Marcelo Bordon vivenciou, em três meses como técnico, experiências que provavelmente nunca encarou em quase 20 anos como jogador profissional. Ele, que nasceu para o futebol no São Paulo e passou boa parte da carreira na Alemanha, precisou de poucos dias no Rio Branco, time tradicional do interior paulista, para ver comida faltar no alojamento. Ver salários atrasados sem qualquer perspectiva de quitação.

E ver também a gota d’água: atletas precisarem ir com o próprio carro para um jogo, pois o clube não teve condições de garantir um ônibus à delegação.Esses tristes acontecimentos resumem a passagem de Bordon por Americana.

O ex-zagueiro ultrapassou seu limite, físico e emocional, na tentativa de tirar o Rio Branco do buraco. Pediu demissão e deixou a equipe na lanterna da Série A2, com a missão praticamente impossível de evitar o rebaixamento à terceira divisão do Campeonato Paulista.

 Cansou de dar murro em ponta de faca. Cansou também do sistema que rege o futebol brasileiro, que, para o agora técnico de 40 anos, está fadado à falência se algo não mudar rapidamente.

Estou assustado de ver o que estão fazendo com o futebol brasileiro. O futebol paulista dá medo.

Dá dó”– Só vai demorar muito (para o futebol brasileiro reagir) se começar hoje. Porque não é só o Rio Branco que está nessa situação.

Muitos outros (clubes) estão. Se não houver preparação, gerenciamento, clareza nas coisas.

..

O dinheiro sempre vem, senão as pessoas não queriam ficar nos clubes. Mas o jeito que é colocado, que o comando é feito, vai acabar, cara.

Estou assustado de ver o que estão fazendo com o futebol brasileiro. O futebol paulista dá medo.

Dá dó, a palavra melhor é dó. Um sentimento ruim de que está acabando, a qualidade diminuindo, os jogadores trocando de time por 300, 500 reais.

Não sei onde vai parar – disse o técnico.LEIA MAIS: Bordon pede demissão e deixa o Rio Branco à beira da queda na Série A2A primeira experiência de Bordon como treinador reúne acontecimentos quase amadores.

Ele conta que o Rio Branco mal disponibilizava refeições ao grupo. Certa vez, faltou até pão.

Na partida de quarta-feira, contra o Paulista (a última do comandante), a diretoria não conseguiu um veículo que levasse todos da delegação ao Estádio Jayme Cintra, em Jundiaí – tentaram até um ônibus escolar, sem sucesso. Os atletas foram com seus carros, e um quase chegou atrasado porque o pneu furou no trajeto da Rodovia Anhanguera, que separa Americana de Jundiaí.

Jogadores do Rio Branco tiveram que ir com o próprio carro para a partida contra o Paulista, na quarta-feira passada. Não havia ônibusTudo isso, segundo Bordon, minou o sucesso de um trabalho que já começou de forma dolorosa.

O Rio Branco queria que a folha salarial atingisse no máximo R$ 45 mil (valor que, dividido em 28 jogadores, daria R$ 1,6 mil por atleta). A quantia subiu para R$ 60 mil durante a Série A2 do Paulista, torneio em que o time não encaixou bons resultados.

Em 16 rodadas até agora, são duas vitórias, cinco empates e nove derrotas, aproveitamento de 23%. O rebaixamento deve ser sacramentado matematicamente no fim de semana.

LEIA TAMBÉM: Em busca de milagre na A2, Rio Branco define substituto de Bordon– Investi 24 horas tentando arrumar uma coisa que estava errada. Passei um pouco do meu limite.

Tinha pedido para sair algumas vezes, mas os jogadores pediram para ficar, então fiquei por consideração. Não sou de largar mão, mas precisa ter o mínimo de respeito.

Acharam que o dinheiro parado na Justiça ia sair. Rio Branco é um clube com um patrimônio bacana, com coisas para serem acertadas, mas não pode contar com isso (dinheiro parado na Justiça), porque demora um tempo.

Não saiu, as contas foram chegando..

.Bordon tem certeza que tudo que viveu no Rio Branco é reflexo de como anda o futebol na atualidade.

E o técnico conhece do assunto. Surgiu na base do Botafogo de Ribeirão Preto, passou cinco anos no São Paulo e 11 na Alemanha, onde defendeu as camisas de Stuttgart e Schalke 04.

Jamais voltou para encerrar a carreira no seu país (fez isso no Al Rayyan, do Catar), talvez por saber que o profissionalismo que aprendeu na Europa não se aplica no Brasil.E MAIS: Discussão interna e desabafo de Bordon detonam crise no Rio Branco– São anos que o Brasil está dormindo, que está precisando despertar.

Na Alemanha, aprendi uma palavra muito nova para a gente aqui: verdade. O que estamos passando na política é o reflexo da casa, das escolas, dos clubes.

Nós aprendemos a viver na mentira aqui no Brasil. Queria que a gente começasse a atacar a verdade de frente, vivendo com o que somos e podemos.

O alemão vive em uma intensidade diferente da nossa. Ele se organiza, vai para campo, dá seu máximo e, se perde, sabe que fez o máximo que podia.

Não tem espaço para dúvida. Nós deixamos muito espaço para a dúvida.

São anos que o Brasil está dormindo, que está precisando despertar. Na Alemanha, aprendi uma palavra muito nova para a gente: verdade.

Nós aprendemos a viver na mentira aqui no Brasil”A dúvida citada na última resposta não passa pela cabeça de Bordon quando perguntado se pretende insistir na carreira à beira do campo. Ele não se desanima com a experiência ruim logo de cara.

Aponta problemas que precisam ser corrigidos, como o trabalho insuficiente na base, e diz que está disposto a ajudar com uma nova mentalidade. Mais alemã, por assim dizer, visto o sucesso do país na última Copa do Mundo disputada em solo brasileiro.

Para o técnico, o 7 a 1, placar do jogo semifinal entre os dois países, representa de maneira clara a diferença entre as culturas. Uma vencedora, outra cada vez mais à caminho da derrota.

– Não queria comparar uma estrutura da Alemanha com o Brasil. Só que o mínimo a gente sempre espera.

Se o jogador fala que é profissional, precisa entender o treino, dominar uma bola, jogar, fazer um treino adequado. A intensidade do treino precisa mudar, é muito lenta aqui no Brasil e deixa a gente passado na hora do jogo.

A gente vê isso em Libertadores, jogos de seleções. A gente ainda corre que nem maluco e sem direção.

 
.

Fonte: Globo Esporte