Soffia escreve e canta para todo mundo ouvir sobre a valorização da beleza negra. Lara é uma das meninas negras mais conhecidas por ditar moda nas redes sociais. Marina fez sucesso com sua festa de aniversário com o tema “Homem de Ferro”, o famoso super-herói da Marvel. O que essas três histórias têm em comum? São meninas empoderadas que, desde pequenas, já entenderam a importância de defenderem suas preferências e a exigirem que sejam respeitadas. Essa consciência é fruto da educação que receberam e que, a cada dia, reforça nelas ainda mais a importância do empoderamento feminino para que cresçam seguras e conscientes de que podem ser o que quiserem.

O que é empoderamento

O significado de empoderamento tem a ver com fortalecimento, igualdade, justiça, consciência social, coletividade, entre outros. No dia a dia, o uso dessa palavra é recente e ganhou força em movimentos que lutam pelos direitos das mulheres e combate ao machismo.

Na educação de uma criança, transmitir esses valores é fundamental para formar sua base e determinar seu comportamento futuro. Empoderar uma criança é ensiná-la a se amar e a se respeitar, para que possa ser mais segura de si, com mais autoestima e sabendo exigir respeito em todas as suas escolhas.

Como fazer isso na prática? Como empoderar mulheres em uma sociedade que, ainda hoje, muitas vezes impõe padrões e comportamentos que acabam diminuindo as atitudes femininas? A tarefa não é simples, mas é possível.

Histórias de empoderamento feminino

Crianças como Soffia, Lara e Marina ganharam destaque por, desde muito pequenas, adotarem essa postura. Para saber o que é possível fazer para criar uma filha empoderada, conversamos com as mães das três, que compartilharam suas histórias e alguns de seus ensinamentos.

O poder da música como instrumento social

Aos 11 anos, MC Soffia chama a atenção ao cantar músicas compostas por ela com letras que lutam contra o racismo e exaltam a identidade da mulher negra. “Menina pretinha, exótica não é linda. Você não é bonitinha, você é uma rainha”, diz uma das mais conhecidas.

Sua mãe, Kamilah Pimentel, lembra que quando mais nova a filha chegou a ter problemas de aceitação em relação à cor da pele e ao tipo de cabelo. “Isso é compreensível, porque o que passo para ela em casa ainda é muito pequeno diante de uma sociedade que a todo momento diz que não devemos nos aceitar, que reforça a questão do racismo e do machismo. Hoje, ela já está maior, já compreende melhor e sabe se colocar muito bem nesse sentido”, conta.

A educação que Kamilah deu a Soffia tem muito a ver com seu engajamento em movimentos sociais, mais especificamente o movimento negro, que vem de família. Sua mãe já participava, fazia bonecas negras e, quando Soffia nasceu, Kamilah começou a frequentar os eventos e levar a filha junto. “Ela cresceu nesse meio. A postura dela não seria diferente, mesmo que ela não cantasse”, diz.

Dentro de casa, Kamilah sempre procurou diálogo com a menina. “Toda dúvida que ela tem, leva para mim. A ensinei a fazer isso. Se estamos vendo TV, novela, jornal, a gente levanta uma reflexão que vai muito além do que está passando ali. Isso já é uma base para ela, até de defesa também”, afirma.

Soffia também estuda na ONG Projeto Âncora, em São Paulo, que promove reflexões sobre temas como racismo, machismo, bullying e preconceito em seu método de ensino.

Tudo isso reflete nas letras das músicas de MC Soffia. “Quando ela começou a compreender melhor os movimentos sociais, as injustiças que as minorias passam, ela começou a ver a necessidade de falar sobre a questão das mulheres negras, da aceitação, de cabelo e a pensar em que mensagem pode passar com as músicas”, conta.

Representante da beleza negra

Outra criança que se destaca por sua postura de valorização da beleza negra é Lara, de 5 anos, mais conhecida como Larinha, que posta seus looks cheios de estilo no Instagram, onde tem mais de 23 mil seguidores.

A mãe, Priscila Oliveira, conta que desde cedo passou para ela a importância de se valorizar, mostrando como ela é linda e falando de seus direitos e de igualdade na sociedade. Fora de casa, porém, é diferente. “Ela sofre preconceito na escola por causa do cabelo, muitas vezes chega triste, falando que alguns colegas a menosprezaram com xingamentos”, conta.

