Valter é cabeleireiro, mas resolveu trabalhar também como artesão (Foto: Gustavo Almeida/G1)
As peças de arte produzidas pelo cabeleireiro Valter José Ferreira Filho, 37 anos, vêm chamando atenção desde o ano passado em Teresina. Ele usa pneus velhos para transformá-los em belos objetos de decoração, móveis, brinquedos e até mesmo em motocicletas no tamanho real. O artesão que antes trabalhava apenas com peças de madeira passou a mexer somente com pneus desde junho de 2014.

No começo era apenas conjunto de cadeiras e objetos de decoração, mas com a curiosidade e a astúcia do artesão, ele decidiu ousar mais e passou a incluir as motos no seu rol de produtos de arte. Até agora já foram nove motocicletas produzidas com os pneus que ele recolhe nas ruas e nas portas de oficinas da capital.

Atualmente, a peça está sendo vendida pelo valor de R$ 1. 100.

Cabeleireiro conta com a ajuda de amigos pararealizar o trabalho (Foto: Gustavo Almeida/G1)
“Eu gosto mesmo é do diferente. Sou cabeleireiro há 22 anos, sou pobre, e não preciso desse tipo de trabalho com pneus para sobreviver.

Ocorre que eu gosto de fazer esse tipo de arte, pois me sinto feliz com isso. Trabalho quatro horas por dia com os pneus aqui no espaço e seis horas no meu salão próximo à minha casa”, contou Valter.

De acordo com ele, uma moto leva 10 dias para ser confeccionada e na maioria das vezes a peça é feita por encomenda. Valter explica que cada motocicleta é composta 90% de pneus e apenas 10% com outro material complementar, o que inclui parafusos e os tubos de metal usados para replicar os amortecedores do veículo.

A última peça foi vendida para um empresário da cidade de Piripiri, na região Norte do Piauí.
Questionado sobre a importância do seu trabalho também para o meio ambiente, já que o pneu é um dos grandes vilões na luta contra o mosquito Aedes aegypti, o artesão diz que se sente feliz em saber que está contribuindo para o bem da natureza.

Para ele, ver que o seu trabalho de arte é um aliado nesse momento em que o país luta contra o mosquito o deixa mais satisfeito ainda.
“Isso me deixa mais realizado.

Quanto mais eu ajudo o meio ambiente recolhendo os pneus, mais eu lucro e isso é muito bom. É algo que me deixa orgulhoso.

Sempre após as 22h eu pego o carro e saio recolhendo os pneus que as oficinas deixam nas calçadas. Eles são a minha matéria-prima e trago todos para cá”, relatou ele que conta com a ajuda de três amigos nas produções.

Jogo de cadeiras leva até uma semana para ficar pronto (Foto: Arquivo Pessoal/ Valter José Ferreira)
O cabeleireiro expõe algumas peças na pracinha em frente ao local onde produz, às margens da BR-343, no Parque Rodoviário, Zona Sul de Teresina. Segundo ele, o local é estratégico porque ali passam pessoas de toda a cidade e de vários outros estados.

Ele diz que muita gente para apenas para tirar fotos e muitos decidem comprar as peças. O ponto onde Valter trabalha é pequeno e ele ainda precisa pagar aluguel.

ApoioAo longo dos quase dois anos trabalhando com os pneus, Valter conseguiu um grande cliente, que logo se tornaria um amigo e apoiador do seu artesanato. O promotor Francisco de Jesus Lima, do Núcleo de Combate à Violência contra a Mulher do Ministério Público do Estado do Piauí, conheceu o trabalho do cabeleireiro e passou a ser um grande admirador da sua criatividade.

Francisco de Jesus se diz admirador do trabalho de Valter (Foto: Arquivo Pessoal/ Francisco de Jesus Lima)
Apaixonado por arte e por natureza, o promotor comprou várias peças para um espaço especial organizado na casa dele. Francisco de Jesus até mesmo sugere novas criações ao artesão e sempre procura divulgar o trabalho por onde passa.

Segundo o promotor, a arte magnífica do cabeleireiro da Zona Sul de Teresina precisa ser valorizada e reconhecida pela beleza e principalmente pela importância para o meio ambiente.
Eu costumo dizer que o Valter quando quer dinheiro vai buscar no lixo”
Francisco de Jesus Lima, promotor de Justiça
“Para mim o Valter é um visionário.

Ele transforma o lixo em coisas práticas e também vem transformando pessoas. Eu lamento que as autoridades do meio ambiente ainda não tenham enxergado no Valter uma alternativa para o reaproveitamento sustentável que tanto se fala nos dias de hoje”, comentou o promotor.

A transformação de vidas a que o membro do Ministério Público se refere é sobre as oficinas que o artesão tem ministrado na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), em Timon-MA, cidade vizinha a Teresina. A instituição é dedicada à recuperação e reintegração social de condenados.

“O Valter está dando um show na Vara de Execuções Penais e vai contribuir ainda mais. Eu sempre divulgo o artesanato dele e mostro para outras pessoas.

Conheci o trabalho dele quando passei e vi na praça a produção de uma cadeira feita por ele. Eu costumo dizer que o Valter quando quer dinheiro vai buscar no lixo”, disse o promotor.

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