É como se este pequeno trecho da música “Mãe”, do rapper Emicida, fosse um resumo breve da vida de Esmeralda do Carmo Ortiz, 36 anos. Negra, mãe solteira, moradora da periferia, Esmeralda carrega em sua mala uma história de superação, confronto com suas próprias dores e de descobertas maravilhosas sobre si mesma, inclusive em relação a algo que hoje ela se orgulha de “ser capaz”: a maternidade. Mãe de Kadú Abayomi, 11 anos, ela foi menina de rua, usuária e traficante de crack nas ruas de São Paulo. Teve mais de 50 passagens pela cadeia e pela antiga Febem.

Cresceu assim, “sem um conceito de família”. “Só tinha meu irmão, que era difícil de ver. Ele sempre estava preso, ou eu”. Ela deu um depoimento emocionante ao Bolsa de Mulher sobre as experiências de sua vida e contou como o acolhimento de uma verdadeira mãe, que a conheceu enquanto ela ainda vivia nas ruas, transformou sua forma de ver, pensar e, principalmente, sentir o mundo.

Como Esmeralda foi parar nas ruas? 

Esmeralda fugiu de casa pela primeira vez aos cinco anos, para se ver livre dos problemas que enfrentava vivendo em uma família totalmente destruída. Ainda menina, conheceu as drogas e se viciou no crack e, durante sua vida nas ruas, também passou a traficar. Foram 10 anos de uso da droga (está longe dela há 18) e 12 anos vivendo à mercê da violência urbana, da indiferença social e das escolhas que surgiam em seu caminho.

“Eu nunca tive um conceito de família. Minha família eram meus amigos que moravam na rua”. Apesar de ter pouca estrutura no núcleo onde nasceu, Esmeralda conta que seu sonho era ter pai e mãe. “Eu sempre quis ter uma família, mãe e pai. Mas, na rua, não tinha vontade de ser mãe”.

Amor de “mãe postiça” a salvou das ruas 

No fio da navalha desde a infância, pendendo para lá e para cá, alguém – a quem passou a chamar de mãe – segurava sua mão. A educadora Célia Pecci, hoje com 59 anos, conheceu “Esme”, como a chama, quando ela ainda era uma menina.

“Ela devia ter uns seis anos, e eu trabalhava na Secretaria do Menor, que atendia as periferias de São Paulo. Até os 18 anos da Esme eu a atendi em diversos projetos e a acompanhei até ela sair das ruas”, lembra Célia, que hoje atua na capacitação na área audiovisual de jovens de baixa renda.

O encontro entre as duas, que eram verdadeiramente como mãe e filha, só reforça a visão que Esmeralda tem hoje de que “família é quem a gente escolhe”. Célia, que nunca foi mãe por conta de sua profissão, chamava Esmeralda de filha. E se não tinha o apoio de sua família biológica, Esmeralda teve todo o suporte necessário e voluntário para sair de sua situação de rua.

“A saída da situação de menina de rua foi apoiada pela ONG Quixote, criada por psicanalistas, e pela Travessia, na qual eu trabalhava e atuava na educação na rua. O trabalho era a abordagem e a criação de vínculos com essas pessoas”, comenta Célia. “Esmeralda teve uma rede de atendimento muito sustentada, do jeito que deveria ser para todos. Ela sair da rua foi um projeto de vida, pois ninguém dá uma virada assim sozinha”.

Gravidez e a chegada de Kadu 

Aos 25 anos, Esmeralda engravidou e encarou mais um grande desafio em sua vida: ser mãe solteira. “Tive uma gravidez conturbada, de um relacionamento que durou 2 anos e 8 meses. Ele falou para eu abortar, mas eu não quis e fui embora. Eu queria ter uma família, por isso me preparei para receber o bebê”.

Mais uma vez, Célia estava ao lado dela nos preparativos para a chegada de Kadú, que veio ao mundo de parto cesárea, em 2004. Cheio de saúde, o pequeno chegou ao mesmo tempo em que Esmeralda realizava outro sonho: ela estava cursando uma faculdade de Jornalismo. Conciliar todos esses desafios, todas as oportunidades que havia conquistado, foi mais uma tarefa em que precisou depositar coragem e confiança em si mesma.

Para isso, novamente contou com Célia. Quando Kadú estava com quatro meses, a educadora levou ele e Esmeralda para morar com ela.“Eu acompanhei a ida aos médicos e estava na maternidade o dia em que ele nasceu. Depois, eles foram para minha casa e foi minha mãe que a ensinou a dar banho nele”, conta Célia. “Para mim, viver esse papel com os dois é experimentar a realidade de ser mãe e avó e isso vai comigo até o final da vida; pensar sempre pelos dois e ser responsável pelos dois”.

Toda essa ajuda que a “mãe postiça” ofereceu ajudou a dar força para que Esmeralda pudesse dar mais um passo para vencer na vida. “Consegui me formar, porque levei meu filho para a sala de aula dos 7 dias de nascido até 1 ano e meio. Os alunos me ajudavam e a professora deixava ele ficar, porque ela teve humanidade. Ele também sempre foi muito quietinho, só chorou uma vez durante as aulas”. Mesmo quando ia trabalhar, Esmeralda, que hoje é cantora e compositora, carregava o filho para o mundo.

O que aprendi com a maternidade: depoimento

Esmeralda conta que seus maiores aprendizados vieram com a chegada do filho. A realização de ser mãe a faz acreditar em sua capacidade, como de todas as mães, de ser um orgulho para seus filhos e viver esse sentimento de maneira profunda e recíproca.

Morando em Pirituba, periferia de São Paulo, Esmeralda e Kadú vivem uma relação de parceria e de compreensão. Ela conta que, apesar de ele saber a história de superação da mãe, entende que não é um roteiro que precisa ser repetido. “Desde criança ele ouve minha historia, porque me acompanha nas minhas palestras. E ele entende que a historia dele não vai ser igual a minha”.

Nas palestras que ministra, a mulher que aprendeu a ser mãe  fala sobre sua vida e a superação de suas dores. Em 2000, Esmeralda publicou um livro autobiográfico com o nome “Esmeralda – porque não dancei”, em que conta sua história de recuperação após sair das ruas e das drogas.

Fonte: Bolsa de Mulher