Não importam a opinião partidária ou posicionamento político que cada um tem tomado nestes últimos tempos, em que o país passa por uma avalanche de acontecimentos em todas as esferas de Poder. Fato é que a capa da revista semanal Isto É, com a foto e a manchete sobre a presidente Dilma Rousseff, tem provocado reações de contestação da maioria dos internautas – até mesmo em críticos do governo.

Eles acusam a revista de misoginia e machismo. O título “As explosões nervosas da presidente” chama para uma matéria que contará casos de “descontrole emocional” de Dilma. O tom da publicação, conforme análise da maioria dos internautas, tem tudo para reforçar o pensamento machista de que uma mulher pressionada se torna destemperada, histérica, incapaz de agir com discernimento e consciência. E, nós, mulheres, sabemos que este conceito está longe de representar o que somos. Entenda a polêmica.

Machismo e misoginia: entenda o tom da reportagem 

Ao invés de usar a publicação para criticar atitudes ou posicionamentos de Dilma, a revista escolheu ressaltar uma suposta falta de descontrole emocional por parte da presidente.

A reportagem associa à Dilma uma imagem de descontrole, por conta da “iminência de seu afastamento”, como se destaca no texto de capa. Leia completo abaixo:

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Mas por que isso é problemático? Em primeiro lugar, o conceito de “equilíbrio emocional” é relativo: uma publicação não teria condições de fazer tal diagnóstico. Em segundo lugar, esse tipo de argumento jamais seria usado contra um governante do sexo masculino. Isso porque a justificativa de que mulheres são “histéricas”, “emotivas demais” e “desequilibradas” vem sendo usada desde quando adentramos o mercado de trabalho, para justificar o fato de não termos oportunidades iguais para ocupar cargos de gestão.

Ao escolher criticar Dilma por esse aspecto, a revista Isto É reforça esse antigo discurso machista, questionando não as decisões dela enquanto presidente, mas sim sua capacidade de governar enquanto mulher.

O ataque à presidente atinge a todas as mulheres, de fato, a partir do momento em que o discurso machista que tentamos combater diariamente na sociedade é reforçado por um veículo de comunicação de circulação nacional. Reproduz-se, mais uma vez, o posicionamento de desprezo e ódio às mulheres, chamado de misoginia.

Ela, no entanto, não acontece de forma individualizada, mas faz parte das estruturas da nossa sociedade. É como se, simbolicamente, os homens já fossem criados para, indiretamente, odiar ou achar as mulheres inferiores. Entre os elementos que interferem no surgimento desta ideia está a forma como a sociedade se divide, atribuindo mais valor e mais importância às funções ditas “masculinas”.

Repercussão: isto é machismo 

Por conta do teor machista do texto, diversos internautas publicaram a hashtag #istoéMachismo, destacando, ainda,  o cunho sensacionalista da matéria.

As pessoas se manifestaram também na página oficial da Isto É no Facebook. Até este momento, são mais de 3.700 comentários, de homens e mulheres, que repudiaram o posicionamento da revista. Leia alguns:

Os comentários dos internautas levantam o debate sobre um questionamento: por que quando uma mulher fica nervosa e se manifesta de maneira enérgica é considerada histérica e louca e, quando o mesmo comportamento é seguido por um homem, ele é considerado forte por saber impor suas opiniões?

Comparação: fúria entre eles e elas 

Para ilustrar ainda mais a disparidade de interpretação do “descontrole emocional” associado à Dilma, circula pela internet comparando a capa da Isto É à da revista Época, de 2010, em que está representado o técnico da seleção brasileira de futebol, Dunga. Ele também foi criticado por seus “ataques de fúria” durante a Copa do Mundo de 2010.

Mas, a interpretação deste fato foi diferente.

Ambos aparecem com a boca aberta, como se estivessem gritando. Porém, o enfoque da matéria da Época – que, vale lembrar, não tem nenhuma associação direta com a outra revista – valoriza a raiva e a possibilidade de transformá-la em algo motivador, que faz com que o homem supere obstáculos.

Este é um exemplo claro de como a demonstração de sentimentos (que, por definição, são comuns a todos os humanos) são interpretados de maneiras diferentes quando se tratam de homens e mulheres.

Como o machismo está enraizado em nós? 

De maneira direta ou indireta, todas as mulheres já foram expostas a algum comentário ou experiência machista e sexista.

Estereotipar nossos aspectos psicológicos e físicos, como aconteceu com a presidente Dilma neste episódio, é apenas uma das formas com que homens (e, muitas vezes, mulheres) reforçam um discurso que, levado a última análise, gera ódio contra mulheres, sentimento de rivalidade entre elas e, por fim, desvalorização de tudo que é feminino.

Sabemos que é muito difícil descontruir este tipo de pensamento enraizado em nossa sociedade. Por isso, vale a reflexão sobre o quanto a publicação da Isto É pode influenciar na perpetuação de um argumento preconceituoso.

Dilma é alvo constante de preconceito: relembre episódios 

Por estar em uma posição de destaque – independentemente da opinião pessoal de cada uma de nós sobre este fato – a presidente Dilma já esteve no meio de outros episódios de caráter machista.

No ano passado, o caso dos adesivos para carro em que ela aparecia com as pernas abertas, simulando uma penetração, foi repudiado por, de fato, ser uma ofensa à Dilma e a todas as mulheres.

Muitas vezes as roupas e aparência dela já viraram notícia. Seu jeito de andar e de falar também é amplamente criticado – tanto pela imprensa quanto por pessoas comuns.

O livro “Dilmês, o idioma da mulher sapiens”, por exemplo, destaca um aspecto físico da presidente – seus dentes – na capa. Este é realmente um fator fundamental para a identificação de Dilma?

A reflexão foi feita por um internauta em meio às opiniões no comparativo das capas de Época e Isto é:

Devemos reavaliar, portanto, se estes aspectos são realmente importantes quando estamos falando sobre a qualidade do trabalho de uma pessoa; no caso de Dilma, o de governar. Eles seriam trazidos à tona caso o governante fosse homem?

Fonte: Bolsa de Mulher