Setor da construção civil é um dos mais afetados pela crise (Foto: Jamile Racanicci/G1)
A crise política e econômica que afeta o Brasil tem provocado demissões em vários segmentos e no Piauí a realidade não é diferente. Empresários da indústria ouvidos pelo G1 contam que o atual momento é bastante crítico e que muitos estão sendo obrigados a demitir uma grande quantidade de funcionários. Em uma das empresas, os desligamentos já atingiram 60% do quadro de trabalhadores.

O empresário George Augusto Albuquerque Rodrigues, dono de uma fábrica de carrocerias em Teresina, conta que a queda na indústria automobilística afetou duramente a sua empresa. De acordo com ele, dos 80 funcionários que a firma mantinha, 45 foram demitidos somente de agosto de 2015 até março deste ano.

Para o empresário, essa é a pior crise em seus 37 anos de atuação no mercado.
“Tivemos que demitir pessoal de nível superior como contador, engenheiros de produção, mecânicos e outros.

É triste você mandar 45 pais de família para casa sem nenhuma perspectiva, mas ou você faz ou não tem como manter. Está sendo uma queda imensa e tudo que ganhei nos últimos 10 anos posso perder daqui para o fim desse ano”, desabafou o empresário.

George conta que a aquisição de caminhões no Piauí, que antes era de 150 unidades por mês, caiu para apenas 30 e as consequências são sentidas nas empresas de suplemento como a dele. Inconformado com a situação, ele afirma não ter perspectivas de que o atual cenário mude antes de 2018 e diz que alguma medida precisa ser tomada com urgência.

“Quando se tem o caos é preciso tomar uma medida. Nossa imagem está suja e tudo está conspirando contra as empresas.

É uma crise sem precedentes, uma situação muito crítica e o governo apenas contribui para isso. Alguns demitidos que são qualificados montam oficinas para concorrer com a gente com preços desleais e o mercado fica ainda mais difícil”, falou.

Outro que também relata a situação crítica é o empresário José Joaquim Gomes da Costa, proprietário de uma fábrica de telhas de cerâmica na capital piauiense. Segundo ele, 20% do quadro de funcionários já foi demitido somente de janeiro até agora, o que corresponde a 100 pessoas dispensadas.

Outros 50 já estão de aviso prévio.
“A coisa está se agravando cada vez mais e é muito doído fazer essas demissões porque são famílias.

A gente fica entre a cruz e a espada. Já passei por muitos momentos ruins, mas esse é o pior.

Das outras vezes sempre havia uma expectativa de se recuperar rápido, mas agora não estou esperando essa recuperação em curto prazo”, disse.
O empresário acredita que é preciso resolver primeiro a grave crise política que afeta o Brasil e recuperar a credibilidade.

“A crise de credibilidade no país está muito séria e é preciso superar isso para mudar a atual situação”, avaliou.
Conforme a Associação Industrial do Piauí (AIP), a situação na indústria está sendo mais dramática para os setores da construção civil e cerâmicas.

Segundo o vice-presidente Gilberto Pedrosa, os empresários estão muito preocupados e a demissão tem sido a última atitude.
“Nós ainda não temos um levantamento exato dessas demissões.

Mas são trabalhadores que custaram alto para as empresas porque passaram por treinamentos. Além disso tudo, tem ainda a relação pessoal que vai se estabelecendo ao longo do tempo.

É uma decisão muito difícil. A indústria só demite em último caso”, falou.

NúmerosDe acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), órgão ligado ao Ministério do Trabalho e Emprego, o número de demissões no Piauí entre março de 2015 e fevereiro de 2016 foi superior ao de admissões. Segundo os dados, o estado teve 115.

477 contratações no período, enquanto 122. 668 trabalhadores foram desligados das empresas onde trabalhavam.

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