Subir uma ladeira de um bairro residencial quase meia-noite, depois de um encontro com as amigas. Seria normal, se eu não fosse mulher. Seria sem medo se, para mim, uma mulher, não fosse um cenário que tem tudo para ser ameaçador. Os homens pela calçada caminham tranquilamente saindo de um jogo de futebol. E eu vou a passos rápidos contando mentalmente os minutos que faltam para eu chegar em casa.

Esta é uma situação que eu já passei e, mudando as referências, a maioria das mulheres já enfrentou. O medo de andar na rua sozinha é uma das pesadas malas que carregamos por estarmos inseridas em uma sociedade em que a liberdade sexual e comportamental dos homens reprime nosso direito – por definição, igualitário – de andarmos nas ruas livres, com a roupa que quisermos, pelo caminho que quisermos.

E foi esta percepção que provocou a jornalista Babi Souza, de 25 anos, a criar o movimento Vamos juntas? – um exemplo de empoderamento e sororidade, uma forma solidária de olhar outra mulher – que já atingiu 330 mil pessoas em sua página do Facebook. A proposta é bem simples. Na próxima vez que estiver em uma situação de risco, observe: do seu lado pode estar uma mulher passando pela mesma insegurança. Que tal irem juntas?

Vamos juntas: por que é importante se unir? 

A união entre as mulheres é a forma mais prática de combater as desigualdades de gênero, ou seja, modificar a estrutura social em que “homens podem tudo” e “mulheres sozinhas são alvos fáceis”.

Mas, na verdade, o movimento Vamos Juntas?, criado em julho de 2015, mata dois coelhos com uma cajadada só: acaba com o conceito furado de rivalidade entre as mulheres e representa um jeito incrível de colocar em prática a solidariedade entre nós.

“Um dia eu saí tarde do trabalho e, no fundo, senti raiva dos homens que trabalhavam comigo e saíam no mesmo horário. Se eles passassem por uma rua escura, teriam medo de que alguém levasse alguma coisa deles; já o medo das mulheres é que levem nossa dignidade, nossa vida”, contou a criadora do projeto ao Bolsa de Mulher, que se inspirou em uma experiência própria para formatar o movimento.

No meio do trajeto até sua casa, Babi precisou passar por uma praça mal iluminada e viu que muitas mulheres também transitavam por lá mais apressadas. “Então, tive a ideia de colar em uma mulher, para passar a mensagem de que eu não estava sozinha”.

Juntas somos mais fortes 

A jornalista ressalta aspectos culturais e de comportamento que favorecem a união dos homens, mas incitam a rivalidade entre as mulheres.

“Desde a infância, os homens acreditam que juntos são mais fortes. Eles têm uma fraternidade e, mesmo não se conhecendo, se cumprimentam na rua, por exemplo”, comenta. “Já a rivalidade entre nós é naturalizada, desde a infância aprendemos a odiar a mulher do lado”.

Depoimentos 

Para comprovar que a proposta tem um efeito real na vida das pessoas, o Vamos Juntas? publica frequentemente depoimentos emocionantes de mulheres que colocaram a ideia em prática.

“Os depoimentos são a melhor forma de inspirar e ver que funciona. É para mostrar que o mundo não é tão ruim como a gente pensa”, explica Babi, que recebe, em média, 100 histórias por dia.

Algumas publicadas na página oficial do movimento você lê ao longo dessa matéria.

Serviço 

O Vamos Juntas? pode ser acessado pela página oficial do Facebook ou pelo site oficial. A jornalista Babi Souza também lançou um livro: “Vamos juntas? – O guia da sororidade para todas”, em que conta a história do projeto, além de apresentar conceitos básicos sobre feminismo, empoderamento e, principalmente, solidariedade entre as mulheres.

Fonte: Bolsa de Mulher