Depois da divulgação de um vídeo onde uma mulher mostra o nascimento do seu filho por uma “cesárea natural”, o termo chamou atenção e gerou curiosidade. O método ficou famoso porque no Reino Unido a prática pode, em pouco tempo, entrar para o sistema britânico de saúde pública. Existe diferença entre ela e a cirurgia convencional? Como ela é feita? Este parto existe no Brasil?

“Cesárea natural”: o que é?

Para nascer por uma “cesárea natural”, o bebê precisa ser retirado de dentro do útero lentamente para que vivencie as sensações externas gradualmente. Para isso, através do corte convencional, a cabecinha é puxada e, então, o profissional espera que a criança saia aos poucos, expulsada pela própria contração uterina. Depois, é colocada no colo da mãe para que possa fazer o contato pele a pele, essencial para a criação do vínculo entre os dois e, consequentemente, para a amamentação. O cordão umbilical, assim como nos partos humanizados, só é clampeado depois que para de pulsar.

Quem descreve o método é o grupo de profissionais ingleses composto por médicos ginecologistas e parteiras. Eles explicam que embora a cesárea sempre tenha sido realizada de forma ágil e até mesmo bruta, essa não é uma regra e, por isso, é possível adotar uma forma mais gentil de receber os bebês quando o parto natural não é uma opção.

Na Inglaterra, este tipo de nascimento já é feito desde 2010 em clínicas particulares. Mas, depois de recentes estudos mostrando os benefícios da prática, o sistema de saúde pública analisa adotá-la como procedimento padrão nos hospitais.

Qual a diferença para a cesárea comum?

O método não apresenta malefícios se comparado ao procedimento cirúrgico tradicional e ainda pode apresentar benefícios. Entre eles os especialistas listam a criação de vínculo entre mãe e bebê, condição que estimula a produção de ocitocina, hormônio essencial para o sucesso da amamentação; e a melhora no funcionamento do sistema respiratório do recém-nascido já que, enquanto sai lentamente pelo corte na região inferior da barriga, o útero faz uma pressão capaz de eliminar os líquidos contidos no pulmão e que podem atrapalhar a sua respiração.

Quando é indicada?

A indicação para a “cesárea natural” é a mesma para a comum, ou seja, ela só deve ser feita quando o parto normal não for verdadeiramente uma opção segura para mãe ou bebê. O procedimento visa apenas oferecer uma experiência menos traumática e mais humana à mulher e à criança que precisam passar pela cirurgia.

“Cesárea natural” no Brasil

Embora o método possa parecer novo, no Brasil, ele já é praticado por muitos médicos. A causa disso, como explica o Dr. Alberto Guimarães, ginecologista obstetra criador do projeto Parto Sem Medo, é a alta taxa de cesáreas do país.

O Brasil é campeão mundial na taxa de cesáreas. De acordo com a pesquisa Nascer no Brasil, realizada pela Fio Cruz (Fundação Oswaldo Cruz), na rede pública os nascimentos por via cirúrgica ultrapassam os 50%. Na rede privada o número é ainda maior, chegando a quase 90% dos registros em algumas cidades.

É por isso que, sendo um país que realiza muitas cirurgias, os especialistas adotam as melhores e mais novas práticas. “Os médicos daqui são os melhores do mundo em fazer cirurgias”, complementa o obstetra.

O que Dr. Alberto ressalta, no entanto, é que a prática em si não muda. “Continua sendo uma cirurgia. O que muda é que a assistência em torno do nascimento está levando outro nome”, comenta.

No Brasil, médicos que se preocupam com as sensações de mãe e do bebê durante o parto, a depender do quadro da gestação, optam por ambientes tranquilos, silenciosos, com luz baixa, temperatura agradável, mãe com braços livres, retirada do bebê de forma lenta e gradual, colo imediato e estímulo da amamentação nas primeiras horas de vida. “Nada mais é que um nascimento gentil, que respeita a mãe e proporciona uma experiência mais tranquila”, resume o especialista.

É natural mesmo? Tem menos riscos?

A popularização do termo, no entanto, levanta uma discussão. Embora se comparado a um procedimento cirúrgico convencional a “cesárea natural” forneça, de fato, mais benefícios para a mãe e o bebê, em nenhuma hipótese é melhor do que um parto normal. Assim como qualquer cirurgia, ela apresenta mais riscos, incluindo o de hemorragia materna, insuficiência respiratória neonatal e prematuridade e, por isso, só deve ser indicada quando houver necessidade real.

“Caso existam condições obstétricas que levem à cesárea, então o ideal é que ela seja feita em condições mais humanas e acolhedoras. Mas, precisamos ficar atentos com essa badalação porque as pessoas podem imaginar que com esse nome sofisticado elas estão optando pela melhor e mais segura via para o bebê, é não é isso”, reforça o médico.

Fonte: Bolsa de Mulher