Várias imagens povoam as lembranças e alimentam o imaginário do torcedor cruzeirense 20 anos após a inesquecível conquista da Copa do Brasil de 1996. O Cruzeiro venceu o Palmeiras, por 2 a 1, no Parque Antártica, e levou a taça para Belo Horizonte (relembre no vídeo abaixo). As defesas milagrosas de Dida, a raça de Fabinho, a liderança de Nonato, a inteligência de Ricardinho e a energia de Roberto Gaúcho são páginas vivas na memória do torcedor.

Mas, sem dúvida, a primeira imagem que vem à cabeça é o gol de Marcelo Ramos, que valeu o bicampeonato ao Cruzeiro. O empate por 1 a 1 no Mineirão obrigou o time mineiro a vencer a partida de volta ou empatar por 2 a 2 ou mais para ser campeão.

O problema é que os paulistas tinham um timaço, com Cafu, Júnior, Djalminha, Rivaldo e Luizão, e era considerado franco favorito para a conquista do título. Aos 37 minutos do segundo tempo, com o placar em 1 a 1, a Copa do Brasil caminhava para ser decidida nos pênaltis.

Até que Roberto Gaúcho cruzou na área, Velloso falhou e Marcelo Ramos não perdoou, decretando a vitória do Cruzeiro.Marcelo Ramos marcou 162 gols com a camisa do Cruzeiro, o que faz do atacante baiano o quinto maior artilheiro do clube mineiro em todos os tempos.

Revelado pelo Bahia, ele chegou a Belo Horizonte com 21 anos e marcou época. Foi dele também o gol do título mineiro de 1997, no jogo que registrou o maior público presente da história do Mineirão.

Marcelo Ramos teve três passagens pelo Cruzeiro ao longo da carreira. Ele atuou também por Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Atlético-PR e Santa Cruz, entre outros.

Além disso, jogou em clubes da Holanda, do Japão e da Colômbia.A conquista do título de 1996 completa 20 anos no próximo domingo.

O GloboEsporte.com está lembrando todos os detalhes do título e conversando com os principais personagens.

Na primeira parte da série, contamos como eram o Brasil e o mundo em 1996. Na segunda, como estão os 21 jogadores que entraram em campo na campanha.

Na terceira parte, tivemos um bate-papo exclusivo com Marcelo Ramos, que relembra os principais momentos da conquista da Copa do Brasil de 1996, a emoção por ter marcado o gol do título e tudo que antecedeu e sucedeu o jogo final.GloboEsporte.

com – A conquista do título da Copa do Brasil de 1996 completa 20
anos no próximo domingo. Foi um título muito marcante para o Cruzeiro, para a
torcida e para vocês jogadores.

O que este título representa pra você, mesmo
passados 20 anos?Marcelo Ramos – O título de 1996 representa muito na vida. Todos sabem das
dificuldades que a gente teve pra conquistar esse título.

Pela situação que foi,
o Palmeiras com aquele time. Toda a mídia, principalmente a de São Paulo, dando
o time deles como campeão.

Isso acabou ficando marcado pro torcedor
cruzeirense. A gente empatou no Mineirão e, no segundo jogo, eles, com cinco
minutos fazem 1 a 0.

Realmente, foi um título que muita gente, a grande
maioria, não esperava. Foi como eu falei.

Da forma que foi, acabou sendo muito
significante na história do clube. Pra mim, principalmente, porque eu fiz o gol
do título.

Claro que a Libertadores é o título mais importante da história do
clube, mas essa Copa do Brasil, das que o Cruzeiro conquistou, foi a mais
marcante para o torcedor. A gente deve receber muitas mensagens e homenagens do
torcedor.

A lembrança que eu tenho é da gente chegando na Pampulha. O aeroporto
lotado, nós no carro de bombeiros, desfilando pela cidade.

Foi muito marcante.
Foi o título mais marcante pra mim, não só porque fiz o gol, mas da forma que
foi.

O fato de chegar em São Paulo com praticamente o Brasil
inteiro acreditando que era um jogo só pra cumprir tabela porque o título já era
do Palmeiras deu uma motivação a mais para o time?

– Sem dúvida nenhuma! A gente acreditava muito no time que a
gente tinha. Tínhamos eliminado grandes clubes, como Corinthians, Vasco e
Flamengo.

Então, a gente acreditava que tudo poderia acontecer. Nós
respeitávamos muito o time deles, que tinha grandes jogadores, de seleção.

