Daily Mail

Laura Ephraums, uma babá inglesa de 20 anos, se assustou quando descobriu que os sintomas que até então estavam sendo relacionados com uma crise de enxaqueca pelos seus médicos, na verdade, eram sinais de um AVC (Acidente Vascular Cerebral). O mais preocupante, na visão da jovem, foi descobrir a possível causa: o uso de pílula anticoncepcional.

Desde que os contraceptivos hormonais começaram a ser estudados com mais rigor, sabe-se que eles aumentam o risco de trombose e, consequentemente, o de AVC e de infarto. Pesquisas recentes mostraram que as pílulas mais modernas, chamadas de “terceira geração”, podem ser ainda mais perigosas. Isto porque elas aumentam em até duas vezes os riscos em comparação às fórmulas antigas e em até quatro vezes quando comparadas aos riscos existentes para mulheres que não usam métodos hormonais.

Demora no diagnóstico do AVC

De acordo com entrevista ao tabloide britânico Daily Mail, a inglesa havia começado a tomar a pílula oito meses antes de ter o problema e, até então, não havia sofrido com nenhum efeito colateral do remédio.

Um dia, devido a uma dor de cabeça muito forte acompanhada de náusea e vômito, a jovem se dirigiu até a emergência de um hospital. Após ser atendida, os médicos a diagnosticaram com uma crise de enxaqueca e prescreveram analgésicos.

Em casa, mesmo depois do repouso e do suposto tempo de atuação dos medicamentos, as dores não cessaram e, desta vez, ela também sentiu paralização do braço direito. Desconfiando de que alguma coisa estava errada, no dia seguinte, Laura procurou novamente a emergência. De novo, o diagnóstico era de enxaqueca, e a babá foi mandada para casa.

A cena se repetiu pela terceira vez quando seu namorado, percebendo o grave estado de saúde da jovem, ligou chamou uma ambulância. Os médicos reforçaram a enxaqueca e a medicaram.

O quadro só mudou três dias depois, quando os pais da inglesa solicitaram atendimento médico residencial e, depois de ser analisada, ela foi encaminhada para outra unidade de saúde. Foi neste momento que os médicos realizaram exames e descobriram que Laura tinha um coágulo de sangue parado no cérebro. “Foi horrível ouvir o diagnóstico de AVC. Mas eu estava com uma dor tão forte e tão intensa que fez sentido”, declarou ao site britânico.

Com o diagnóstico tardio, a jovem teve de ficar uma semana internada para se recuperar. O AVC ainda deixou sequelas, entre elas o comprometimento da fala e da visão. Hoje, a inglesa usa um óculos especial adaptado para suas necessidades.

Causa do problema: anticoncepcional?

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Embora não seja possível confirmar, Laura conta que, mesmo depois de uma longa investigação, os médicos não encontraram quaisquer outros fatores que pudessem ter desencadeado a doença além do uso da pilula anticoncepcional. “Eles me disseram o AVC podia ter sido causado pela pílula porque não acharam nenhuma outra razão para o que aconteceu”, disse ao Daily Mail.

Agora, a inglesa criou um abaixo-assinado para o medicamento – Rigevidon – ser retirado de circulação e diz que, com isso, quer alertar outras mulheres. “Isso realmente me preocupa, especialmente pensando em como muitas mulheres tomam a pílula. Eu acho realmente importante tornar as pessoas conscientes desses riscos para que isso não aconteça com mais ninguém”, explicou ao site.

Ao Daily Mail, a MHRA (agência inglesa reguladora de produtos de saúde e medicamentos) disse que os anticoncepcionais são seguros, altamente eficazes e que os riscos de formação de coágulos no sangue são pequenos. Uma porta-voz da entidade disse que “as mulheres devem continuar a tomar a pílula” porque ela é “segura e altamente eficaz para prevenir a gravidez indesejada, já que seus benefícios superam os riscos”.

Anticoncepcionais são perigosos?

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Estudos indicam que os contraceptivos hormonais aumentam, sim, as chances de uma mulher ter uma trombose e, consequentemente, sofrer um AVC ou um infarto. De acordo com o médico ginecologista Dr. Rodrigo da Rosa Filho, da Clínica Mater Prime, de São Paulo, os maiores riscos estão relacionados ao estradiol – substância presente nos anticoncepcionais – devido à sua capacidade de aumentar a coagulação do sangue.

