A criança autista nem sempre se sente confortável nos círculos sociais que frequenta e, se não houver esforço e suporte de todas as pessoas para a inclusão nestes ambientes, uma das experiências mais importantes para sua formação, a ida à escola, pode ser traumática ou, no mínimo, pouco eficaz para seu desenvolvimento. Mas, não por acaso, – e para provar que o mundo ainda tem pessoas muito boas – um garotinho autista de 11 anos do Reino Unido, chamado Ben Twist, teve uma história diferente.

A diretora da escola que ele frequenta escreveu uma carta emocionante para explicar aos pais do menino que ele havia sido reprovado nos testes. Ela surpreendeu a mãe de Ben, Gail Twist, ao elencar no recado uma lista de talentos do garoto que não são, essencialmente, parte do currículo escolar. São qualidades pessoais às quais todos os pais, não só de crianças autistas, devem se atentar – e valorizar em seus filhos. Gail resolveu publicar a carta em seu Twitter. Resultado? O mundo inteiro se sensibilizou com essa história – que te contamos a seguir.

A mãe de Ben, Gail Twist publicou a carta da diretora em seu Twitter, com a legenda: “Em lágrimas. Uma carta para meu filho de 11 anos autista de sua escola. Estes testes medem apenas um pouco de você”. Já são mais de 9 mil curtidas e 5 mil compartilhamentos na rede social.

No texto, a diretora do colégio Lansbury Bridge começa parabenizando o garoto pelo esforço e progresso ao longo do ano e avisa que enviou as notas dos exames para Ben e seus pais. Em seguida, ela destaca que o aluno tem outros talentos que o teste não consegue mensurar.

“Uma informação muito importante: eu quero que você entenda que estes testes medem apenas um pouco de você e de suas habilidades. Eles são importantes e você se saiu muito bem neles, mas Ben Twist é feito de muitas outras aptidões e talentos que nós da Lansbury Bridge vemos e medimos de outras maneiras.

Outros talentos que você tem e que estes testes não mensuram incluem:

  • Seus talentos artísticos
  • Sua habilidade de trabalhar em time
  • Sua crescente independência
  • Sua bondade
  • Sua habilidade de expressar sua opinião
  • Suas habilidades em esportes
  • Sua habilidade em fazer e manter amigos
  • Sua habilidade em discutir e avaliar seu próprio progresso
  • Seus talentos para design e construção
  • Sua habilidade musical”

Ao Buzzfeed, a mãe do menino contou que ficou comovida com o fato de alguém dedicar o tempo para pessoalmente escrever para o filho dela e “que queria dizer obrigada por considerá-lo como uma pessoa inteira e celebrar todas as outras grandes habilidades que ele tem”.

Gail conta que leu a carta a Ben, que achou “maravilhoso” saber que alguém o identificava com tantas qualidades. “Não posso acreditar que eles estão falando essas coisas tão legais sobre mim”, comentou o menino, como a mãe contou ao jornal Independent.

O autismo de Ben, segundo a mãe, afeta suas condições de socialização e comunicação com as pessoas, características comuns às crianças que têm esse distúrbio no desenvolvimento.

“O cérebro dele processa as informações mais lentamente. Isso significa que ele leva um bom tempo para entender o que as pessoas estão falando com ele”, destaca. “Ele se esforça [para conviver] com as pessoas que não conhece e tem necessidades sensoriais muito fortes (então, ele é muito ativo) que o fazem buscar atividades que o estimulem, como escalar e jogar”.

Aprendizagem de crianças autistas

A carte destinada a Ben é um modelo ideal de estímulo e incentivo ao processo de aprendizagem de crianças com autismo, que têm um modo diferente de aprender e, por isso, distante do padrão de ensino engessado comum às escolas.

Para saber um pouco mais sobre essa realidade, conversamos com a psicopedagoga Raquel Liane da Silva, que é mãe de Bernardo, um menino autista de 7 anos, e diretora da escola onde ele estuda em Porto Alegre. Ela contou como é importante que se respeite e se incentive os vários talentos e características da criança autista, principalmente no ambiente escolar.

“O processo de aprendizagem deles é bem complexo, porque o programa da escola geralmente é muito rígido e técnico. São conteúdos ensinados dentro da escola e que, por vezes, não serão usados nunca mais na vida. E é importante saber que a criança autista tem outras formas de percepção de mundo”, comenta.

Habilidades e adaptação das escolas

Raquel reforça que algumas habilidades são mais comuns a pessoas autistas, como percepção sonora e olfativa bem aguçada. Talentos artísticos também podem ser uma capacidade desenvolvida por autistas. “A escola precisa fazer adaptação de currículo e ver outras formas de trabalhar. Gravar as informações em um gravador, por exemplo, pode ser uma opção”.

Apesar de a diretora de Ben ter destacado o talento de fazer e manter amigos, além de defender suas ideias, a psicopedagoga ressalta que a maior dificuldade de algumas crianças autistas, como no caso do seu filho Bernardo, é a socialização.

“Eles são extremamente sinceros, não são como a gente, que aprende a disfarçar as emoções. Se ele chega perto de uma pessoa e ela está com cheiro ruim, ele vai dizer”, comenta. “Por outro lado, essa é uma característica que mostra que ele é muito verdadeiro. Com crianças com autismo mais leve, esses freios sociais podem até ser ensinados”.

Quando vão à escola, muitos autistas precisam da ajuda de um tutor ou auxiliar para acompanhar as atividades na sala de aula e na interação com os outros alunos. “Só não precisam os que têm autismo em grau leve. Grande parte, entretanto, tem deficiência intelectual, apesar da capacidade cognitiva conservada”.

Os pais dos alunos também devem estar cientes de que a presença de uma criança autista na classe, como destaca Raquel, “não é um favor, e sim um direito garantido”. “Às vezes, os pais das outras crianças agem como se precisassem permitir a presença do autista na escola”, lamenta.

É importante lembrar que há vários graus de manifestação das dificuldades de comunicação, socialização e imaginação entre as crianças com autismo, como explica a Associação Brasileira de Autismo – e que os diferenciais citados nesta matéria pelas fontes não têm a intenção de generalizar a individualidade de cada um.

Se você tem dúvidas em relação ao diagnóstico de autismo na criança, é indicado que você procure informação médica, com profissionais de várias especialidades, como neurologista, psiquiatra e fisioterapeuta.

Fonte: Bolsa de Mulher