Um dos momentos mais polêmicos da votação do prosseguimento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, no último domingo (17), aconteceu quando o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) dedicou seu voto em memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Entre tantas pessoas que se revoltaram com a declaração, mulheres tiveram motivos especiais para serem contrárias à opinião do deputado, inclusive a presidente Dilma Roussef. E o assunto precisa ser debatido entre todas nós, independentemente de nosso posicionamento político.

Quem foi o Coronel Ustra?

Para quem não sabe, Ustra foi judicialmente considerado responsável direto ou indireto por vários crimes de tortura durante a Ditadura Militar. Entre as vítimas, várias mulheres, como a presidente (que, na época, tinha apenas 23 anos). Um dos métodos utilizados pelos torturadores, segundo relatos, era o de mandar colocar ratos nas vaginas das mulheres.

Ele era o chefe comandante do Destacamento de Operações Internas (DOI-Codi) de São Paulo e, em 2008, foi o primeiro militar reconhecido pela justiça como torturador durante a ditadura, acusado também de crimes de assassinato, mas não chegou a ser preso ou punido e morreu alguns anos depois.

Bolsonaro cita Ustra: o que isso tem a ver com você?

O pronunciamento do deputado causou grande indignação. E isso não tem nada a ver com impeachment ou com a própria Dilma, mas, sim, com direitos humanos e, principalmente, direitos das mulheres.

Ao homenagear um homem que teve esse tipo de conduta, o deputado Bolsonaro desprezou as histórias de várias mulheres que foram vítimas da repressão, assim como a luta atual pelos direitos das mulheres contra a violência cotidiana, muito inspirada pelos relatos de sofrimento de suas antecessoras.

Campanha contra Bolsonaro: #EmMemóriaDelas

Por tudo isso, a página As Minas na História, que celebra mulheres que mudaram o mundo, lançou uma campanha nas redes sociais. Usando a hashtag #EmMemóriaDelas, a proposta é que as pessoas publiquem em seus perfis imagens de mulheres torturadas na ditadura pelo coronel Ustra ou seus subordinados, em repúdio às atitudes violentas dele.

“Não importa o seu partido, nem se você é a favor ou contra o impeachment. Não podemos permitir que um estuprador seja citado como herói”, diz a publicação, acompanhada de várias fotos dessas mulheres, bem como suas histórias. Foi criado também um filtro para que qualquer pessoa possa alterar sua própria foto de perfil e prestar essa homenagem à força delas, mostrando que todas as mulheres merecem respeito.

Resposta de Dilma Rousseff

No dia seguinte à votação na Câmara, a presidente Dilma Rousseff fez um pronunciamento sobre sua situação política e comentou a respeito das declarações de Bolsonaro.

Presa em 1970 por participar de uma organização que fazia oposição ao regime militar, ela teve um dente arrancado a socos, foi amarrada a um pau de arara e recebeu diversos choques, além de fortes ameaças, segundo relato feito à Comissão Estadual de Indenização às Vítimas de Tortura de Minas Gerais, seu Estado natal. Ela diz que até hoje carrega marcas físicas e psicológicas. “As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim”, disse. Segundo ela, durante a votação, tudo voltou à sua memória ao ouvir o deputado enaltecer o homem que a torturou. “O terror de Dilma”, foi como ele se referiu a Ustra.

“De fato, eu conheci muito bem esse senhor, ao qual se refere. Ele era um dos maiores torturadores do Brasil. Recaem sobre ele também acusações de morte. É só ler os papéis da Comissão da Verdade e mesmo outros relatos. Eu lastimo que esse momento tenha dado abertura para esse tipo de fala. Num processo como o nosso que a democracia resulta de uma luta é terrível ver alguém votando em homenagem ao maior torturador que o Brasil conheceu”, disse.

 

Fonte: Bolsa de Mulher