Já se passaram quase cinco anos, mas um lance capital de um Clássico das Multidões ainda é discutido marteladamente por tricolores e rubro-negros. Voltemos no tempo: aos cinco segundos de jogo – isto mesmo, segundos -, o Santa Cruz erra na saída de bola e Thiago Matias escorrega. Último homem da marcação, ele derruba Bruno Mineiro na entrada da área.

Expulsão? Não para o árbitro Claudio Mercante. Ele deu apenas cartão amarelo para o jogador e causou a fúria da torcida do Sport e também do técnico rubro-negro Hélio dos Anjos, que, de olhos arregalados na área técnica, vociferava.

Aquele dia 8 de maio de 2011 não sai da cabeça dos leoninos, principalmente. E também está fresco na memória de Thiago, capitão do time coral naquele ano e hoje aposentado dos gramados.

Poderia (ter sido expulso). Mas agora já foi.

Às vezes eu brinco com os torcedores deles (do Sport) nas redes sociais e digo que o choro é livre. Passou e fomos campeões.

  O Santa Cruz, que ainda lutava para se classificar para a Série D e vivia um dos piores momentos de sua história, enfrentava um Sport favorito que vinha de cinco títulos estaduais consecutivos e queria igualar um dos maiores feitos da história de outro rival da capital, o Náutico, até hoje único hexacampeão do Estado. Para muitos rubro-negros, aquele lance, da não expulsão de Thiago, foi responsável pela ruína do sonho.

E mais: aos 11 minutos, outra falta quase na linha da grande área. De novo sobre Bruno Mineiro.

E de novo, Matias na jogada. Ali, a expulsão era inevitável.

Mas nenhum cartão foi dado. – Até hoje falam do meu lance.

Eu acabei escorregando e fiz a falta em seguida. Teve uma outra falta que falam que fui eu, mas foi Leandro Souza.

Tranquilo. Até conversando com Zé (Teodoro, então treinador coral) durante o jogo, percebeu-se que se fosse feita mais alguma falta, eu seria expulso.

Ele disse que André (Oliveira) ia entrar e dar conta do recado. E não foi diferente – disse Thiago Matias, que foi substituído ainda no primeiro tempo.

Porém, é o lance dos cinco segundos que ainda é debatido. Rubro-negros comumente se recordam dele expelindo ódio pelo olhar.

Será que se Thiago fosse Claudio Mercante, ele se expulsaria?- Não sei. Para ser sincero, não tenho essa certeza se eu me expulsaria.

Até porque teve irregularidade de Bruno Mineiro, que estava dentro do nosso campo antes do jogo ser iniciado, cerca de um metro e meio. Aquilo teria que ser voltado.

Eu poderia me expulsar? Poderia. Mas agora já foi.

Às vezes eu brinco com os torcedores deles (do Sport) nas redes sociais e digo que o choro é livre, agora já foi. Passou e fomos campeões.

Nem na Federação (Pernambucana de Futebol) vocês podem reclamar, porque já é nosso.No decorrer da partida, o Santa Cruz acabou ganhando por 2 a 0.

Depois, conquistou o título apesar de perder o segundo jogo por 1 a 0, no Estádio do Arruda. A vantagem construída na Ilha do Retiro, sob os olhos de uma maioria rubro-negra maciça que desejava o hexa, foi primordial.

O Santa, campeão estadual, conseguiu o acesso à Série D no mesmo ano e iniciava ali sua caminhada de ressurgimento no futebol nacional.Thiago Matias confessou que a final contra o Sport foi “planejada” pelos corais.

O Santa, inclusive, quis ficar em segundo lugar e cruzar com o Porto-PE (então terceiro colocado) nas semifinais. O Leão pegou o Náutico do outro lado da chave.

 – A gente acabou meio que escolhendo esse jogo na final. Tivemos a oportunidade de, nos últimos dois jogos, fazer um rodízio de cartões amarelos para chegarmos na semifinal.

Ou a gente classificava em primeiro e pegava o Sport já na semi ou passávamos como segundo e pegávamos o Porto. Com isso, a gente acabou perdendo o penúltimo jogo (contra o Vitória-PE por 2 a 1 no Arruda) e acabamos escolhendo.

A gente sabia que o Náutico era forte, mas a gente meio que previa esta final.Sobre a decisão, Thiago Matias disse que nos bastidores o time estava muito tranquilo porque se confiava nas apresentações que tinha feito nos outros dois Clássicos das Multidões disputados na primeira fase – ambos vencido pelo Tricolor do Arruda por 2 a 0.

Depois do polêmico jogo da Ilha, Thiago ouviu do então técnico Zé Teodoro que ele tinha honrado a camisa do Santa Cruz e – chorando no ônibus por estar fora do jogo de volta no Arruda, suspenso – foi parabenizado por todos da diretoria.- Acabou o jogo e toda a diretoria e o presidente lembraram de um lance parecido com esse contra a Cabense, que eu tinha feito a falta e me sacrifiquei pela equipe, sendo expulso.

Todo mundo sabe que se aquela final voltasse 30 vezes e aquele lance se repetisse, eu faria a mesma coisa. Eu pensei no grupo.

Era mais fácil eu fazer a falta do que deixar Bruno Mineiro fazer o gol no mano a mano. Foi ali que a gente conseguiu ganhar o título.

Se eu não tivesse feito a falta, o gol poderia ter saído. A saída conturbada e os dias de hojeThiago Matias saiu do Santa Cruz naquela sua segunda passagem pelo Arruda brigado.

No segundo semestre de 2011, ele recebeu uma proposta para defender o Ceará na Série A. Não pensou duas vezes e acertou com o Vozão, contraindo a ira até do técnico Zé Teodoro, que alegou falta de comprometimento do jogador.

Na época, Zé fez questão de dizer que rejeitou nove ofertas para acreditar no projeto do clube. Thiago, que foi afastado, só participou dos primeiros jogos daquela Série D pelo Santa Cruz e se mandou.

 O hoje corretor de imóveis de 33 anos afirma que se arrependeu da maneira que saiu, mas faz questão de dizer que é um torcedor do Santa Cruz. Desde a saída, não voltou mais ao Arruda nem como torcedor.

Thiago se aposentou em 2013, no Guarani.- Eu só vejo pela TV e pela internet.

Eu sigo todas as redes sociais do clube e tenho amigos, como Tininho e Renatinho. Tudo o que eu fiz, vai ficar gravado.

No Santa foi onde eu mais me identifiquei. Tive um problema na minha saída.

Hoje eu não sairia, mas são coisas que acontecem. Pena que foi pouco tempo.

Para deixar claro, muita gente falou que eu tinha brigado com Zé Teodoro, mas ele me levou para o Guarani em 2013. Por sinal, em 2012 eu quase voltei ao Santa por pedido de Zé, mas aconteceram problemas pessoais e não deu para eu voltar.

 
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Fonte: Globo Esporte