Para homenagear mulheres que enfrentam algum tipo de preconceito sofrido pelos filhos, o Clube Mãe Coruja, criado na cidade de Feira de Santana, a 100 km de Salvador, promove uma exposição audiovisual, que pretende aumentar a autoestima das mães e de toda a família, além de propor uma reflexão sobre a intolerância às diferenças. [Assista ao vídeo acima e conheça algumas histórias].
O tema do projeto é “Maternidade Sem Preconceito”.

As participantes contaram histórias de vida em um documentário e posaram para as lentes da fotógrafa Greyce Coli, juntamente com os filhos. Depois, essas mães recebem de presente um álbum com os registros.

[No domingo, 8, Dia das Mães, o G1 publica uma matéria especial contando como o grupo ‘Mãe Coruja’ se formou e cresceu com a ajuda das redes sociais].
“Nosso desejo é que todos que enfrentam esse problema se sintam representados e que as imagens ajudem a tocar o coração de quem ainda olha com estranhamento para as pessoas diferentes, tidas como ‘anormais'”, explica Larissa Queiroz, uma das dirigentes do Mãe Coruja.

A exposição teve início no último dia 2 e segue até o dia 15 de maio, no Shopping Boulevard, em Feira de Santana. Exposição audiovisual pode ser visitada no Shopping Boulevard, em Feira de Santana (Foto: Greyce Coli)
De acordo com Larissa, a ideia surgiu a partir do relato de mães de deficientes que fazem parte do grupo.

Estão sendo retratados casos de autismo, síndrome de Down, cegueira, surdez, leucemia, microcefalia, diabetes, paralisia cerebral, lábio leporino, e doenças menos conhecidas como osteogênese imperfeita e mielomeningocele. Também há filhos que ajudaram a mãe acometida por câncer de mama e vitiligo, uma mãe que defende a livre amamentação, uma grávida e outra que foi vítima de intolerância racial junto com os filhos.

“São pessoas que demonstram muita coragem de se expor, mesmo diante dos traumas que a vida impôs a cada uma. Elas não devem se esconder, a sociedade é que precisa aprender a lidar com as diferenças.

Todos temos o direito de viver com respeito”, opina Larissa.
Uma das participantes da ação é a enfermeira Auricéia Adorno Moreira Bahia, mãe de Ester de 4 anos, e de Hiram Guilherme, de 11 anos.

Hiram é surdo, não tem a cóclea formada e nem nervo auditivo nos ouvidos. O diagnóstico foi dado quando ele tinha um ano.

“Até os três anos, nós [ela e o marido] tentamos tudo para encontrar um meio de fazê-lo ouvir. Buscamos os melhores especialistas, inclusive em São Paulo.

Quando confirmaram que ele jamais escutaria, foi um choque”, lembra Auricéia. Ela conta que inicialmente tentou fugir do problema e até mesmo se distanciou do menino, por não saber lidar com a situação.

“Só depois de um ano a minha percepção mudou, encarei a realidade. Era meu filho e se eu não o ajudasse, quem o ajudaria?”.

Hiram é surdo e se comunica com a família através de Libras (Foto: Greyce Coli)
Não somente Hiram, mas todos os familiares aprenderam a se comunicar através de Libras [Língua Brasileira de Sinais]. Na época, eles viviam em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano.

O garoto estudava e participava de todas as atividades escolares, ao próprio modo.
As dificuldades aumentaram quando chegou a fase da alfabetização.

Nesse período, a família mudou-se para Feira de Santana. Nenhum colégio particular o aceitou, por não ter intérprete de Libras.

“Foi uma época difícil, de dor e revolta. Só queria que meu filho estudasse, como tem direito”, conta Auricéia.

Atualmente, Hiram está no quinto ano, frequentando uma escola onde os professores têm contato básico com a linguagem gestual. A família paga um intérprete que o acompanha diariamente na sala de aula.

Além da vontade de ajudar outras pessoas na mesma situação, a necessidade fez com que Auricéia fundasse a ONG Mãos que Sonham, em 2014. “Percebi que, se juntasse um grupo, seria mais fácil lutar por uma causa do que eu sozinha defendendo os interesses de apenas uma pessoa”.

