Ao longo da história as mulheres tiveram muitas conquistas, mas ainda hoje a igualdade entre os sexos não é uma realidade, especialmente no mercado de trabalho. Muitos homens ainda ganham salários maiores que suas colegas para desempenhar as mesmas funções. Há também mulheres que se destacam em meios majoritariamente masculinos e são verdadeiros exemplos de que competência independe de gênero.

Uma delas é a Capitão Rafaela Conti (capitão é a forma usada na hierarquia militar e é assim que ela se autodenomina). Ela é instrutora da Academia de Bombeiro Militar D. Pedro II, no Rio de Janeiro, e tomou a decisão de entrar para a corporação há 10 anos, quando fazia Faculdade de Engenharia de Controle e Automação na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Tenho certeza que essa é minha vocação”, afirma.

Na família e entre os amigos não houve qualquer reação contrária. O pai foi o grande incentivador e a mãe e os irmãos também deram apoio, um reflexo da educação que recebeu desde a infância. “Meus pais não faziam distinção entre brinquedos de menino ou menina. Eu e minha irmã fomos criadas dessa forma, mas percebo que a maioria das pessoas ainda pensa desse jeito”, diz. O marido também é um grande apoiador e se interessou tanto pela profissão que acabou se tornando oficial da instituição.

Mulheres no Corpo de Bombeiros

No Rio de Janeiro, as mulheres só puderam ingressar na corporação a partir do ano 2000, quando pela primeira vez foram abertas vagas para o gênero feminino no concurso para soldado combatente e nas provas para o Curso de Formação de Oficiais (CFO), que equivale a uma faculdade e prepara os militares para o cargo de gestão e comando. Até então, o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro contava com mulheres apenas nos quadros de saúde, que ingressaram em um concurso aberto em 1992.

Rafaela conta que foram três anos de formação em regime de internato e, desde o primeiro ano de curso, já realizava o estágio operacional de atendimento à população nos sábados e em alguns dias da semana.

Mesmo com todo o preparo e dedicação, o fato de ser mulher em um meio onde o número de homens é bem maior, muitas vezes acaba tendo um peso grande. “Há um pré-julgamento sobre a capacidade profissional de uma mulher bombeiro. Tenho a sensação de que se eu cometer um erro, as pessoas vão dizer que errei pelo simples fato de ser mulher”, diz.

Por isso, a busca por aperfeiçoamento é constante. “Gosto da profissão e busco sempre maior especialização e atualização em assuntos técnicos. Quando alguém me conhece, acho que veem isso, as qualidades profissionais, então não há resistência ou crítica. Mas sei que algumas pessoas ainda classificam algumas profissões como masculinas ou femininas, porém não acredito nessa divisão. Penso que a característica principal a ser considerada é a competência”, afirma.

Ela procura também valorizar cada passo da carreira e todos os acertos como se fossem de todas as mulheres, além de conversar com as outras mulheres que estão na mesma profissão sobre as situações que vivenciam e a forma como agem. “Com relação às atividades da profissão de bombeiro militar, não penso que é mais arriscado para a mulher que para o homem. O risco é o mesmo. Entretanto, como de modo geral a mulher ainda é vista pela população como uma pessoa frágil e submissa em relação ao homem, em algumas ocorrências de socorro acredito que estamos mais sujeitas a alguns tipos de abuso. Mas acredito que isso mudará com o tempo”, diz.

Dia a dia como bombeiro

Um dos momentos mais marcantes de sua carreira profissional foram as operações de resgate na cidade de Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro, onde em 2011 fortes chuvas causaram deslizamentos, desabamentos e alagamentos, deixando centenas de mortos e feridos na maior tragédia climática da história do país.

“Como frequentei a cidade desde criança, quando passei pela praça onde tinha um teleférico, me dei conta do tamanho da destruição. Foi um sentimento muito ruim. Nessa operação de resgate tínhamos contato direto com a população local que, muitas vezes, estavam à procura de parentes desaparecidos. No meio de tanta dor, eles ainda nos agradeciam por estarmos ali. De alguma maneira, naquele momento, representamos algum alívio para aquelas pessoas”, lembra.

São esses momentos que a fazem ter certeza de que fez a escolha certa. “Nunca tive dúvida de que tudo valeria a pena”, afirma.

Para quem quer ingressar em profissões pouco comuns para mulheres, Rafaela dá seu recado. “Como para qualquer profissão, penso que temos que buscar aliar a satisfação profissional com a qualidade de vida. Se você quer ser bombeiro, tenho certeza que, se você se preparar, você será. E para os que ainda veem com preconceito uma mulher no corpo de bombeiros, só peço que não julgue sem antes saber do que a pessoa é capaz”, finaliza.

Fonte: Bolsa de Mulher