Um novo vídeo encontrado no celular de Raí de Souza, que está preso por participação no estupro coletivo de uma menina de 16 anos no Morro do Barão, no Rio de Janeiro, traz novas informações para o caso: as imagens mostram ela pedindo para que os abusos sexuais parassem. Esta e outras provas foram divulgadas pelo Fantástico, da TV Globo, na noite de ontem.

O programa entrevistou a delegada que investiga os envolvidos, que reforçou que o crime do estupro já havia sido comprovado. “O desafio da Polícia era provar a extensão desse crime, quantos autores, quem praticou esse crime”, afirmou a delegada Cristiana Bento. Com o vídeo, a polícia conseguiu traçar uma linha do tempo dos acontecimentos do caso de estupro que chocou o país.

Além desse material, foi encontrado um áudio que comprova que moradores da favela foram obrigados por traficantes a participar de um protesto a favor dos acusados do estupro. Acompanhe quais são as novas informações do caso descobertas até agora pela Polícia.

Estupro coletivo no Rio de Janeiro: novas provas do caso 

Segundo vídeo do crime 

O Fantástico divulgou trechos de um vídeo encontrado no celular do Raí em que é registrado um diálogo entre a menor de 16 anos e um dos agressores. No momento da gravação, pelo menos três acusados estão no local do crime: Raí, o dono do celular, Jefinho e Rafael. A jovem reclama de dor:

Áudio sobre protesto dos moradores 

Em um áudio também encontrado no celular de Raí, a Polícia encontrou provas de que os moradores da favela se manifestaram a favor dos acusados porque foram obrigados, com uma mensagem de tom intimidador:

A manifestação aconteceu no dia 30 de maio, segundo reportou O Globo. Os moradores levantavam cartazes com mensagens como “Nenhuma comunidade aceita estupro” e “Não houve estupro”.

Cronologia dos fatos 

De acordo com informações da Polícia, é possível traçar uma sequência de acontecimentos que podem elucidar o caso. Acompanhe:

Sábado

7 horas

A vítima, Raí, o jogador de futebol e ex-namorado da vítima Lucas Santos e mais uma garota saem de um baile funk na comunidade. Os quatro foram a uma casa abandonada no Morro do Barão.

10 horas

Raí, Lucas e a outra garota saem da casa.

11 horas

A menor é encontrada desacordada pelo traficante Moisés Camilo de Lucena, conhecido como Canário, de 28 anos. Ele a leva para outra casa. Canário teria sido o primeiro a estuprá-la.

Domingo

19 horas

Raí chega na casa acompanhado de Rafael Duarte Belo e de um homem identificado como Jefinho. Neste momento, eles abusam da adolescente, gravam vídeos e tiram fotos da vítima.

Declaração da delegada sobre o estupro 

A delegada que investiga o caso, Cristiana Bento, reforçou que, por conta do acesso a esse conteúdo, há provas materiais de que pelo menos quatro homens da comunidade estupraram a menina. Pela cronologia dos fatos, o abuso sexual aconteceu pelo menos duas vezes: no sábado de manhã e no domingo à noite.

“A gente tem prova material de que Rafael, Raí, o chamado Jefinho e o Moisés Lucena (o Canário) abusaram sexualmente dessa menina”.

Raí, que havia afirmado à Polícia que tinha destruído o celular com as provas, e Rafael já estão presos no presídio Bangu. Lucas chegou a ir para a prisão, mas acabou sendo solto por falta de provas. Moisés e Jefinho estão foragidos.

“Eles vão responder pelos dois crimes: por estupro e por produção e divulgação de imagem da adolescente”, afirmou a delegada. “E que essa seja uma pena exemplar, para mostrar para aquela comunidade que existe lei, e que a lei quem faz é o Estado”.

Quantos homens estupraram a menor? 

Na reportagem do Fantástico, a Polícia declarou que acredita que o número de 30 homens envolvidos no estupro coletivo não seja real. Isto porque essa quantidade, mencionada em um áudio de um dos participantes, seria uma referência a um funk, o “Mais de 20 engravidou”, do MC Smith.

O próprio músico já se posicionou sobre o caso, em entrevista ao site Brasil Post. Ele nega que sua música incentive a violência contra mulheres, apesar de a música ter trechos como “se mexer, ela vai ficar de barriga”, e fazer referência a menores de idade como “novinhas”.

É verdade que o crime organizado não tolera estupradores? 

Apesar de ser um argumento muito difundido na sociedade, a tese de que o crime organizado não tolera estupradores entre eles não é real, segundo a opinião da delegada Cristiana Bento.

“Isso não existe, os traficantes estupram, matam, intimidam”, afirmou ao Fantástico.

Em entrevista ao site Ponte, a socióloga Camila Nunes Dias, professora da Universidade Federal do ABC, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV-USP), uma das principais estudiosas do crime organizado no Brasil e autora do livro “PCC: hegemonia nas prisões e monopólio da violência”, destacou essa percepção.

“O chamado crime organizado, que a gente pode traduzir como os comandos que controlam as prisões e as localidades pobres, não admitem os estupros dentro das cadeias de um homem por outro (isso não se aceita mais, pelo menos aqui em São Paulo) e o estupro de mulheres visto num sentido mais, digamos, ‘clássico’: aquela ideia do desconhecido que aborda uma mulher na rua e, mediante ameaça, comete um ato sexual forçado”, respondeu ao site.

“Agora, acho que é importante considerar que o tipo de estupro ocorrido nessa comunidade do Rio de Janeiro, envolvendo pessoas que se conhecem, em momentos de festa, com o consumo de bebidas e drogas, não é reconhecido assim. Esse tipo de ato, que a gente também classifica como estupro, porque se trata do abuso de uma pessoa que está numa situação de vulnerabilidade, ocorre com muito mais frequência, não só nas comunidades pobres, mas também em festas universitárias e de classe média. É o compartilhamento de uma cultura machista amplamente disseminada na nossa sociedade e que, no caso das comunidades pobres, se revela de forma mais contundente”.

caso de aluna da USP é investigado 

Fonte: Bolsa de Mulher