No ano de 2014, falhas do sistema público de saúde inglês, o National Health Service (NHS), causaram a morte do pequeno William Mead, então com 1 ano. O caso originou um debate sobre a detecção da sepse, doença silenciosa que acometeu o menino e não foi considerada quando o diagnóstico da criança foi feito. Quase dois anos depois do ocorrido, o Governo britânico divulgou novas diretrizes para detectá-la e tratá-la, evitando casos fatais como o do pequeno.

Bebê morreu por sepse: caso de William Mead

Em dezembro de 2014, William Mead teve uma febre alta, então, sua mãe, Melissa Mead, ligou para uma espécie de “disque-saúde”, um serviço de atendimento de saúde disponibilizado pelo Governo britânico que dá orientações a doentes e familiares sobre como agir em diferentes situações.

Melissa passou por toda a triagem, que pergunta sobre sinais e sintomas, e nesse momento, a temperatura de seu filho caiu para 35 graus. Os pais acreditaram que esse era um ótimo sinal. A pessoa que estava fazendo a triagem também viu a queda da temperatura como algo positivo e orientou que ela deixasse o bebê descansar, continuasse a oferecer bastante líquido e ligasse de novo caso ele piorasse. Um médico ligou de volta depois de um tempo e disse que a criança provavelmente estava com uma infecção, mas reassegurou que os pais estavam fazendo a coisa certa.

Eles checaram o bebê novamente durante a madrugada e deixaram que ele dormisse. Às 8h, eles olharam o bebê através de um monitor com câmera e notaram que ele não estava se mexendo e que seu rostinho estava virado para o outro lado. Eles acreditaram que ele estava dormindo, mas levantaram e foram checar mesmo assim.

Quando Melissa tocou William, notou que ele estava gelado. Eles começaram as manobras de reanimação cardiorrespiratória e chamaram a ambulância, mas não havia mais nada a ser feito: William já havia morrido.

Qual foi o erro?

Ignorar a queda brusca de temperatura após um pico de febre foi o principal erro da equipe de atendimento, uma vez que esse sinal pode estar relacionado à sepse, quadro grave decorrente do espalhamento da infecção para o sangue.

O que é sepse?

Em entrevista ao Bolsa de Mulher, a infectologista Glaucia Varkulja, do Hospital Santa Catarina, em São Paulo, explicou que a sepse, que também pode ser chamada de septicemia, ocorre quando uma infecção, que pode começar no pulmão, por exemplo, se espalha e chega à corrente sanguínea e a outros órgãos do corpo. O problema é grave e pode levar à falência de múltiplos órgãos e, consequentemente, à morte.

A especialista explica que a sepse é uma reação do organismo a alguma agressão normalmente de origem infecciosa. Mas não é apenas a infecção que ameaça a vida: o risco de morte está relacionado também à resposta que o organismo está dando para lidar com essa agressão. “Essa resposta às vezes fica muito intensa e o organismo sofre, tanto com a agressão infecciosa, quanto com a resposta inflamatória do organismo”, explica a especialista. “A pessoa vai tendo uma série de alterações no corpo que pode progredir para acometimento de vários órgãos e sistemas, por isso pode ter falência dos órgãos”, detalha a profissional.

A infectologista explica também que o diagnóstico e tratamento feitos a tempo aumentam as chances de sucesso na recuperação.

Tratamento da sepse

O tratamento da sepse é feito com antibióticos, medicamentos que combatem a infecção. Em alguns casos, podem ser necessárias cirurgias para remoção do foco infeccioso. Pode ser necessária também a reposição de líquidos e, caso o quadro se agrave, caracterizando um choque séptico, será necessário cuidados intensivos como respiração por aparelhos e drogas vasoativas, que atuam para restaurar a adequada circulação do sangue e, portanto, pressão arterial, frequência cardíaca entre outras variáveis indicativas do bom funcionamento corporal.

Como diagnosticar: diretrizes do Sistema de Saúde britânico

No início de 2016, o secretário de Saúde britânico, Jeremy Hunt, pediu desculpas publicamente à família de William em nome do Governo e do Sistema de Saúde. Ele disse que o entendimento da sepse no NHS é totalmente inadequado.

Agora, o National Institute for Health and Care Excellence (Nice), divulgou novas diretrizes para identificação, diagnóstico e tratamento de sepse que deve ser seguido tanto por profissionais que trabalham na saúde pública quanto na rede particular.

Sintomas em bebês e crianças

Entre diversos sinais de alerta, a temperatura inferior a 36 graus é considerada um critério que indica risco moderado a grave de sepse tanto para bebês quanto para adultos.

Outros sinais, esses para crianças com menos de cinco anos e bebês, são: frequência respiratória superior a 50 “respirações” por minuto (para bebês), 40 (para crianças de 1 a 2 anos) ou 35 (para crianças de 3 a 4 anos), febre maior que 38 graus para bebês com menos de 3 meses, frequência cardíaca maior que 150 (para bebês), 140 (para crianças de 1 a 2 anos) ou 130 (para crianças de 3 a 4 anos), redução do volume de urina, vermelhidão, azulamento ou acinzentamento da pele e sinais de desconforto respiratório, como batimento da assa do nariz.

Fonte: Bolsa de Mulher