Em julgamento de mais de cinco horas, a Primeira Comissão Disciplinar do Tribunal de Justiça Desportiva do Rio Grande do Sul (TJD-RS) condenou o lateral-direito William, do Inter, a seis jogos de suspensão pela cotovelada em Miller Bolaños, do Grêmio, no Gre-Nal 409. A decisão tira o jogador das partidas restantes do Gauchão, caso o Colorado chegue à final. Do contrário, cumpre o restante na competição do ano que vem.

O clube tem o direito de entrar na Justiça com efeito suspensivo. Já o zagueiro Paulão recebeu pena de um jogo pela expulsão – já cumprida –, e o Grêmio recebeu uma advertência pela redução da área técnica no clássico.

O julgamento em si começou mais de uma hora após o início da sessão. O clima esquentou entre as duas defesas após a tentativa colorada de retirar dois auditores do processo por supostamente participarem de movimentos políticos do Grêmio, citando inclusive o perfil de um deles no Facebook com grupos relacionados à derrota do Inter para o Mazembe no Mundial de 2010.

O pedido foi indeferido. As trocas de farpas entre as defesas dos dois times, aliás, deram o tom da sessão.

Após a entrega das provas de ambas as partes, Grêmio e Inter apresentaram lances em vídeo e depoimentos em áudio que pudessem desqualificar alegações do rival. Depois, foi a vez do árbitro Anderson Daronco, que apitou o clássico, ser chamado pela Procuradoria.

Ele disse não ter visto a cotovelada de William em Bolaños nem as entradas de Geromel em Aylon e de William em Marcelo Oliveira.O primeiro jogador a depor foi Paulão.

Expulso em um lance com Henrique Almeida, o zagueiro afirmou que não revidou pontapé do atacante gremista, mas levantou a perna por segurança, para que o adversário não caísse em cima dele. Após poucos minutos sentado em frente aos auditores, Paulão deu lugar a William.

O lateral colorado declarou que seu objetivo na dividida com Bolaños era proteger a bola, que sairia pela linha de fundo. Disse que ergueu os braços para manter o equilíbrio ao ver que ocorreria o choque com o adversário.

Segundo ele, houve intenção de visitar o atacante no hospital, o que acabou não acontecendo. Também afirmou ter recebido ameaças nas redes sociais e tem evitado sair na rua por medo de represálias.

– Meu objetivo é deixar a bola sair, é proteger. Como estava na frente, botei o corpo.

Em Gre-Nal, não pode ir leve nunca, senão tu vais longe. Forcei, e foi isso que aconteceu.

 Ele me acertou nas costas, é normal que proteja com os braços abertos. Quando outro atleta vem, a gente acaba flexionando para abrir os braços e ter equilíbrio e força para proteger.

Saímos conversando normal. Ele não brigou, não quis discutir nada.

 A velocidade que ele veio fez com que a lesão se agravasse – justificou.Com relação a Marcelo Oliveira, William observou que foi “lance de jogo” e que o lateral gremista teria tentado “arranjar tumulto”.

Após a liberação do jogador, o Grêmio tomou a palavra. O vice-presidente jurídico Nestor Hein sustentou que o atleta colorado “teve intenção de acertar e intimidar” Bolaños.

Ressaltou que se trata de um caso com dolo eventual e comparou as fraturas na mandíbula do equatoriano a lesões do UFC.– A entrada tem origem na concepção do mais macho, da porrada.

Não se espera uma agressão dessa natureza. Foi toda preparada, premeditada a jogada.

Não imagino que tenha intenção de quebrar a mandíbula, mas é dolo eventual. No UFC, nunca ninguém quebrou a mandíbula.

A mandíbula é quebrada em acidentes de automóvel. Se o cotovelo vai mais para cima, poderia comprometer ainda mais o atleta – afirmou Hein.

Em seguida, o advogado Rogério Pastl fez a defesa de William. Ele citou dois laudos de especialistas em fraturas na face, que detalharam a possibilidade de até mesmo o dente siso de Bolaños ter interferido na lesão.

Sustentou que a tradição do Inter “não é dar pontapé” e que o lance faz parte do “código ético dos jogadores”. – Esse choque não ocorre porque o William é maldoso.

Onde está a prova da vontade do atleta do Internacional? Qual a reação após um choque forte? Os jogadores vão para cima da arbitragem. Por que não foram? – salientou Pastl.

O relator José Cláudio Chaves iniciou a votação e, pelo primeiro processo, absolveu o Grêmio pela diminuição da área técnica, condenou Paulão a um jogo de suspenso – já cumprido – e pediu a suspensão de William por oito partidas.Em seguida, o auditor Marcelo Maineri pediu advertência ao Grêmio pela redução da área técnica da Arena e também condenou Paulão por uma partida.

Quanto a William, pediu suspensão por seis jogos. O auditor Juliano Milani acompanhou Maineri em todos os votos.

O presidente da Comissão, Vinícius Ilha da Silva, seguiu as duas sustentações anteriores.
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Fonte: Globo Esporte