A mensagem escrita pelo Barão de Coubertin no leque Viscondessa de Cavalcanti se tornou o destaque de Juiz de Fora no Tour da Tocha (Foto: Museu Mariano Procópio/Arquivo)
A Viscondessa de Cavalcanti fez o Brasil voltar a atenção para o acervo do Museu Mariano Procópio durante a passagem da Tocha Olímpica em Juiz de Fora. O motivo foi o destaque à assinatura do Barão Pierre de Coubertin, criador das Olimpíadas na era moderna, no leque que ela personalizou, ao longo da vida, com registro de pessoas notáveis. Também é atribuído à coleção formada pela Viscondessa, e doada ao Museu, um livro escrito pelo Barão: “Notas sobre Educação Pública”, que ampliou os laços com o evento mundial da cidade da Zona da Mata, onde a Tocha irá chegar e pernoitar neste domingo (15).

Amélia Machado Coelho, nasceu no Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1853. Em 1871, casou-se com o Conselheiro Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque, o Visconde de Cavalcanti, que foi senador, presidente das províncias do Ceará, do Piauí e de Pernambuco, e também ministro da Agricultura, Justiça, Comércio e Obras Públicas e Negócios Estrangeiros.

Viscondessa de Cavalcanti viveu em Juiz de Fora(Foto: Museu Mariano Procópio/Arquivo)
A Viscondessa reuniu itens variados para o museu particular que tinha no Rio de Janeiro. Após a Proclamação da República, ela se mudou com a família para Paris e levou o acervo.

Entre as décadas de 1920 e 1930, distribuiu suas coleções entre instituições no Brasil e no exterior. Ela morreu no Rio de Janeiro em 1946.

Na jornada de 94 anos da vida integrante da nobreza houve uma forte ligação familiar com Juiz de Fora.
“Ela era sobrinha e afilhada de Mariano Procópio, frequentava a chácara de veraneio da família que se tornou o museu.

Em 1874, alugou o imóvel da tia, que se mudou para a Europa após ficar viúva, e passou dois anos vivendo aqui. Por causa destes dois anos felizes, eles optaram por deixar Paris porque o marido escolheu que queria morrer aqui no Museu Mariano Procópio, em 1899 e está sepultado no Cemitério da Glória.

Ao longo da vida, ela morou no Rio de Janeiro, capital do país, Paris, Lausanne, na Suíça e em Juiz de Fora”, explicou o superintendente do Museu, Douglas Fasolato. Em busca de registrosApontada como a segunda maior colecionadora responsável pelo Museu Mariano Procópio, atrás apenas do fundador Alfredo Ferreira Lage, o que impressiona no acervo atribuído à Viscondessa é a variedade de interesses.

A historiadora Angelita Ferrari estudou a coleção de 104 pinturas em miniatura na dissertação para o mestrado em História, Cultura e Poder na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Em entrevista ao G1, ela destacou uma característica presente em todas as coleções da Viscondessa que pode ser percebida nas miniaturas: o metodismo e o interesse mais amplo que as temáticas de outros colecionadores (veja no vídeo ao lado)
A chefe do Departamento de Acervo do Museu Mariano Procópio, Maria Salete Filgueira, destacou que Angelita Ferrari foi a primeira pessoa a pesquisar alguma parte do acervo da Viscondessa.

Atualmente, há estudo em andamento sobre as 69 mensagens deixadas no leque na Faculdade de História da UFJF. Segundo ela, é importante que mais pesquisas sejam realizadas para buscar os elementos que comprovem as suposições.

“Falta realmente pesquisar para confirmar algumas hipóteses que nós temos diante das características do colecionismo dela. As pesquisas estão avançando a cada dia em várias categorias diferentes.

