“O tapete da realeza é verde”, já dizia um verso da música “Uma Partida de Futebol”, do Skank. De fato. O gramado do campo principal da Toca da Raposa é verdinho, perfeito, impecável.

A bola rola fácil, sem problemas para os meias habilidosos e para os atacantes que precisam da bola perfeita para finalizar. Na hora do treinamento dos goleiros, porém, nem sempre é assim.

Às vezes, a área deixa de ser toda verde para ter um tapete azul, de lona, molhado. Na frente do goleiro, em vez de um atacante com uma bola em condição de chute, um preparador de goleiros e mais de 20 bolas de borracha no meio do caminho.

O responsável por tudo isso é Robertinho, preparador de goleiros do Cruzeiro, que é também inventor de alguns treinamentos nada convencionais.Sabe quando alguém joga uma pedrinha em um lago, e ela quica na água antes de afundar? Pois é.

Em um dos treinos “malucos” de Robertinho, é mais ou menos isso que acontece. Só que não é pedra, é bola.

E não é um lago, é uma lona molhada sobre o campo. A ideia é dificultar a vida dos goleiros.

Quando a bola quica na lona molhada, ela ganha velocidade. Além disso, em cima da lona, o preparador de goleiros da Raposa coloca várias bolas de borracha.

Quando a bola acerta alguma dessas bolinhas, ela muda completamente de direção e complica a vida de quem vai defender, ou tentar defender (confira no vídeo abaixo). Quanto mais difícil o treino, mais fácil o jogo.

É assim para os goleiros do Cruzeiro. Robertinho explica como surgiu a ideia deste treinamento diferente.

 – Começou com aquelas grades, com aqueles ferros que eu usava pra bola desviar, essa era a ideia inicial. Aí eu pensei em colocar essas bolas na frente.

Foi uma criatividade que surgiu, a ideia apareceu na hora. Pensei que isso daria um efeito melhor.

Com os ferros, a bola bate, sobe, vai pra fora do gol. Com as bolinhas, a bola só vai mudar de trajetória, não vai fazer com que ela saia da direção do gol, vai só tirar ela do goleiro.

Fiz o teste com os goleiros, foi muito bom e foi só aperfeiçoando. A lona eu já tinha usado outras vezes.

Aí no treinamento já tava difícil com a lona e coloquei as bolas em cima dela. Além da bola tomar uma velocidade maior quando bate na lona, ela vai desviar e a dificuldade para o goleiro vai ficar muito maior.

Foi assim que surgiu, foi muito natural e espontâneo.LEIA MAIS>>> Veja e reveja: semelhanças da defesa de Fábio com a de Gordon BanksA ideia de todos estes treinamentos, segundo Robertinho, é simular situações de jogo.

E tem dado resultado. Em várias situações nas partidas, Fábio executa defesas com um pouco mais de facilidade devido aos treinamentos “malucos”, como explica o preparador de goleiros, que está no cargo desde 2010.

– Já aconteceram situações nos jogos muito semelhantes ao que acontece nos treinamentos com as bolinhas, com a lona, com as estacas. Já aconteceu, e o Fábio conseguiu defender.

Em Muriaé, por exemplo (contra o Tombense, pelo Campeonato Mineiro), teve uma falta que o cara bateu, a bola desviou, e o Fábio teve que voltar rápido pra defender. No Mineirão, contra o América, o cara chutou, a bola desviou, o Fábio estava indo para um lado e voltou com muita tranquilidade e naturalidade e fez uma defesa que aos olhos dos outros pode parecer fácil, mas não é.

É porque ele está no automático já. A gente procura preparar e eu tenho visto muito resultado tanto nos jogos quanto no treino.

A lona molhada e as bolas de borracha na área não são os únicos artifícios que Robertinho usa para deixar os goleiros do Cruzeiro preparados para as partidas. Ele conta outros objetos e outras ideias de treino que leva para o campo na preparação de Fábio, Rafael e companhia.

Além disso, Robertinho conta que acompanha seus colegas de profissão ao redor do mundo e está sempre de olho em possíveis novos treinamentos. Com certeza vem mais maluquice por aí.

– Eu tenho duas caixas envelopadas com uma borracha que escorrega muito. Essa borracha molhada escorrega demais.

Eu faço vários treinos nessa caixa mesmo, a bola quicando em cima dela, aí ninguém sabe onde a bola vai. Isso é um treinamento bem bacana, para treinar velocidade de reação.

Tem a da cortina também. Coloco uma cortina na frente dos goleiros, e a bola desvia, muda a trajetória, vai pra um lado, desvia nas fitas, as vezes perde velocidade, as vezes ganha velocidade.

A gente está sempre inovando. Eu acompanho os treinadores de goleiros dos grandes clubes de todas as partes do mundo.

Do Bayern de Munique, do Barcelona. Mas as informações que nós temos são poucas.

Fico tentando idealizar, pensando o que eu posso fazer pra simular situações de jogo. Eu vivo intensamente isso, procuro, estudo, dedico, fico pensando, troco ideia com os goleiros.

Tem um monte de coisa que quero fazer, mas são ideias minhas e espero que no futuro eu consiga colocar na prática.
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Fonte: Globo Esporte