A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) divulgou, no dia 23 de fevereiro, um relatório indicando que 96,08% dos atletas do futebol
brasileiro ganham menos que R$ 5 mil mensais, e mais de 80% recebem até R$ 1
mil por mês. No Acre, essa realidade é mais que comprovada. Muitos dos
jogadores que iniciaram a disputa do Campeonato Acreano no mês de fevereiro precisam complementar a renda familiar buscando outras opções de emprego e
dividem o tempo entre o futebol e o trabalho formal.

No Atlético-AC, por exemplo, um dos clubes vistos como
candidato ao título estadual, dos 30 jogadores do elenco, nove têm alguma
ocupação fora do futebol para garantir uma renda extra para a família. O
experiente goleiro Edivandro, de 33 anos, quando não está defendendo a meta da
equipe do Segundo Distrito de Rio Branco, capital do Acre, trabalha como pintor
e eletricista.

VEJA A CLASSIFICAÇÃO DO ACREANO- A gente não pode parar. Futebol aqui no nosso estado é
muito escasso.

Alguns que não têm condições de ter outro emprego fora estão só
jogando. Graças a Deus, tenho essa oportunidade de trabalhar fora.

Esse é dia a
dia da gente. Quando termina o trabalho tem que estar dentro do campo
treinando, se dedicando ao máximo para chegar no campeonato e fazer boas
partidas – comentou.

O camisa 1 do Galo Carijó diz que alguns atletas sentem o
desgaste no decorrer da temporada e destaca as principais dificuldades de quem
enfrenta a dupla jornada.- Tem diferença (treinar só um período).

A gente que trabalha
durante a semana e treina apenas um período com o professor Álvaro (Miguéis),
sente aquele desgaste. Tem muitos que vão para o treino e não têm condições de
almoçar em casa, então almoçam pelo clube mesmo, comem um salgado.

Às vezes
cansa, na reta final, quando precisamos do vigor físico, mas no decorrer dos
dias vamos trabalhar mais forte para tentar fazer um bom campeonato – destacou.O lateral-direito Januário, 24 anos, é outro que divide o
tempo diário entre o trabalho e os treinos no Atlético-AC.

Ele trabalha como
entregador na distribuidora do pai e, apesar de todos os obstáculos para seguir
a carreira profissional, garante que não desistiu do sonho de ter um futuro
melhor no esporte.- É uma dificuldade para quem joga futebol aqui no Acre.

Sabemos da dificuldade de treinar ou de manhã, ou à tarde. Quem trabalha não
pode treinar em dois períodos e isso complica dentro de campo, pois a gente não
se condiciona bem.

Tenho uma renda da minha família, pois trabalho com meu pai
em uma distribuidora. O futebol tenho jogado pelo meu sonho, por gostar, é uma
renda à parte.

Mas não deixei de acreditar no que quero, no sonho de ser
jogador de futebol e um dia sair daqui – afirmou o jogador, que se recupera de
uma lesão no joelho direito.Além de Edivandro e Januário, o elenco celeste tem o goleiro
Franco (operador de ATM); o lateral-direito Matheus Damasceno (ajudante de
motorista), o lateral-direito Fellype Nascimento (estagiário); o zagueiro
Mendes (entregador), o volante Leandro Jucá (trabalha no comércio do pai), o
meia-atacante Railton, caixa de supermercado, e o meia-atacante Matheus
Marques, (atendente de serviço público, que está machucado), trabalhando fora das quatro linhas.

 

Técnico vê jornada dupla como prejudicialO treinador do Galo Carijó, Álvaro Miguéis, diz que não ter todos os atletas disponíveis em dois períodos durante a semana é muito prejudicial à preparação, principalmente para uma equipe que almeja alcançar o título estadual.- Faz muita diferença, pois poderíamos treinar em dois
períodos em alguns dias, mas não treinamos justamente porque alguns jogadores trabalham.

É um percentual muito alto do elenco e faz muita falta – afirmou.Segundo Miguéis, a única forma de repor o tempo perdido é trabalhar intensamente para alcançar o melhor nível durante a competição.

 Além disso, ele ressalta que contar com a qualidade técnica dos atletas é fundamental.- Trabalhando muito o condicionamento físico (para repor).

O doutor Jader (de Andrade, preparador físico) é um especialista, um dos mais capacitados da região, além da parte tática e
técnica dos jogadores. Jogador brasileiro tem muita habilidade, inteligência,
nasce jogando futebol, e isso sem dúvida, ajuda muito – finalizou.

O Atlético-AC terminou o primeiro turno do estadual como vice-campeão. Em sete jogos, a equipe celeste venceu seis e perdeu um, com aproveitamento de 85,7%.

Foram 19 gols marcados e sete sofridos. O clube, ao lado do Rio Branco-AC, vai representar o Acre no Brasileiro da Série D deste ano.

.

Fonte: Globo Esporte