Quando alguém fecha seu carro no trânsito ou fura sua fila no transporte público você tem todo direito de ficar brava e, na hora da raiva, é normal falar um palavrão. Mas qual é o xingamento que você diz? Alguns deles ofendem mais a você do que à pessoa que está sendo alvo da sua raiva. Veja quais são e pare de usá-los hoje mesmo.

Quando você fala que uma mulher é mal comida, o que você está realmente dizendo é que tudo o que ela e todas as outras mulheres do mundo precisam para serem educadas, simpáticas, empáticas e adquirir todas as outras qualidades necessárias para se transformarem em seres humanos perfeitos, ou pelo menos melhores, é de uma boa noite de sexo heterossexual.

Sem perceber, você elimina todos os outros possíveis aspectos importantes da vida de uma mulher e a influência deles em seu posicionamento, como sua criação, sua educação escolar, sua formação acadêmica, seus anos de trabalho, a maternidade, sua vida familiar, seus amigos, entre outros.

A palavra histeria vem do grego hystéra, que significa útero. Esse transtorno recebeu esse nome porque antigamente era comum em mulheres e, portanto, acabou sendo caracterizado como uma doença originária do útero.

Com o passar dos tempos, estudiosos, como o psicanalista Sigmund Freud e o neurologista Jean Martin Charcot, passaram a compreender que os sintomas histéricos – como pânico, paralisia e cegueira – eram comuns não apenas em mulheres, mas em pessoas que passavam suas vidas suprimindo suas emoções e sexualidade para se encaixar em padrões impostos pela sociedade.

Chamar uma mulher de histérica sem ter um diagnóstico médico, além de errado, resgata o histórico de sufocamento sexual e emocional feminino que tanto lutamos contra e coloca todas nós novamente como seres humanos reprimidos e imaturos nesses dois aspectos.

Algum namorado, ou até mesmo seu marido, já te disse em uma discussão acalorada que “você é louca” ou que “você está louca”? Infelizmente é comum que homens usem essas expressões contra mulheres, prova disso é que existe até um termo, “gaslighting”, para nomear a situação em que uma pessoa tenta distorcer os sentimentos da outra, fazendo-a acreditar, por fim, que ela está errada.

Além de poder caracterizar manipulação e abuso psicológicos, o termo evoca o mesmo que chamar uma mulher de histérica, retomando o conceito do “ventre errante”, de Platão, que dizia que o útero era um ser vivo que vagava pelo corpo da mulher e que poderia sufocá-la.

Esses três xingamentos são exemplos de um tipo de ofensa muito comum: aquela que usa o comportamento sexual da mulher para inferiorizá-la. A mulher é dona do seu próprio corpo e a decisão sobre o número de parceiros e que ela terá é apenas dela e não a inferioriza de maneira nenhuma, seja ele alto ou baixo.

Se transportarmos essa mesma ofensa para o universo masculino, veremos que chamá-los de garanhões e pegadores não são xingamentos de verdade.

Além disso, esses termos são comumente usados mesmo quando as situações que o geram não tem nenhuma relação com sexualidade.

Usar esses palavrões é mais um artifício para inferiorizar mulheres a partir de seu comportamento social e dizer que, por isso, elas são dignas de humilhação. No entanto, aqui existe uma peculiaridade: estamos ofendendo a pessoa indiretamente, mesmo quando dirigimos essa ofensa a homens, o principal alvo é uma mulher, sua mãe.

Da mesma maneira que um número grande de parceiros sexuais – se é que existe de fato algo considerado um número grande e que esse número não seja totalmente relativo – não deve ser usado para inferiorizar uma mulher.

Esses dois termos são os mais utilizados para diminuir mulheres com base em suas características físicas. Eles refletem uma sociedade que traça padrões de beleza inalcançáveis e onde a magreza é elogiável e o excesso de peso é execrável.

Transtornos alimentares atingem cerca de 70 milhões de pessoas ao redor do mundo. Segundo estudos, a anorexia, doença em que a mulher se vê gorda mesmo estando magérrima, é o transtorno psiquiátrico que mais mata, sendo que uma em cada 5 mortes é um suicídio.

Que tal pararmos de contribuir para o aumento desses números?

Fonte: Bolsa de Mulher