medo de aviãoOlodum e carnavalVolta por cimaO que é o sorriso? Para a ciência, é reação provocada
por sentimentos de satisfação ou alegria, que movimenta músculos da face e libera substâncias ligadas ao bem estar. No mundo da arte, é razão
de mistério, discreta e enigmática contração de lábios capaz de provocar debates que duram séculos sem qualquer definição. Em notas musicais, é licença poética, ultrapassa a barreira
das línguas, ganha os versos de Djavan e vira um pedido de desculpas.

Para o
volante Feijão, é um simples companheiro de vida. Sem análises químicas,
segredos ou metáforas.

Apenas extravasa do rosto para contagiar quem está perto. Um
traço de personalidade que o segue nos bons e maus momentos.

Sinal de
quem atingiu o que sempre sonhou para a vida. E que já não precisa se perguntar
por que sorrir.

Com Feijão é assim. Nem é preciso fazer muitas perguntas para se manter o ritmo da entrevista.

O papo
flui naturalmente, sempre acompanhado por gargalhadas. Em uma “resenha” com
o GloboEsporte.

com, o sorridente volante do Bahia falou sobre o retorno à titularidade após dois anos cercados de incertezas. Entre 2014 e 2015, ele foi
emprestado ao Flamengo como atleta de futuro promissor, mas pouco jogou no Rio de Janeiro e retornou ao Fazendão em baixa.

Após o fracasso no clube carioca, perdeu espaço no Tricolor e foi cedido temporariamente ao Atlético-GO. No
início deste ano, conquistou uma vaga no time comandado por
Doriva.

Ganhou elogios por atuações que não se resumiram aos costumeiros
desarmes. Empolgado, contou que tem
a expectativa de seguir com a boa fase para se manter na equipe titular e, um dia, entrar na seleta lista de ídolos do
clube.

– Isso tudo é fruto de um trabalho. Espero melhorar a cada dia, me tornar um ídolo.

Ainda não sou um
ídolo. Sou um jogador jovem, que quer aparecer.

Espero dar orgulho ao torcedor,
recolocar o Bahia na Série A, me tornar um dos grandes jogadores do clube. Sei
que será muito difícil, mas espero entrar para a lista de ídolos – disse o
volante tricolor.

Feijão não seria o primeiro volante a ocupar um lugar entre os ídolos do Bahia. Baiaco e Lima Sergipano conseguiram o feito e estão
gravados na memória dos torcedores mais saudosos.

Ao ser questionado sobre referências que possui com a camisa tricolor, o atleta de 21 anos não hesita. Escolhe um clássico “camisa 5”, mas que, em vez de unânime adoração, desperta sentimentos conflitantes no torcedor.

– Tenho vários ídolos. O Beijoca, o Bobô.

Mas o cara que me
inspiro mesmo é o Fahel. Quando subi para o profissional, ele me deu conselhos.

Apontou qual era o caminho. Esses conselhos estão sendo bem aproveitados.

Não
estão entrando por um ouvido e saindo pelo outro, como alguns bons atletas
jovens fazem. Estou representando o Bahia e mostrando o meu futebol.

Tenho orgulho imenso [de jogar pelo Bahia]. Desde a época das divisões de base eu treino firme e forte pensando em chegar ao profissional.

Como torcedor fanático, queria entrar no campo, às vezes nem acredito que estou no estádio jogando. É um orgulho imenso.

  Feijão ainda não é um ídolo, mas parece trilhar o caminho certo.
De jogo em jogo, o carismático volante conquista torcedores e acumula feitos.

Em 2013, balançou as redes contra o Corinthians na Copa São Paulo, foi promovido ao time profissional, colocou Fahel no banco de reservas, virou garoto propaganda e marcou o gol mil do clube na história dos campeonatos brasileiros. Antes disso, era apenas uma
criança do Brasil Gás, comunidade localizada às margens da BR-324, que sonhava em
ser profissional no clube pelo qual torcia.

A fantasia virou
realidade. Talvez este seja o segredo por trás do frequente sorriso.

