01.Punição aos culpados  02.Clubes isentam organizadas 03.

Colaboração de todas instituições Aurenice de Sousa Cavalcante chora a morte do filho. Integrante da Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF), Jullian Sousa Cavalcante, de 20 anos, levou um tiro nas costas e, levado a um hospital na capital cearense, não resistiu.

Isso aconteceu no dia 13 de março deste ano, e a dor da mãe do jovem não é isolada. Desde o início de 2012 já são 18 mortes ligadas ao futebol em Fortaleza e na região metropolitana, com o pico da violência indo até abril de 2013: foram 12 mortes registradas relacionadas aos conflitos entre torcedores de Ceará e Fortaleza.

Em média, até hoje, são mais de três homicídios por ano. O último caso de morte de torcedor registrada num Clássico-Rei foi justamente a de Jullian, assassinado no bairro Bom Jardim, periferia da capital.

Ele seguia para a Arena Castelão, onde o Fortaleza bateu o Ceará por 2 a 1, mas acabou morrendo num confronto com a torcida rival. No mesmo dia, dois policiais ficaram feridos enquanto serviam à segurança na cidade.

Curiosamente, para o jogo, o Ministério Público havia vetado a entrada de duas facções do Fortaleza – a TUF e a Jovem Garra Tricolor (JGT) – e de uma do Ceará – a Cearamor – à Arena Castelão com qualquer artefato que remetesse às torcidas. Ainda assim, houve confronto em bairros vizinhos e também na Arena, incluindo garrafas arremessadas de um lado ao outro pelos vândalos.

Segundo pesquisas feitas pelo jornal Diário do Nordeste, do início de 2012 até abril de 2013 foram 12 mortes associadas ao futebol. À época, com a Arena Castelão fechada para reformas visando à Copa das Confederações, o palco utilizado para Clássico-Rei era o Presidente Vargas.

Com o estádio situado no bairro residencial do Benfica, com ruas estreitas para a chegada das torcidas, o clima inflamou os duelos válidos pelo estadual. Houve debate sobre a necessidade de reforço no policiamento e a possibilidade de as partidas terem torcida única.

Por fim, alvinegros e tricolores foram liberados para ver os jogos. Em campo, o que se viu foi espetáculo, com duelos emocionantes.

No dia 19 de março de 2012, no entanto, dois torcedores da Cearamor foram mortos no bairro Aerolândia. Um deles era Emanuel Ribeiro de Lima, de 21 anos.

Em 26 de maio do mesmo ano, três torcedores do Fortaleza foram assassinados em Caucaia, na Região Metropolitana.Do início de 2012 até abril de 2013, foram 12 mortes associadas ao futebol no Ceará.

No dia 14 abril de 2013, os homicídios ganhavam destaque num Clássico-Rei. Dois torcedores do Ceará foram mortos com tiros na cabeça quando seguiam a pé em direção ao Castelão.

O duplo homicídio ocorreu no bairro Itaperi, e um dos suspeitos do crime foi preso quando tentou escapar de uma blitz do Batalhão de Polícia Rodoviária Estadual (BPRE). No mesmo jogo, 204 pessoas foram detidas no entorno da Arena Castelão: 108 adultos presos e 96 adolescentes apreendidos.

Era o primeiro evento-teste para a Copa das Confederações de 2013. Após o episódio, de maio a dezembro, foram mais duas mortes por homicídio.

Um dos casos foi o assassinato de um integrante da TUF, na Praça da Gentilândia, ao lado do Presidente Vargas. O crime ocorreu momentos antes do jogo do Fortaleza pela Série C do Campeonato Brasileiro.

A vítima tinha 27 anos. Em 2014, mais duas vítimas da violência envolvendo as torcidas de Ceará e Fortaleza.

Em abril, em mais um Clássico-Rei, dois torcedores usando a camisa do seu time. Um deles foi o policial militar Paulo Sérgio Gomes de Oliveira, executado no dia 23 de abril de 2014, na Vila Peri, em Fortaleza.

