Estudante Nailson Almeida, de 27 anos, cursa Jornalismo na Universidade Federal de Roraima (Foto: Emily Costa/ G1 RR)
Todos os anos dezenas de índios das mais diversas regiões de Roraima deixam para trás seus familiares e comunidades em busca da realização de um sonho: obter um diploma universitário. Em lembrança ao Dia do Índio, comemorado nesta terça-feira (19), o G1 conversou com dois jovens universitários indígenas que vivem em Boa Vista.
Conforme números da Universidade Federal de Roraima (UFRR), até março deste ano, 1.

024 alunos indígenas estavam matriculados na instituição dirigida pelo reitor descendente de indíos Jefferson Fernandes. Os cursos com maior número de indígenas são Licenciatura Intercultural, Gestão Territorial, Gestão Coletiva em Saúde, Agronomia e Ciências Econômicas.

Os indígenas universitários ouvidos pelo G1 relatam que as dificuldades na cidade são muitas. A primeira delas é o dinheiro, seguido pela saudade de casa e a vontade de voltar para as comunidades após o término do curso.

Recém-formado, o macuxi Enoque Raposo, de 32 anos, escolheu deixar sua casa, na comunidade Raposa I, na Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, para estudar Secretariado Executivo na UFRR.
Ele conta que dos quatro anos do curso, levou dois para se adaptar à vida na cidade e enfrentou, sobretudo, dificuldade para aprender a lidar com dinheiro, que para ele “é muito ruim para quem não é acostumado”.

“Na comunidade vivemos de forma tranquila. Lá existem cachoeira, lagoas.

A gente está sempre em contato com os animais, caçando, pescando, tomando caxiri [bebida indígena], trabalhando na roça, está perto da família e parentes. Aqui na cidade tudo é diferente, tem que ter recurso financeiro para sobreviver.

Na comunidade não precisamos de dinheiro para comprar comida, porque temos todas essas farturas”, explica. Enoque Raposo, de 32 anos, se formou emSecretariado Executivo e voltou para a comunidade(Foto: Arquivo pessoal/Enoque Raposo)
Depois que se formou, Raposo decidiu voltar para casa onde trabalha para compartilhar com os membros da comunidade tudo aquilo que aprendeu na universidade.

Ao longo do curso, ele também fez intercâmbio para os Estados Unidos da América.
“Estamos lutando por nossa autonomia, transmitindo o conhecimento concebido durante os quatro anos de curso de Secretariado Executivo.

Está sendo muito rica essa experiência junto à comunidade”, conta.
O estudante Nailson Almeida, de 27 anos, também escolheu sair de casa para conquistar um diploma universitário.

Em 2010, ele deixou sua comunidade Wapichana Taba Lascada, no município de Cantá, determinado a estudar Jornalismo na capital.
“Decidi ser jornalista no fim do ensino fundamental e recebi todo o apoio da minha família, que me ajudou dando apoio financeiro.

Quando comecei a cursar, passei por muitas dificuldades. A Universidade dá bolsas, mas não é suficiente e temos que sair em busca de emprego”,  relembra.

Hoje, perto de terminar o curso, ele explica que nunca deixou sua comunidade por completo, apesar de morar e trabalhar na cidade. “Na verdade, eu nunca saí de lá de vez.

Sempre viajo para Taba Lascada e até penso em futuramente, quando terminar o curso, voltar para casa”, narra. UFRR tem mais de 1000 estudantes indígenasmatriculados (Foto: Victor Mattioni/Arquivo pessoal)’Conquista coletiva’, avalia antropólogoNo entendimento do antropólogo e pesquisador na área de Educação Indígena João Kleba Lisboa o crescente ingresso de indíos nas universidades é uma conquista coletiva que gera inúmeros benefícios às comunidades.

“Os indígenas querem aprender para compartilhar com suas comunidades. Então, quando ele se forma é uma conquista coletiva, é um ganho para a comunidade dele.

Quando sai de casa, recebe ajuda de muitos familiares e depois que se forma quer ou voltar para a comunidade ou ajudar outros indígenas que venham a precisar de apoio na cidade”, opina.
Para ele, as principais dificuldades enfrentadas pelos índios que optam por realizar o sonho de ter um diploma universitário são a questão financeira, o choque cultural e o preconceito.

“O ensino das universidades é bastante diferente daquilo que o indígena aprende em casa, com a família. Então há um choque cultural.

Além disso, quando o indígena vem para a cidade precisa aprender a lidar com dinheiro e enfrentar o preconceito que ainda é muito comum”, explica.
O pesquisador acredita ainda que apesar dessas dificuldades, deve crescer ainda mais nos próximos anos o número de indígenas nas universidades.

“As universidades de todo o país estão se preparando para receber um número cada vez maior de indígenas interessados em adquirir conhecimentos. Para isso, há um investimento crescente em políticas de acesso e de permanência específica para esses estudantes”, encerra.

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