– Tenho orgulho imenso [de jogar pelo Bahia]. Desde a época
das divisões de base eu treino firme e forte pensando em chegar ao profissional.

Como torcedor fanático, queria entrar no campo, às vezes nem acredito que estou
no estádio jogando. É um orgulho imenso.

Todo jogo penso em dar a vida,
representar minha família, a torcida do Bahia, cada torcedor que está no
estádio, que deixa a mulher e os filhos em casa para nos ver jogando. Por isso
quero sempre dar o meu melhor para o Bahia.

O ano de 2016 está sendo
maravilhoso. Não quero parar por aqui.

Quero chegar nas duas finais [Campeonato
Baiano e Copa do Nordeste] e ser campeão.01medo de aviãoApesar de recorrente, o sorriso não é um companheiro
inseparável de Feijão.

Quando está em um avião, o rosto do volante ganha traços
opostos à alegria. Os olhos se movem inquietos, as rugas visíveis e os dentes em
atrito evidenciam preocupação.

A feição do atleta tricolor deixa evidente a
tensão de quem tem medo de viagens aéreas. Pavor que ele sequer tenta esconder.

– Tenho muito medo de avião. Quando viajo, fico rezando para
chegar logo no local.

Tenho muito medo.

Em fevereiro deste ano, o medo de viajar de avião fez Feijão
pedir para ficar fora de uma viagem aos Estados Unidos para um amistoso contra
o Orlando City.

Enquanto os companheiros embarcaram para a Flórida, o volante
permaneceu na capital baiana e aprimorou a forma física no Fazendão. Para ser
liberado, contudo, foi preciso conversar com Doriva.

E o bate-papo ocorreu
ainda no vestiário, logo após um triunfo sobre o Confiança na Arena Fonte Nova,
pela Copa do Nordeste.

– Falei com o Doriva que tinha medo.

A viagem também era
desgastante demais. E tinha o dólar alto também (risos) – brincou.

01Olodum e carnavalFeijão é um dos poucos baianos do atual time titular do
Bahia. Além dele, apenas o lateral Hayner e o atacante Zé Roberto representam o
estado entre os 11 iniciais de Doriva.

A diversidade cultural da equipe é
ilustrada pela variedade musical no vestiário. Antes e depois dos
jogos, os atletas são regidos por uma trilha que normalmente inclui músicas
românticas, pagode e sertanejo.

A “salada” só ganha tons únicos quando Feijão está
presente. No vestiário, ele costuma ouvir Olodum em alto volume.

As
batidas de tambores tomam conta do ambiente e impedem que qualquer outro som
ganhe forma. Os companheiros se queixam, mas o volante não se importa.

Até faz pouco caso. Em resposta às reclamações, emenda um: “Você tá na Bahia,
parceiro”.

E fim de papo.- Sou fã de várias bandas.

Mas quem nasce na Bahia não tem
jeito. Sou fã do Olodum.

Gosto dos Filhos de Gandhy, também do Bailão do Robyssão. Qual o cara que
não gosta de curtir um som na hora certa? (.

..

) Tem uns jogadores que gostam de
ouvir as músicas deles. Cada um tem que respeitar.

Eles gostam de sertanejo,
rock, pagode. Eu coloco Olodum.

Os caras ficam dizendo que é música feia
(risos). Só escutam Péricles, Revelação.

Não sou muito fã. Prefiro o Olodum ou
o “pagodão”, a “quebradeira” – conta o volante.

Com uma vida de atleta, que inclui dedicação aos treinos e
necessidade de descanso, Feijão não tem muitas chances para ir aos shows do
Olodum. A Terça da Benção, apresentação da banda realizada no Pelourinho às
terças-feiras no período pré-carnaval, é quase uma impossibilidade.

Somente nas
férias ou durante as folgas é possível acompanhar o ritmo dos tambores mais de
perto. 

Uma das chances de estar perto do Olodum neste ano foi durante o carnaval.