O crime aconteceu por volta das 21h30, pouco antes do início do jogo entre Fortaleza e Ceará, pela final do Campeonato Cearense 2014, na Arena Castelão. Ele estava com uma camisa do Tricolor e se preparava para assistir à decisão numa churrascaria do mesmo bairro.

De 2015 até março de 2016 houve uma morte em cada ano. Em abril passado, uma discussão entre torcedores deixou um morto e um ferido no Panamericano.

Em março do mesmo ano, um Clássico-Rei teve nada menos que 166 detidos na Arena Castelão, número menor apenas que o registrado em 2013. 01Punição aos culpados  Procurada pela reportagem, a  Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE) comunicou que não tem os dados das mortes relacionadas somente ao futebol.

Segundo ela, não há divisão da causa do homicídio nesta categoria. A procura pelos acusados e a punição dos culpados são feitas pela delegacia do bairro em que as ocorrências são contabilizadas.

Ao GloboEsporte.com/ce, a 4ª Unidade do Juizado Especial de Fortaleza, através da juíza Maria José Bentes Pinto, comunicou que todos os dados relacionados ao futebol podem ser coletados totalmente apenas a partir de maio de 2014, quando foi criado o órgão para apurar esse tipo de caso.

Ainda assim, os homicídios não são de competência do Juizado do Torcedor. – Temos pessoas presas e condenadas.

Antes de maio de 2014, porém, éramos plantonistas e não tínhamos o acervo do que ocorreu. Não é com a punição que temos dificuldade.

É com a efetividade da saída dos torcedores do palco do jogo, de serem excluídos de lá. Com isso não temos uma efetividade.

Não há um controle de venda de ingressos. Mandamos para a Federação Cearense de Futebol (FCF) os nomes deles, mas os ingressos não são nominados.

Eles deveriam ser identificados nas catracas, o que demandaria muito tempo num jogo com 50 mil pessoas. Deveríamos ter a opção de mantê-los num local onde eles recebessem atividades ressocializantes.

Psicólogos, sociólogos, profissionais capazes de promover essa ressocialização. O Tribunal de Justiça teria essa opção? Ou Federação, estado ou município? Quem teria a responsabilidade disso e de aplicar recursos? Essa é a questão – explica a juíza Maria José Bentes Pinto.

 Não é com a punição que temos dificuldade. É com a efetividade da saída dos torcedores do palco do jogo, de serem excluídos do estádio.

Em Fortaleza não há um espaço específico para esse tipo de caso, em que o torcedor condenado por baderna seja isolado para não entrar nos estádios. No entanto, na última terça-feira, dia 22, o Fortaleza comunicou que a 4ª Unidade do Juizado Especial de Fortaleza, através do promotor Francisco Xavier Barbosa Filho e da juíza Maria José Bentes Pinto, definiu sentença para cinco dos sete infratores identificados como responsáveis por atos de vandalismo e violência na partida Fortaleza x Sport, na Arena Castelão, pela Copa do Nordeste.

O jogo ocorreu no dia 9 deste mês e foi paralisado pelo conflito. O Fortaleza também comunicou que, a partir de terça, não repassará mais ingressos para comercialização em pontos de vendas de torcidas organizadas ou em locais ligados a elas.

Além disso, nos próximos 90 dias os cinco torcedores terão que cumprir oito horas semanais de prestação de serviços à comunidade no Instituto José Frota, na Casa do Menino Jesus e no Hospital Universitário Walter Cantídio. Eles não poderão comparecer aos estádios em jogos do Fortaleza ou Ceará e terão que se apresentar no Batalhão de Eventos da Polícia Militar duas horas antes do início dos jogos e permanecer até uma hora após o término das partidas.

O clube informou ainda que a frequência do quinteto será controlada tanto pelas entidades assistenciais quanto pela Polícia Militar. Em caso de descumprimento, o processo será reaberto e a juíza renovará a pena.