Lá são atendidos 17 surdos, com idade entre 2 e 23 anos, e os familiares deles. São oferecidos serviços como apoio psicológico e pedagógico, assistência social e curso de Libras.

O projeto se mantém basicamente através de doações e do voluntariado. Osteogênese imperfeita e lábio leporinoDavi Luca, de 6 anos, é o primeiro filho da educadora de creche Dionir Oliveira Medeiros Casaes.

Ele tem tem osteogênese imperfeita, malformação caracterizada pela fragilidade óssea. Ainda na barriga da mãe, Davi sofreu a primeira das 14 fraturas que já teve.

Como ainda não sabia qual o problema do bebê, Dionir teve uma gestação difícil, cheia de restrições. O diagnóstico foi dado uma semana depois que ele nasceu.

A mãe não pôde amamentá-lo e sequer tocá-lo nos primeiros dias, pois era muito frágil e poderia sofrer mais fraturas. “Tudo que eu queria era segurá-lo no colo.

Sofri demais”, destaca.
Por ser uma doença rara, a família teve dificuldades para encontrar o tratamento adequado, que só foi iniciado aos sete meses de vida.

O garoto faz um tratamento com infusão intravenosa que fortalece os ossos. A cada quatro meses, ele é internado em Salvador.

Davi Luca tem osteogênese imperfeita e já sofreu 14 fraturas (Foto: Greyce Coli)
Davi Luca tem uma irmã de dois anos, Maria Valentina. Dionir admite que teve receio de engravidar de novo, pois a doença tem origem genética, porém, o temor sucumbiu ao desejo de ter outra criança.

“Sentia que Davi precisava de uma companhia e minha intuição foi certa. Ele é apaixonado pela irmã, que veio de uma gestação calma e esbanja saúde”, ressalta.

Além de trabalhar no mesmo local em que as crianças estudam, Dionir tem a sorte de contar com a ajuda das vizinhas. “Elas são um pouco mães dos meus filhos também.

Não sei o que seria de mim se não fossem as minhas amigas”, agradece.
Davi Luca não anda, já que a doença compromete o desenvolvimento físico, entretanto não afeta a capacidade mental.

Ele é extrovertido e inteligente, diz a mãe. Essas qualidades fizeram com que Dionir perdesse o medo que tinha de expor o menino nos primeiros meses de vida.

“As pessoas olham inicialmente com piedade, preconceito, mas depois veem como ele é alegre, esperto e então desarmam. Olhares e comentários são comuns.

Já acostumei”, garante.
A autônoma Pollyanna Porto também enfrenta a indiscrição de quem estranha a aparência e a dicção de Maria Julia, de 8 anos.

Ela também é mãe de Raíssa, de 15 anos. A mais nova nasceu com lábio e palato leporino, que são o desenvolvimento incompleto do lábio e/ou do céu da boca enquanto o bebê está em formação.

Maria Julia já fez duas cirurgias e deve fazer outras quatro até completar 18 anos. (Foto: Greyce Coli)
Apesar de ter feito todos os exames necessários na gravidez, o problema só foi descoberto quando Maria Julia nasceu.

Pollyanna conta que teve um pressentimento no quinto mês de gestação. “Assisti a uma reportagem que mostrava o serviço prestado a crianças com lábio leporino no Centrinho das Obras Sociais Irmã Dulce, em Salvador.

Eu me senti tocada de um modo especial. Sinto que Deus me preparava para o que estava por vir”, conta.

Com três meses de idade, a menina passou pela primeira cirurgia, para correção do lábio. Um ano depois fez outra, no palato.

O problema compromete também a respiração e só deve ser resolvido quando Maria Julia completar 18 anos. Até lá, deve passar por mais quatro procedimentos, sendo acompanhada por especialistas como ortopedista, dentista, cirurgião plástico, fonoaudiólogo.

Pollyanna já era participante do clube Mãe Coruja, quando foi convidada para a exposição. “Fiquei emocionada, pois sei que com isso posso ajudar outras mulheres a não se esconderem, nem esconderem os seus filhos.

Existem pessoas como eu, com necessidades e problemas diferentes, mas isso não nos torna menos importantes que ninguém”, ensina.
O clube reúne mães que se encontram em momentos de oração, ações de caridade e eventos que proporcionam lazer para pais e filhos, além da troca de informações por diversas plataformas, como sites e redes sociais.

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