Liberado por Doriva, Feijão comprou abadás e
saiu com a esposa no bloco afro. Também convenceu Gustavo Blanco a acompanhá-lo
em uma aventura momesca.

Parceiros da época das categorias de base, os dois
vestiram o branco e desfilaram no Filhos de Gandhy. Experiência que fugiu
da rotina do meia, habituado a uma realidade totalmente diferente à de Feijão, criado em bairro periférico da capital baiana.

   – No carnaval, fui para o bloco do Olodum com a minha
esposa. Depois, fui para os Filhos de Gandhy com Gustavo Blanco.

Ele gosta de
ficar no camarote, chamei para sair comigo. Eu nem sei como é um camarote.

Nunca fui. Meu negócio é o povão (risos).

Ele foi até o fim do desfile do
Gandhy comigo. Deu tudo certo.

Ele se assustou um pouquinho. O camarote é
tranquilo, ambiente fechado, ninguém entra.

No povão todo mundo fica gritando,
falando um monte de coisa. Mas estou acostumado – disse o atleta tricolor.

01Volta por cimaA boa fase deixa o sorriso de Feijão ainda maior. Ao se
apresentar para a pré-temporada, o volante estava acima do peso e tinha
concorrência acirrada para a titularidade.

Ser emprestado novamente era uma
ameaça real. Foi preciso se superar para ter de volta o prestígio que o
acompanhou durante a temporada 2013, quando foi titular do time treinado por
Cristóvão Borges.

Após a primeira partida em 2016, Feijão reconheceu que os dois
anos em que perdeu espaço no Bahia foram acompanhados por alguns deslizes. Hoje
ele tenta não repetir os erros.

Faz o possível para seguir sorrindo e também
para dar motivos para o torcedor se manter feliz.

 [Cometi] Vacilos que todos os atletas jovens cometem.

Você acha que é o “bambambam”, que é o melhor do time, o cara. Mas não é assim.

Futebol é dinâmico demais. Se não treina direito, se está com a cabeça em outro lugar, as coisas não acontecem como deveriam.

  – [Cometi] Vacilos que todos os atletas jovens cometem. Você
acha que é o “bambambam”, que é o melhor do time, o cara.

Mas não é assim.
Futebol é dinâmico demais.

Se não treina direito, se está com a cabeça em outro
lugar, as coisas não acontecem como deveriam. Outros jogadores vão te
atropelando.

(..

.) Surgi em 2013, fui para o Flamengo, voltei e não joguei.

Nessa situação, você começa a pensar que é o pior. Passa um monte de coisas pela
cabeça.

Agora estou mais amadurecido. Voltei para 2016, ganhei a confiança de
Doriva.

Todos no clube me ajudaram muito. Sem a confiança do técnico, do
Reverson Pimentel [preparador físico], do Maurício Sales [nutricionista],
sequer estaria sendo relacionado.

Poderia ter sido emprestado de novo. Graças a
Deus, ganhei a oportunidade.

Estou agora aqui, firme e forte, querendo brilhar
cada dia mais. Quero fazer história.

Não quero ser mais um que passou e as
pessoas dizem que não deu certo – afirmou.

Ao falar sobre o atual momento, Feijão se mantém sorridente,
mas não por alegria.

O riso do volante traduz confiança. Expõe um jogador que
passou por cima de desafios e que reconhece estar novamente na trilha que para o sucesso.

Para que a felicidade fique completa, ele espera comemorar no fim
do ano o acesso do Bahia para a Série A. Assim, o sorriso único se tornaria
gargalhada coletiva.

– Para aqueles que não acreditavam, que falaram que o Feijão
não prestava, eu estou mostrando que posso jogar. Sei que não preciso provar
nada para ninguém, apenas para mim mesmo.

(..

.) Fui, voltei e estou aqui para
brilhar mais uma vez.

Espero melhorar a cada dia e ajudar a levar o clube ao
local que merece.Saiba mais:Fique por dentro das notícias do esporte baianoClique aqui e assista a vídeos do Bahia
.

Fonte: Globo Esporte