O futebol mundial perdeu um dos seus maiores gênios nesta quinta-feira. Hendrik Johannes Cruyff, o “Johan” Cruyff, faleceu aos 68 anos de idade, vítima de câncer no pulmão.  Um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, Cruyff foi o comandante do chamado “Carrossel Holandês” na década de 1970, equipe que encantou o mundo durante a Copa de 1974, disputada na Alemanha.

Cruyff também mostrou a mesma genialidade dos gramados no banco de reservas ao comandar o revolucionário Ajax na década de 1980 e o “Dream Team” do Barcelona nos anos 1990. A coluna PAPO TÁTICO presta uma singela homenagem a esse que foi um dos gigantes do futebol mundial…

Não é exagero dizer que Johan Cruyff pode ter sido um dos jogadores mais inteligentes de todos os tempos.

Sabia como se movimentar em campo e mostrava uma noção tática impressionante até mesmo para os dias atuais. Desde cedo, quando estreou no time principal do Ajax com 17 anos de idade, já dava sinais do gênio que seria.

Comandado pelo holandês Rinus MIchels (outra lenda do esporte), Cruyff soube como utilizar todo o seu potencial para desarrumar as defesas adversárias e desequilibrar as partidas, tal como fez na campanha do tricampeonato da Liga dos Campeões da UEFA (chamada naquela época de Copa dos Campeões da Europa) pela lendária equipe do Ajax durante dos anos 1970.
O titulo de 1972/73 veio quando o Ajax já era base da Seleção Holandesa e era comandado pelo romeno Setfan Kovacs.

A semente do “Futebol Total”, no entanto, já vinha dando frutos desde o final da década de 1960. Na final, Cruyff, Neeskens, Krol e Rep superaram a poderosa Juventus de Turim atuando num 4-3-3 clássico da época, mas com o toque holandês.

Já usando a mítica camisa 14, Cruyff deixava o comando do ataque e vinha armar o jogo no meio-campo, abrindo espaço para a chegada dos companheiros de time. A receita estava ali: laterais apoiando como pontas, zagueiros chegando ao ataque, meias dinâmicos e participativos e Cruyff percorrendo o campo todo como uma espécie de “líbero-atacante”.

O Ajax campeão europeu em 1972/73 já era uma amostra do que viria pela frente na Copa do Mundo de 1974. E Cruyff comandava o 4-3-3 ocupando o campo todo e organizando a equipe como um verdadeiro maestro.

Campinho feito no Tactical Pad.
Veio a Copa do Mundo de 1974.

A Seleção Holandesa, formada há poucos dias antes do Mundial da Alemanha e comandada por Rinus Michels (que teve poucos meses para arrumar o time e havia levado Cruyff para o Barcelona), se tornaria uma das mais citadas e celebradas em todos os tempos. O grande Armando Nogueira dizia que “no parentesco da camisa, do estilo e no destino, a Holanda de 1974 foi a reencarnação da Hungria de 1954”.

Tanto uma quanto a outra entraram para a história pelo futebol que jogaram, pela revolução que protagonizaram e pelas partidas que perderam. No papel, a Laranja Mecânica jogava num 4-3-3.

Mas o jornalista André Rocha deu a definição perfeita daquele time: 4-3-Cruyff-2.
A Holanda de 1974 é conhecida pelo chamado “Futebol Total”.

Todos os jogadores atuavam em todas as posições. Não era difícil ver Cruyff armando o jogo no meio-campo e os laterais Suurbier e Krol avançando como pontas ou trocando de lado.

Ou Neeskens (outro monstro) vindo ocupar a zaga para que o ótimo Arie Haan se lançasse ao ataque. Ou Resenbrink e Rep voltando com os laterais adversários… Enfim… Tudo aquilo que se classifica hoje como futebol moderno já era feito (e muito bem) pela Holanda de 1974.

Quiseram os deuses do futebol que o “Carrossel Holandês” esbarrasse na eficiência e na garra do ótimo time da Alemanha Ocidental de Beckembauer e Gerd Müller…
A Holanda vice-campeã da Copa do Mundo de 1974 se movimentava tanto que até embaralha os desenhos da prancheta. E Cryuff era o comandante do time conhecido como a “Laranja Mecânica”.

Campinho feito no Tactical Pad.
Johan Cruyff ainda passou pelo futebol norte-americano, pelo Levante e pelo Feyernoord antes de pendurar as chuteiras em 1984.

Mas não demorou muito para que o mundo do futebol visse o eterno camisa 14 mostrando a sabedoria no banco de reservas. Como treinador, Cruyff comandou equipes lendárias, como o próprio Ajax de Van Basten, Rijkaard e de um jovem Dennis Bergkamp nos anos 1980, já reproduzindo a gênese do “Futebol Total” da década anterior.

Campeão da Recopa Europeia em 1987, Cruyff desembarcava na Espanha no ano seguinte para iniciar um trabalho magnífico no Barcelona.
Mesmo com a conquista da Liga dos Campeões da UEFA em 1991/92 em cima da ótima Sampdoria de Vialli, Roberto Mancini e Toninho Cerezo, ninguém esquece o lendário “Dream Team” que destruiu o Real Madrid no dia oito de janeiro de 1994.

Com uma atuação magnífica de Guardiola, do búlgaro Stoichkov e de um certo jogador chamado pelo próprio Cruyff de “Gênio da Grande Área”, o Barcelona teve uma das melhores atuações de sua história. Víamos ali, nos três gols de Romário e na movimentação constante que lembrava uma espécie de 3-1-3-3, todos os conceitos aprendidos na época de Ajax e de Seleção Holandesa: posse de bola, velocidade e qualidade no passe.

Um time histórico.
Lendária equipe do Barcelona que destruiu o Real Madrid em 1994.

Romário e Stoichkov abriam a defesa, Guardiola organizava o meio-campo e Koeman cuidava da saída de bola. Timaço com a marca de Cruyff.

Campinho feito no Tactical Pad.
Johan Cruyff mostrava o gênio forte na hora de defender seus conceitos e de cobrar os seus jogadores.

Como esquecer as discussões intermináveis com Rinus Michels e o desafeto Leo Beenhakker às vésperas da Copa do Mundo de 1990? Ou a ameaça a Marco Van Basten na decisão da Recopa Europeia contra o Lokomotive Leipzig da antiga Alemanha Oriental? Ou as críticas recentes a Neymar no Barcelona? Mesmo assim, tanto dentro como fora dos gramados, o mundo do futebol perde um dos seus grandes ídolos. Talvez um revolucionário que tenha ousado pensar à frente do seu tempo.

Mas, assim como nós “reles mortais” sentimos o golpe de uma decepção, sentiu a derrota na final da Copa de 1974.
O legado do “Futebol Total” deixado por Johan Cruyff segue sendo difundido nos dias atuais pelo Barcelona de Luís Enrique, pelo Bayern de Munique de Pep Guardiola e até mesmo aqui no Brasil, pelo Corinthians de Tite e pelo Atlético-MG de Diego Aguirre.

 Não somente o futebol de posse de bola, mas o de velocidade, o de toques rápidos e envolventes e, sobretudo o futebol bonito e bem jogado. Definitivamente, as peladas lá no andar de cima ganharam um senhor reforço…
Obrigado por tudo, Cruyff!

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Fonte: Torcedores.com