudando o grupo.

 Aos 29 anos, Nilton tem carreira marcada por apenas quatro clubes antes da ida ao Japão. Revelado no Corinthians, passou por Vasco e Internacional, mas revela ter sido no Cruzeiro o momento de maior destaque.

Na alcunha de “papa-título”, por ter levantado taças por onde jogou, guarda com carinho a torcida do clube de Minas Gerais e os dois títulos do Campeonato Brasileiro. – Eu sempre
tive momentos bons por todos os clubes que passei.

Desde o meu primeiro gol
pelo Corinthians, no Maracanã, nunca vou esquecer. Tinha um sonho de jogar no
antigo Maracanã, isso aí posso ficar feliz e realizado, joguei no antigo e no
novo.

No Vasco tive momentos de glória, foi onde as portas se abriram para mim
e consegui mostrar quem era o Nilton. No Cruzeiro foi o mais impactante, acabei
sendo melhor volante, despertou interesse em Inter de Milão, o próprio
Internacional, que consegui ter bons momentos, tirando o doping.

Mas o Cruzeiro
acabou sendo o mais marcante na minha vida, até pela forma como os mineiros me
receberam. Até torcedores do Atlético-MG acabaram me elogiando.

Foram dois anos
de vitórias, títulos, dois Brasileiros. Consegui deixar uma boa impressão.

Até
hoje nas minhas redes sociais são mais os torcedores do Cruzeiro que acabam
pedindo para voltar, ficam torcendo pela minha vitória no Japão. Tenho um carinho
muito grande pelo clube, também por jogadores que ainda se encontram no clube.

Torço muito para eles conseguirem sair dessa situação ruim. 
.

Fonte: Globo Esporte