Os acontecimentos fazem Priscila reforçar sua postura com a filha. “Não devemos nos retrair porque uma minoria diminui a importância do negro na sociedade e ataca seus direitos. Crio a Lara sendo quem ela é: uma menina de beleza natural e estonteante, uma negra que pode ser quem ela quiser”, afirma.

Uma das formas de trabalhar a autoestima da filha é com os looks cheios de estilo, o que fez com que amigas a incentivassem a criar uma página para divulgar fotos da menina nas redes sociais. Larinha ganhou fama e já participou de desfiles e ensaios fotográficos em diferentes cidades do Brasil. “A página ajuda na autoestima porque a incentiva a se sentir linda. Em desfiles e encontros todo mundo elogia a beleza dela. Ela é considerada uma das grandes representantes da beleza negra no Instagram, chamada de Pretinha do Poder”, revela.

Ela conta que Larinha carrega uma responsabilidade imensa de representar inúmeras crianças negras, embora ainda não tenha noção de tudo isso. “Recebo muitas mensagens de mães e de crianças cacheadas, que acham o máximo a gente levantar a bandeira contra o preconceito e quebrar esse padrão de beleza de loiras ou lisas, trazendo à tona a beleza afro. Sabemos que esses padrões são criados para forçar uma sociedade esteticamente igual e perfeita. E a página da Lara, além de ditar moda, incentiva a nos aceitarmos lindas e cacheadas da maneira que viemos ao mundo. Porque o crespo é lindo”, afirma.

Brincadeira não tem gênero

Renata Palmeira Braga nunca fez divisão sobre o que a filha Marina, de 4 anos, poderia ou não brincar. Os brinquedos e brincadeiras sempre foram de acordo com o interesse demonstrado por ela e a mãe aproveitava para a estimular cada gosto. Foi assim quando a menina pediu uma festa de aniversário com o tema “Homem de Ferro”. “Quando perguntei sobre a festa de 4 anos, logo após a dos 3 anos, ela não teve dúvidas e escolheu Homem de Ferro. Na época, fiquei um pouco surpresa, porque ela ainda não era tão apaixonada pelos super-heróis como hoje. Sua paixão maior eram os resgates e salvamentos. Acredito que ela viu ali uma personificação de força e capacidade de salvamento nele e apaixonou de vez”, conta.

A repercussão da festa foi tanta que ela acabou criando um projeto chamado Empoderakids. “Recebemos tantas mensagens de apoio, tantos relatos de histórias semelhantes às da minha filha, mas nem sempre com finais coloridos, que decidimos dar voz a essas pessoas e debater o assunto. Chamei minha grande amiga e assessora, Bruna Hess, e criamos a Empoderakids, um espaço para debate, troca de experiências e histórias. Nosso objetivo é informar de forma empática aquela mãe e pai que não sabem como trabalhar essas questões em sua casa, aquela família que nem sabe quando está sendo machista e que nem gostaria de ser”, explica.

Renata lembra que observou desde cedo que a filha não tinha inclinação pra gostar de boneca. Quando mais nova, se queixava que ninguém queria brincar com ela de “super-helóila” (super-heroína, na cabeça dela). Mas, naturalmente, Marina foi se encaixando nas brincadeiras dos meninos e, vez ou outra, as meninas também brincavam de correr, pular e jogar futebol. Para a mãe, foi Marina quem gerou uma transformação no grupo, quebrando os estereótipos de brincadeiras de menino ou de menina. “Essa associação está muito enraizada em nossa sociedade. Se convencionou que mulheres frágeis cozinhavam, cuidavam de casa e ficavam bonitas, por isso os brinquedos feitos para meninas deveriam permear esse universo, assim como os homens, fortes e provedores, brincariam desde cedo do que fariam no futuro: bombeiros, construtores, salvadores do mundo. O que não faz sentido pra mim é que ainda hoje exista esse tipo de pensamento na hora da criação dos brinquedos, já que, felizmente, nossa sociedade vem claramente mudando seus papéis”, afirma.

Ainda assim, algumas pessoas estranharam o tema da festa de Marina. Algumas chegaram a questionar a mãe por se tratar de um “tema de menino”. “Dava pra ver que era um esforço para aceitar o que ainda não era natural pra elas”, lembra. Uma das formas encontradas por ela de ajudar outras crianças e outras famílias foi criar um livrinho chamado “O que Eu Posso então?”, entregue como brinde na festa de Marina (e que também está disponível em versão online).

