Toninho ingressou na UFV, como aluno, em 1976 e em 2016 (Foto: Antônio Carlos Vieira/Arquivo pessoal)
Aos 58 anos, Antônio Carlos Vieira já se encaminhava para a aposentadoria, depois de passar mais de três décadas lecionando no Departamento de Física da Universidade Federal de Viçosa (UFV), quando resolveu encarar um pouco mais das salas de aula. Mas, desta vez, ele mudou de lado, e vai passar quatro anos como aluno da Faculdade de Comunicação Social da mesma universidade na qual construiu sua carreira.
O mineiro de Galiléia, no Vale de Rio Doce, chegou a Viçosa em 1976, após passar três anos em uma escola agrícola federal no Espírito Santo.

“De lá, vi que não tinha muita vocação para ciências agrárias. Nenhuma, na verdade”, contou.

Toninho e amigos durante uma calourada na UFV(Foto: Antônio Carlos Vieira/Arquivo pessoal)Depois de passar cerca de um mês rodeado por alunos cuja média de idade gira em torno de 18 anos, Toninho, como não só prefere, mas determina ser chamado, conversou com G1 e disse que o que o repórter queria ouvir – nunca é tarde para se reinventar, ampliar horizontes e descobrir um novo caminho.
Se quando ingressou na UFV, como aluno do extinto curso de Ciências, o garoto vinha de uma cidade pequena, com menos de dez mil habitantes e não tinha muito dinheiro, atualmente, é um professor respeitado, que tem seu próprio gabinete em uma das maiores universidades do país e uma família da qual fala com orgulho.

“São três filhos, todos já ‘resolvidos’ e dois netos. Estamos eu e minha esposa em casa e sentia que precisava fazer alguma outra coisa.

Agora, eu estou me sentindo bem, está todo mundo curtindo muito. Foi minha filha que viu o resultado do vestibular e me ligou dando a notícia.

Ela diz que o pai dela é o máximo”, comemorou, emocionado. Turma de calouros no campus da UFV, em 1976 (Foto: Antônio Carlos Vieira/Arquivo pessoal)
A escolha pela Física veio meio que sem querer, ele adimite, mas a paixão pela profissão foi tão grande que ele não conseguiu mais ficar parado e tentou, até o último momento, continuar nas duas áreas.

“Na época, resolvi fazer curso de Ciências e, quando tive que escolher, fui pra Física. Foi uma boa escolha, porque na época, não tinha muita gente formada em Física e, já no primeiro concurso que tentei depois de formado, em 1980, entrei na UFV, como professor.

Fiz mestrado aqui mesmo, mas nunca gostei de ficar parado. Mesmo agora, perto de aposentar, tentei conciliar e levar os dois (Física e Jornalismo) ao mesmo tempo, mas vi que não ia dar”, afirmou.

Aos poucos, estou com um novo olhar sobre tudo. É algo que Jornalismo está me dando.

Estou diferente, mais crítico”
Antônio Carlos Vieira, aluno da UFV
Toninho prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2015 e, logo na primeira chamada, foi contemplado com uma vaga em Jornalismo.
“Fui olhar a matriz do curso e achei legal, pensei que fosse dar pouco trabalho.

Também cogitei Direito, mas acho que seria mais complexo. Sinceramente, este início está sendo muito diferente, na linguagem.

É muito paradigma na minha cabeça, principalmente em Teoria da Comunicação”, reclamou, em tom de brincadeira.
O estudante costuma aparecer em diversas fotos com a nova turma, seja na apresentação, em palestras para calouros, oferecidas pela universidade ou almoçando no Restaurante Universitário.

Para ele, este contato próximo faz parte do aprendizado diário.  Estudante gosta de acompanhar colegas fora dasala.

(Foto: Antônio Carlos Vieira/Arquivo pessoal)“Eu vou fazer 59 anos em junho, a maioria da minha turma está com 17 ou 18, todos muito abaixo de mim, mas a relação está excelente. Eu estou entrando no clima, me adaptando.

Eles me chamam para sair e até para algumas festas e micaretas, mas aí já é demais pra mim”, disse. A mudança de exatas para humanas trouxe reflexão para o cotidiano de Toninho, que já sente os reflexos da nova profissão em atividades rotineiras.

“Aos poucos, estou com um novo olhar sobre tudo. É algo que Jornalismo está me dando.

Em qualquer reportagem que vejo, percebo que estou diferente, mais crítico, principalmente neste atual momento do Brasil, em que a importância do profissional em Comunicação é enorme, assim como a responsabilidade”, afirmou.
Sobre o futuro no curso, ele disse que prefere não planejar muito e que vai deixar o jogo rolar para ver o que acontece, mas não esconde o desejo de trabalhar na nova área e estender ainda mais seu horizonte profissional.

“Eu resolvi tirar minhas férias agora e depois vou entrar com o pedido de desligamento na Física. Alguns alunos não gostaram, acharam que eu estava os abandonando, mas já estava na hora de sair.

Sempre gostei muito de trabalhar e tive contato com o pessoal da TV Viçosa (TV universitária), enquanto fazia teatro. Acredito que o curso vai me enriquecer muito e eu ainda posso atuar na área.

Daqui quatro anos nos falamos de novo e você me pergunta”, concluiu, aos risos. Turma de calouros de Jornalismo da UFV, em 2016 (Foto: Antônio Carlos Vieira/Arquivo pessoal)
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