Pilulas mais modernas são mais arriscadas?

Ainda como explica o médico, as pílulas modernas, além do estradiol, ainda contêm um hormônio que simula a progesterona (hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano), e a presença dela na corrente sanguínea faz com que os hormônios masculinos (também produzidos pelo corpo das mulheres) fiquem mais circulantes. “Eles também aumentam os riscos de coagulação e isso interfere”, comenta.

Anticoncepcional: coagulação de sangue, trombose, AVC e infarto

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A ação de um ou da combinação desses dois hormônio sintéticos, portanto, resulta em uma maior chance de coagulação do sangue. É quando um desses coágulos entope uma veia que o paciente é diagnosticado com trombose. Quando a região afetada é o coração, os coágulos podem resultar em um infarto. Já quando um deles para no cérebro, pode causar um AVC. “Existem dois tipos de AVC: o hemorrágico, que é quando um vaso rompe e extravasa sangue por todo o encéfalo, e o isquêmico, que é a interrupção do fluxo sanguíneo pelo coágulo. Esse último é o mais comum, somando 80% dos casos e é ele que está relacionado o uso de contraceptivos”, explica o médico.

Quem corre risco?

Embora toda as mulheres que usam anticoncepcional estejam expostas a riscos, eles são muito baixos quando não existem outros fatores envolvidos. “Quando tem histórico familiar ou pessoal – a paciente fuma ou tem mais de 35 anos -, as pílulas entram como um fator a mais no risco. Mas, se não for nesses casos, a chance de trombose ou outra complicação é extremamente baixa”, comenta Dr. Rosa.

No entanto, é importante que, mesmo os riscos sendo baixos, as mulheres reconheçam que eles existem e saibam identificar os sintomas que podem ser indicativo de complicações.

Sintomas da complicação do uso de anticoncepcionais

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O primeiro e mais significativo deles, de acordo com o ginecologista, é a dor de cabeça. “A mulher que tem dor de cabeça e que, quando suspende o uso do contraceptivo, percebe que ela cessa, pode ter mais propensão a ter outros problemas”, mostra.

É por isso que, embora não seja frequente, os sintomas de um AVC podem ser confundidos com uma crise de enxaqueca, como aconteceu no caso da inglesa. “A depender do tipo de AVC, o sintoma é a forte de cabeça, a alteração visual ou motora, sintomas também comuns na enxaqueca”, explica Dr. Rosa.

Sintomas do AVC

O ginecologista alerta, no entanto, que este não é o único sinal. “Nem sempre a dor de cabeça aparece. A depender da região do cérebro que for afetada, a paciente pode ter um sintoma. Os principais são aqueles que afetam o sistema motor, a fala ou a audição repentinamente. Merece atenção uma pessoa que está bem e repentinamente perde a memória, a força ou a visão”, esclarece.

Devo parar de tomar anticoncepcional?

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O especialista pondera, no entanto, que, além de os riscos de tomar anticoncepcional serem baixos, a maioria das mulheres se beneficia com o uso deles. Entre as vantagens, ele lista a redução das chances de desenvolver câncer no ovário ou no endométrio e a amenização dos sintomas da TPM (tensão pré-menstrual).

Uso deve ser individualizado

No entanto, para garantir a segurança das pacientes, Dr. Rosa alerta para a prescrição e uso incriminado. “É um remédio e como qualquer outro tem benefícios e efeitos colaterais. É por isso que não pode tomar o mesmo da amiga ou o indicado pela mãe. A análise e a prescrição do medicamento precisam ser feitas por um ginecologista de forma individualizada e levando em consideração vários fatores”, reforça.

Não é o melhor método para todos os casos

Mas, embora a pílula seja considerada uma boa alternativa pelos médicos, o ginecologista diz que, para aquelas mulheres que não possuem nenhum problema no sistema reprodutor e visam com o contraceptivo a prevenção da gravidez, existem métodos melhores. “Existe o DIU de cobre, que é sem hormônio e altamente eficaz, e também o DIU hormonal, que libera uma menor quantidade de substâncias e apenas localmente, características que diminui o efeito sistêmico”, comenta.

Fonte: Bolsa de Mulher