Mas,
nosso time era muito forte, muito fechado. O Levir conseguiu juntar todo mundo.

Jogadores que não tinham oportunidades não ficavam insatisfeitos. O grupo
realmente estava fechado.

Acabou que a gente acreditava. A gente sabia que era
muito difícil, principalmente pelo primeiro jogo.

A gente queria ter feito o
placar, vencer por pelo menos 1 a 0 e não tomar gol em casa, mas, infelizmente,
isso não aconteceu, a gente empatou. Mas, mesmo assim, ele conversou muito com
a gente.

Tinham jogadores experientes, como Nonato e Palhinha, que orientavam
muito o time. Os jogadores mais jovens também estavam acostumados com decisões.

Eu ia completar 23 anos. Vítor e Dida também eram novos.

Apesar da idade,
jogadores acostumados com decisões. O jogo foi muito difícil, foi muito sufoco.

Dida estava numa noite inspirada. Nas duas oportunidades que a gente teve, a
gente foi decisivo.

Eles erraram, mas a gente conseguiu fazer os gols. Eu acho
que o título foi merecido.

O Cruzeiro demorou a entrar no jogo. Tomou o gol com 5
minutos e custou a colocar os nervos no lugar.

Você chegou a pensar no pior,
que o Cruzeiro tomaria mais gols e perderia o título, pelo que aconteceu no
começo do jogo?- Na verdade, a gente mostrou nossa força e muita
tranquilidade. Foi como eu falei.

Jogadores experientes chamaram o time pra
manter a calma e não levar o segundo gol porque ia complicar muito mais. O Palhinha
conversava, o Nonato, o Célio Lúcio, que também era um cara experiente, pediu
pra gente segurar a bola no ataque para diminuir a pressão.

Quando a gente
empatou, acalmou. Era muito sufoco, o estádio estava lotado.

A maioria dos
torcedores era deles. A sorte foi que a gente não levou o segundo gol.

Empatamos e quando voltamos para o segundo tempo, estávamos no jogo, levando a
decisão para os pênaltis. Eles tinham muita qualidade.

Nós fizemos toda a
marcação que tinha que ser feita, mas ainda assim, eles conseguiram criar
muitas situações. Dida estava numa noite muita inspirada, defendendo tudo.

A
gente ia lá e dava uma beliscada no ataque. Palhinha teve chance, eu também
tive outra.

E aí no lance decisivo, passa um filme na cabeça. Quando a gente
fez o gol, viu que não tinha mais jeito, eles desmoronaram.

Não tinha mais como
eles reverterem o placar.Na campanha do título, houve duas goleadas marcantes, um 6 a
2 sobre o Vasco e um 4 a 0 sobre o Corinthians.

Isso também foi um fator para o
grupo acreditar mais em si mesmo na final?- Sem dúvida, a gente acreditava muito. Corinthians e Vasco
eram fortes candidatos ao título também.

Ganhar do Vasco de 6 a 2 no Rio
realmente mostrou a força do grupo. O Corinthians tinha um timaço e a gente fez
4 a 0 no Independência.

A gente sabia da nossa qualidade técnica. O Palmeiras
tinha um time com jogadores de seleção e fez mais de 100 gols no Campeonato
Paulista, e foi criada toda esta expectativa.

Ficou uma prova de que o futebol
é decidido dentro de campo, você não pode cantar vitória antes.  Eu tenho certeza que essa Copa do Brasil foi
uma prova disso e um título muito marcante.

Vocês fizeram uma foto para o jornal Estado de Minas, na
véspera do jogo, em uma mesa, com uma leitoa assada (o porco é um dos mascotes
do Palmeiras). O que rendeu daquele episódio? Algum jogador do Palmeiras chegou
a reclamar com vocês?- Na verdade, foi uma inocência muito grande da nossa parte.

A gente foi muito infeliz, mas sem maldade. Não era nossa intenção criar nenhum
tipo de rivalidade, até porque a gente sabia quanto o jogo ia ser difícil.

O
Levir chamou a gente e deu uma bronca, no estilo dele, e com razão. A gente
acabou atiçando ainda mais o adversário, mas em nenhum momento, os jogadores
deles, dentro de campo, falaram alguma coisa pra gente.

Eles tinham muita
confiança no título. Foi uma atitude infantil, mas sem intenção de provocar.