Ainda queremos encontrar a documentação e as fontes que comprovem que algumas coleções que temos são mesmo dela”, disse. Mensagens, partituras musicais e desenhos personalizaram o leque de madeira e pergaminho que pertenceu à Viscondessa de Cavalcanti (Foto: Museu Mariano Procópio/Arquivo)
Mesmo a Viscondessa de Cavalcanti sendo uma mulher diferenciada, que escapava muito do papel pressuposto para a época, ainda é difícil encontrar registros que comprovem os feitos atribuídos a ela.

“A gente tem dificuldade de encontrar documentação se, por exemplo, em 1888 ela estava realmente em algum lugar da Europa. Só há menções aos homens nas listagens e nos diários.

As mulheres não eram citadas. Há menções rápidas em jornais, destacando beleza e elegância, mas precisamos de mais comprovações e fontes, para completarmos a ligação entre as informações que já temos”, comentou Maria Salete.

Conhecimento variadoA Viscondessa deixou um legado que mostra o interesse em áreas diversificadas, como uma forma de registrar o momento pensando no futuro. Uma preservação da memória.

Douglas Fasolato analisou que o fato de interagir com pessoas de todas as origens e habilidades se refletiu nas suas coleções.
A beleza lhe abria as portas, mas a inteligência, o savoir-faire, a cultura a integravam e solidificavam suas relações”
Douglas Fasolato
“A beleza lhe abria as portas, mas a inteligência, o savoir-faire, a cultura a integravam e solidificavam suas relações.

Ela rompia os espaços que, até então, não eram atribuídos às mulheres. Ela buscava conhecimento e, por isso, nos legou uma coleção diversificada e um leque que se tornou uma exposição, uma história, uma vida em miniatura deste momento que ela estava vivendo pós-Proclamação da República, uma espécie de um exílio que durou décadas na Europa”, disse o diretor Douglas Fasolato.

Entre os feitos da Viscondessa enumerados por Douglas Fasolato, estão publicações como os livros de 1899 e 1910 sobre numismática, considerados referências para pesquisadores, uma coleção etnográfica brasileira e outra coleção de história dividida entre os museus europeus. O superintendente destacou o que coube à Juiz de Fora na divisão deste patrimônio.

Fotos também fazem parte do acervo daViscondessa (Foto: Assessoria Mapro / Divulgação)
“Temos o privilégio de ter mais de 12 mil itens da coleção dela aqui no Museu Mariano Procópio, desde fotografias, álbuns, livros com a encadernação padronizada que ela fazia, arquivo documental, sobretudo relativo aos negócios estrangeiros, afinal ela foi a primeira-dama do Itamaraty na década de 1870. Interesse em botânica e em pesquisadores”, ressaltou.

Com uma atuação voltada para causas humanitárias e projetos sociais, além do desenvolvimento da educação, Douglas Fasolato comentou que ela foi uma das pioneiras na inclusão dos cegos.
“Ela foi a responsável por criar o setor de braile da Biblioteca Nacional.

Através dos contatos que possuía, criou uma ligação entre as pessoas na Europa e no Brasil para produzir livros em Braile. Nós temos aqui cinco exemplares que ela mesma produziu.

Ela foi uma mulher espetacular”, disse.
Antigamente, o museu tinha uma sala dedicada à Viscondessa, onde ficavam expostos itens da coleção, incluindo as miniaturas e o leque.

Douglas Fasolato antecipa, sem dar detalhes, que no novo projeto após o restauro, ela terá uma sala que reforçar a importância dela.
“Tudo que sabemos ainda é pouco, porque a vida dela, as relações, as viagens estão sendo mapeadas para dar a dimensão que ela merece.

Por causa da rede de sociabilidade que ela criou, há itens do acervo dela em museus da França e em pelo menos três museus da Holanda. Ou seja, ela propicia a Juiz de Fora um reconhecimento internacional através do Museu Mariano Procópio, como está ocorrendo por causa do interesse no leque.

Cabe a nós sabermos aproveitar esta potencialidade”, concluiu Fasolato.
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