 Foi o passo curto e rápido para a punição dos cinco dos sete envolvidos no confronto entre TUF e JGT. Por outro lado, de acordo com o Tricolor do Pici, um dos infratores não pôde ser beneficiado pela proposta de pena do Ministério Público por não preencher os requisitos legais, enquanto outro alegou inocência e apresentará defesa até o fim do processo.

 02Clubes isentam organizadas  Dentro do estádio, o presidente do Fortaleza, Jorge Mota, quer a retirada dos assentos no espaço ocupado pelas torcidas organizadas. Para ele, isso amenizaria o quebra-quebra frequente nos estádios cearenses.

Além disso, evitaria a punição do clube, perda de mando de campo, multa em dinheiro e ainda desanuviaria o Juizado do Torcedor dentro da praça esportiva, que costuma lotar em dias de baderna. Longe do campo, Jorge Mota prefere não associar os dados de mortes ao conflito de torcedores rivais.

– Fora do estádio, tem roubo e latrocínio. Não é por causa do jogo.

É uma questão de segurança pública. O cenário policial é repleto de morte.

Não tem muito a ver. Eu penso maior: é uma questão de segurança mesmo.

É um cenário amplo. Vai além do futebol – resumiu.

O Ceará defende a punição do torcedor responsável pela baderna e pelas ações violentas, mas isenta a torcida organizada de punição– É preciso impedir que o torcedor considerado culpado entre no estádio, tem que haver ações socioeducativas para que ele trabalhe no horário dos jogos do clube. Mas punir a torcida organizada não me parece válido.

A não ser que seja comprovado que aquela entidade tenho o único objetivo de promover algazarra e quebradeira, o que não acredito que aconteça na maioria das torcidas, já que eles têm trabalhos sociais, como doação de sangue – diz o diretor jurídico do clube, Guilherme Magalhães. PM descarta que tiro tenha saído de pistola da corporação No último caso de homicídio de torcedor, no dia 13 de março, a família de Jullian levantou a hipótese de que a bala tivesse vindo da pistola de um policial militar da segurança, no Bom Jardim.

A PM se defendeu.– Não há orientação para os policiais usarem arma de fogo em confrontos ou perturbações da ordem.

Devemos investigar isso – afirma o tenente coronel Alexandre Ávila.No último Clássico-Rei, no dia 13 de março, 770 policias militares fizeram a segurança na operação.

No próximo encontro entre Ceará e Fortaleza, no domingo, o número será maior: o de cerca de 900 policiais militares. 03Colaboração de todas instituições  Para o jornalista e mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Diego Morais, o debate deveria ser ampliado.

– É necessário entender que o futebol cria um contexto de disjunção. Ou seja, no fim do jogo há vencedores e derrotados.

O mesmo ocorre nas arquibancadas, quando há disputas por reconhecimento ou representatividade. O jogo também não termina quando acaba.

Em casa, nos bares, na faculdade, discutimos, conversamos sobre futebol. Isso pode gerar apenas um momento de descontração, mas pode também gerar conflito com violência física.

O que torna o futebol parte do nosso cotidiano para além do campo e bola – afirma.Para ele, é necessário focar na identificação dos culpados para agir.

A pena por causar tumulto na Arena vai de um a dois anos.– Para haver punição de comportamentos tidos como violentos é preciso um trabalho conjunto entre as instituições envolvidas.

Polícia Militar, clubes, federações, administrações de Arenas e torcidas. É preciso haver diálogo entre essas partes no sentido de viabilizar punições de pessoas que cometam crimes.

Sem uma devida identificação de criminosos e a punição, o que vai permanecer é a crença na impunidade – encerra. RAIO-X EM CINCO ANOS ALÉM DAS 18 MORTES: 2012 – 9 detidos + 2 PMs baleados 2013 – 204 detidos + 64 autuados 2014 – 4 torcedores baleados + 144 detidos 2015 – 11 torcedores lesionados + 2 PMs feridos + 171 detidos
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Fonte: Globo Esporte