Serviu de lição. Graças a Deus, a gente venceu o título, mas se tivesse
perdido, a responsabilidade ia ser muito grande em cima da gente.

Você ainda lembra da exata sensação que teve logo após
marcar o segundo gol?Eu decidi ir para a área. Dei um pique de 40, 50 metros.

Quando o Velloso largou a bola, eu já estava sem força. Foi meu último respiro.

Quando eu vi a bola entrando, senti uma emoção que não tem explicação. Naquele momento eu estava dando alegria para milhões de cruzeirenses.

Quando a bola entra, é uma alegra só- Eu me lembro de tudo. De toda a jogada.

Eu recebi a bola
no meio-campo. Eu já estava muito cansado.

Apesar de ser novo, ter apenas 22
anos, o jogo foi muito desgastante. A parte psicológica também estava muito puxada
pra gente.

A gente estava sem pernas. Eu toquei a bola pro Roberto e fiquei na
dúvida se ia para o ataque.

Eu estava pensando mais em defender e levar o jogo
para os pênaltis do que tentar fazer outro gol, porque a gente estava tendo
poucas chances. Eu decidi ir para a área.

Dei um pique de 40, 50 metros. Quando
o Velloso largou a bola, eu já estava sem força.

Foi meu último respiro. Quando
eu vi a bola entrando, senti uma emoção que não tem explicação.

Naquele momento
eu estava dando alegria para milhões de cruzeirenses. Quando a bola entra, é
uma alegra só.

Eles não tinham mais como reverter, tinham que fazer dois gols
em oito minutos. A gente se fechou e esperou o juiz apitar pra comemorar o
título.

Eu fiz 162 gols pelo Cruzeiro, mas só recebo ligações pra falar deste
gol. Da forma que foi toda a história da Copa do Brasil, os cruzeirenses me
contam muitas histórias, que não esperavam a vitória, mas que fizeram muita
festa com esse gol.

Eu me sinto muito honrado por ter dado essa alegria ao
torcedor.Esse gol valeu ao Cruzeiro o direito de disputar a Libertadores
de 1997.

Nesse meio tempo, você foi pra Holanda e voltou na reta final da
competição, da qual também foi um dos heróis. Como você se sente ao personagem
importante da maior conquista da história do clube?

– Eu fico muito feliz.

Logo depois da decisão da Copa do
Brasil, eu comemorei meu aniversário de 23 anos. No início de julho, recebi uma
ligação do meu empresário dizendo que eu ia jogar na Europa.

Foi uma alegria,
porque era um sonho, mas foi difícil também sair do Cruzeiro. Mas, como
profissional, eu precisava jogar num time de fora.

Eu joguei uma temporada no
PSV da Holanda e recebi o convite pra voltar ao Cruzeiro e jogar a
Libertadores. Não pensei duas vezes.

Sabia da dificuldade que o time na
primeira fase. Eu consegui ser decisivo na Libertadores.

Agradeço muito a Deus
por ainda ter me dado esse título. Estava marcado já pra eu entrar na história
do clube.

Não foi fácil retornar, porque todo jogador quer ficar na Europa
muito tempo. O Cruzeiro era o meu lugar e consegui escrever toda essa história
dentro do clube.

O que significa ser ídolo do Cruzeiro e receber tanto
carinho da torcida mesmo depois de tantos anos após ter aposentado?- É uma emoção que não tem explicação. Quando vou a Belo
Horizonte, sempre sou muito entrevistado e procurado.

Muitos torcedores jovens
falam comigo e dizem que ouviram muitas histórias contadas pelos pais. É uma
sensação de dever cumprido.

Quando chego em BH é uma loucura, uma grande
alegria. São 20 anos desse título e as pessoas ainda lembram.

Espero que o
clube faça alguma homenagem porque a gente merece essa lembrança. É muita
felicidade saber que consegui dar essa alegria à torcida do Cruzeiro.

A turma campeã em 1996 era muito unida. Mesmo depois de 20
anos, vocês ainda mantêm contato? – A gente tem um grupo no WhatsApp e vai se comunicando.

Eu
sempre vejo o Nonato, a gente sempre se encontra. Ele gosta de reunir a
rapaziada, era nosso capitão.

Falo muito com o Dida, o Vítor e com o Gélson
Baresi, principalmente. Se o Cruzeiro pudesse reunir todo mundo num jogo
festivo e fazer uma homenagem seria muito legal.

.

Fonte: Globo Esporte