No dia 3 de maio aconteceu o julgamento em ultima instância de Rafael Bussamra, que foi condenado por homicídio culposo – quando não há intenção de matar – por ter atropelado e matado Rafael Mascarenhas, filho da apresentadora Cissa Guimarães, em 2010.

A sentença da 1ª Câmara Criminal do Tribunal do Rio de Janeiro revogou a pena inicial de três anos e seis meses em regime semiaberto e suspensão da habilitação para dirigir e condenou  Rafael Bussamra e seu pai, Roberto Bussamra, a três anos de prestação de serviços comunitários.

Morte do filho de Cissa Guimarães

Rafael Mascarenhas foi atropelado e morto enquanto andava de skate com amigos no Túnel Acústico, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O túnel estava fechado para o tráfego, mas ele foi atropelado por Rafael Bussamra, que invadiu o local enquanto participava de um racha.

O pai do motorista também foi condenado após ser flagrado pagando propina para dois policiais com intuito de evitar a prisão do filho na época.

Antes de ir ao julgamento, Cissa Guimarães publicou uma foto antiga com o filho no Instagram e disse que tinha esperança de um resultado digno para toda a sociedade.

Álvaro Genro, psicólogo e membro da Associação Brasileira do Trauma, conversou com o Bolsa de Mulher sobre a experiência de famílias, amigos e pessoas próximas em casos parecidos, quando além de perderem um ente querido, por vezes, enfrentam longos e dolorosos processos criminais. Segundo o especialista, o julgamento dos casos pode contribuir na recuperação pós-traumática.

“Ainda que seja doloroso, o trânsito judicial, quando bem encaminhado, ele pode ser bastante integrador quando a pessoa tem também apoio psicológico e da família”, explicou o psicólogo.

Sobre o “resultado digno para a sociedade” na fala de Cissa, Álvaro explica que, em casos de crime, é comum as pessoas sentirem que procurando a Justiça, elas estão lutando por todas as pessoas que passaram por traumas semelhantes. “Isso traz conforto e suporte para que a pessoa continue”, explica o especialista.

Saio do julgamento d processo d meu filho Rafael #rafaelmascarenhas #rafiusk #anjorafael com o peso d sentença : 3 anos e alguns meses d serviço comunitário p homicídio p o atropelador/assassino d meu filho. 3 anos e alguns meses d serviço comunitário p corrupção p o pai d atropelador/assassino d meu filho. Ficarão livres prestando serviços comunitários. Fico pensando q depois d terem feito isto, que serviços comunitários perigosos essas pessoas prestarão à nossa sociedade. Medo. Tristeza. Injustiça. Agradeço c o que restou d meu coração à todas às manifestações d apoio, carinho e respeito q eu e minha família sempre recebemos nestes 6 anos sem nosso Rafa. Como diz Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso”. MUITA LUZZZZZ p nós! SALVE RAFAEL!!!!#paz #gratidão

Depois de tomar conhecimento da sentença, a apresentadora publicou uma ilustração do filho, desabafou na legenda e agradeceu o carinho das pessoas. “Medo. Tristeza. Injustiça. Agradeço com o que restou do meu coração a todas às manifestações de apoio, carinho e respeito que eu e minha família sempre recebemos nestes 6 anos sem nosso Rafa”.

Traumas psicológicos

A investigação de um crime envolvendo um ente querido sempre é um processo doloroso e pode agravar a dor quando a perda é muito recente, mas Álvaro explica que o apoio familiar e o acompanhamento psicológico podem auxiliar. “O suporte terapêutico é imprescindível em situações como a da Cissa e similares, por isso, a Justiça deveria oferecer assistência a todos”. 

No entanto, a resolução jurídica não é capaz de fazer com que a dor seja esquecida e isso também não acontece com o processo terapêutico. “Você nunca vai esquecer a dor, nunca vai esquecer da pessoa e esquecer nem é desejável”, comenta Álvaro.

Para o psicólogo, tratar traumas referentes a perdas é importante para resgatar a mobilidade da pessoa que passou pela experiência traumática, para que ela consiga ver que continua viva e precisa seguir em frente.

“Às vezes as pessoas deixam de sair de casa por um trauma, o tratamento é feito para que ela consiga voltar a viver normalmente, não para que ela esqueça”, esclarece. 

Passar por uma perda não natural e não lutar pelos direitos da pessoa pode ser problemático. De acordo com Álvaro, isso pode causar uma espécie de pendência emocional interna a longo prazo, como se fosse uma dívida não paga com ela, com a família e em alguns casos até com a sociedade.

“Isso pode ser ainda mais pesado porque não é mensurável com clareza, mas presente de alguma forma no sistema daquele indivíduo, uma coisa inconclusa”, comenta sobre uma reação possível.

Como tratar traumas psicológicos?

O psicólogo explica que os traumas têm que ser tratados sempre que ele causar uma sintomalogia, ou seja, sempre que acarretar em uma alteração na vida da pessoa.

De acordo com Álvaro, o uso de drogas, o alcoolismo, não querer sair de casa, tudo isso costuma ser decorrente de traumas que as pessoas, às vezes, nem sabem quais são. Por isso que é importante trabalhar a parte sistêmica.

“Todo trauma gera uma diversidade de respostas. Quando você não consegue fugir, nem lutar, você fica com a energia congelada e isso gera uma espécie de bloqueio, que precisa ser tratado com terapia”, explica.

Atendimento psicológico público

O Cravi (Centro de Referência de Apoio às Vítimas) tem como missão promover o reconhecimento e o acesso aos direitos das vítimas de violência, visando a consolidação dos direitos humanos e o exercício da cidadania.

Vítimas e familiares, que estiverem passando por dificuldades em lidar com a violência sofrida, podem procurar gratuitamente os atendimentos que são realizados por uma equipe multidisciplinar formada por psicólogos, assistentes sociais e defensores públicos. Por enquanto, os atendimentos acontecem apenas em São Paulo.

Fonte: Bolsa de Mulher