“Em casa sempre utilizo histórias fictícias para trabalhar algumas questões da Marina e vejo como isso nos aproxima das crianças. Elas se sentem representadas e validadas de alguma forma ainda necessária para a idade, fica muito mais fácil pra entenderem. Convidei minha irmã, Rafaela, que conhece muito sobre feminismo, para me ajudar e juntas montamos a história, cada uma com sua visão. Acho que é um livrinho que pode ajudar qualquer pessoa, de qualquer idade ou gênero, já que leva informação de modo simples e claro, o que muitas vezes falta”, diz.

Como criar meninas empoderadas

– Ser próxima da filha e dar abertura para o diálogo. “É muito positivo tudo o que permiti que ela fizesse e ainda vou permitir que ela faça. É importante para a evolução. A mãe tem que ter uma mente bem aberta, tem que ser esclarecida, saber como deve ser valorizada e passar isso para frente”, diz Kamilah.

– Não separar brincadeiras, cores e personagens como de menina ou menino. “Sempre procurei deixá-la livre em relação à cor de roupa e personagens preferidos. Claro que apresento coisas novas, mas o que ela gosta ou não gosta é algo dela. Procurei criar de forma que ela se sentisse bem, se sentisse livre e fosse dona das próprias escolhas”, explica.

– Fazer com que a filha se aceite como é. “Devemos incentivá-las a aceitar as diferenças, sejam elas raciais ou sociais. A sociedade tem espaço para cada uma de nós. Mulheres modernas devem ser bem-resolvidas, cada qual com sua beleza e sua maneira de ser. Nós, mães, temos o dever de prepará-las para o mundo, formando mulheres fortes”, diz Priscila.

– Dar autonomia e ensiná-las a pensar. “Tudo o que falamos pra ela fazer ou não fazer, explicamos o porquê e depois damos opções de escolha. Não usamos castigo, usamos causa e consequência. Se escolher algum comportamento ruim, terá uma consequência, seja perdendo algum passeio, algum lanche especial ou televisão. É claro que ela não pode decidir tudo sozinha, precisa de orientação e as grandes decisões nós, pais, é que tomamos. Mas, dentro do que resolvemos, damos a ela duas opções para que ela sempre participe do processo e aprenda a construir seu pensamento. Isso gera um poder absurdo dentro dela e vai auxiliá-la a crescer sabendo que tem voz”, afirma Renata.

– Ter paciência. “Sempre que estou repetindo pela milionésima vez a mesma coisa, penso que mais uma vez que eu fale hoje será menos uma vez no futuro, afinal eu quero que ela aprenda a pensar sozinha e não só a obedecer ordens”, conta Renata.

– Saber ouvir a criança. “Precisamos ter empatia, ouvir nossas crianças e tentar nos colocar no lugar delas, para atingir aquela conexão que vai nos deixar ver o que precisa ser problematizado”, diz.

– Criar os filhos para o mundo. “A única forma real de protegê-la de tudo lá fora e do futuro é ensinando-a a pensar diante de cada questão. Gostaria muito de acreditar que eu estarei em todas elas para orientá-la, guiá-la e que ela me ouvirá pra sempre, mas sabemos que, na prática, não é bem assim”, explica.

– Trocar informações com outras mães. “Não somos especialistas, não somos perfeitas, somos mães aprendendo a criar meninas empoderadas e meninos conscientes. Temos que dividir experiências, somar nossas dúvidas e multiplicar informação para o mundo”.

– Dividir por igual as tarefas em casa. Nada de colocar só as meninas para lavar a louça ou arrumar o quarto. Nessas pequenas atitudes que definem a responsabilidade de cada um ainda estão entranhadas as raízes do machismo que têm como consequência a desigualdade de gênero até mesmo no mercado de trabalho.

– Contar com o apoio do pai. As três são unânimes ao destacar a importância dos pais na vida das filhas. Afinal, educação não é tarefa apenas materna. “Tenho conversas com ele porque não quero que ela fale as coisas só para mim, quero que ele esteja preparado para ouvir. Não tem essa de isso é com mãe e isso é com pai. Ela pode falar com os dois”, diz Kamilah. “Essa minha defesa da conscientização dos meninos, em parte vem de todo apoio e amor que recebemos do meu marido, pai da Marina. Ele sempre foi muito consciente, informado e ativo em todo o processo”, conta Renata. “O pai faz ela se sentir a menina mais linda do mundo”, afirma Priscila.

Fonte: Bolsa de Mulher