Com apoio de amigos e familiares, Fabíola criou o Grupo de Apoio aos Pais na Saudade (GAPS), em 2007 (Foto: Arquivo Pessoal)
“A saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. A dor da saudade esboçada na obra “Pedaço de Mim”, de Chico Buarque, já foi experimentada pela assistente executiva e escritora, Fabíola Galvão, 56.

Há 12 anos, ela perdeu o filho primogênito, vítima de um acidente de trânsito. Com o apoio da família e a necessidade de se dedicar ao caçula, Fabíola substituiu o “vazio” pela esperança e hoje auxilia mães e pais que passam pela mesma experiência.

“Muda a ótica com a qual enxergamos a vida. Uma grande transformação”, afirma.

Bruno tinha 15 anos quando a condução escolar que o levava para a escola caiu em um barranco, no dia 1 de setembro de 2003. “Bruno ficou 14 dias em coma, no Hospital João Lúcio, e foram os piores dias da minha vida.

O motorista da condução escolar dormiu ao volante e o ônibus caiu num abismo no Puraquequara. Eram 6h30 da manhã, fazia um dia lindo de sol, mas meu sol foi embora naquele  acidente”, lembrou.

A dor e a saudade consumiram Fabíola nos meses seguintes a morte de Bruno. Contudo, ela ainda precisava cuidar do filho caçula, Lucas, que na época tinha 11 anos.

“Não podia deixar meu menino crescer com duas perdas: a do irmão e da mãe. Por ele resolvi sair do meu quarto escuro e voltar a viver”, contou.

Assistente Executiva e Escritora, Fabíola Galvão aolado do filho Bruno, vítima de vítima do trânsitoem 2003 (Foto: Arquivo Pessoal)
Superar a dor da perda exigia muito mais que força de vontade, conta a escritora. Fabíola contou com o apoio de familiares e amigos para não desistir de seguir em frente.

“Tive apoio de Deus, da família, dos amigos e meu diretor na multinacional onde trabalhava na época. Foi mais que um amigo, foi um irmão que compreendeu que eu precisava de tempo para me refazer e me dedicar ao Lucas nos primeiros meses do luto”.

Após o trágico acidente, a vida de Fabíola tomou novo rumo. O filho caçula e a literatura confortaram a mãe no período do luto.

Um ano e 4 meses após a morte de Bruno, ela publicou o primeiro livro, “As Baquetas”, em homenagem ao filho.
“Um número muito grande de mães e pais, que como eu, estavam enlutados pela morte precoce de filhos, passaram a me procurar e a me ver como uma referência de ‘Mãe Coragem’ pela forma como administrei e encarei a presença da morte em minha vida”, afirmou.

Com apoio de amigos, Fabíola teve a idéia de dar suporte aos pais que tiveram a experiência de perder um filho. Ela lembra que logo no início, as duas amigas, Cleonice Carvalheira e Vera Penalber, abraçaram a idéia e em 7 de outubro de 2007 foi fundado o Grupo de Apoio aos Pais na Saudade (GAPS).

Hoje, ela continua à frente do grupo que como ela mesma define, trata-se de “uma grande família onde transformamos dor em amor”. A dedicação ao filho caçula, a criação do grupo e aliteratura foram importantes para que Fabíolaretomasse a vida (Foto: Arquivo Pessoal)
“Não temos identidade jurídica, não somos uma Instituição/ONG/Fundação como muitos pensam.

Somos apenas um Grupo de Apoio que realiza um trabalho de formiguinha, mas que aos olhos de Deus provavelmente deve ter um grande valor. A morte do Bruno estava nos planos de Deus para que o GAPS viesse a existir.

Eu tinha que passar por aquela experiência para poder descobrir minha grande missão. .

. aliás, nossa grande missão.

Minhas e dos membros que compõem a coordenação do GAPS”, observou a mãe. Quase 13 anos após a morte do primeiro filho, Fabíola observa que teve a vida transformada.

“Mudam os valores. Mudam os conceitos.

Mudam os sabores. Muda a ótica com a qual enxergamos a vida.

Passamos por uma grande transformação íntima. É humanamente impossível passar por esta experiência e não evoluir”, analisou.

Fabíola revela que vive, dia após dia, recarregando as forças na fé para conseguir resistir a saudade do filho. “Costumo afirmar que o insuperável não se supera.

Uma mãe jamais enterra um filho. Vou me consolando a cada dia um pouquinho mais com a ausência do meu Bruno”, afirmou.

Sobre o GAPSQuase 2 mil pessoas, unidas pela dor da perda, passaram pelo Gaps, nestes quase 9 anos de existência do grupo. “Elas chegam desmoronadas, pedindo colo, apoio.

Com o tempo se refazem, se fortalecem e se vão. Nisso, outras chegam.

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é como se fôssemos uma grande estação de trem. .

. enquanto uns desembarcam fortalecidos, outros chegam buscando o apoio que certamente receberá de muitas mãos amigas”, disse Fabíola.

Além das realizadas reuniões mensais, os membros dos grupos visitam residências quando acionados. “A cada reunião acontece a doação de alimentos não perecíveis com o objetivo de montarmos uma cesta básica para ajudarmos uma família carente na Zona Leste”, disse.

Em nove anos de existencia, quase 2 mil pessoas passaram pelo GAPS (Foto: Arquivo Pessoal)Também são realizadas parcerias com a Fazenda Esperança a convite do Dom Mario Pasqualotto e com o Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM), em campanhas pela ‘Paz no trânsito’. As reuniões mensais são gratuitas e todos podem participar.

Elas ocorrem no Parque do Idoso do Vieiralves, às 17h na sala Papoula, no último domingo do mês.  Muito embora o objetivo principal do grupo seja apoiar mães e pais que perdem os filhos, o encontro é aberto também a filhos que perdem pais, pessoas que perdem o cônjuge ou outros familiares.

“No grupo lidamos com o mais duro sentimento do universo. Dor da qual todos fogem e batem na madeira quando se fala em morte.

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principalmente de filhos”, disse. Fabíola observou que a união de pessoas que comungam da mesma experiência auxilia na superação da dor.

“Nada como receber um abraço de alguém que já passou pela mesma experiência. É reconfortante saber que não estão sozinhos, que estamos todos no mesmo barco chamado saudade”, afirmou.

Muito mais que o compartilhamento de vivência ou o conforto mútuo, nas reuniões são plantadas as sementes da esperança, para que as mães consigam continuar a caminhada da vida. “A minha mensagem às mães em seu dia maior é para que não se tornem desistentes.

Para que não percam sua essência. Pelo amor que sente pelo seu filho (a) que partiu e pelos demais que estão a seu lado e principalmente, por você: Não desista!  Você não nasceu para o fracasso e sim para muitas vitórias”, finalizou.

 Produção LiteráriaAlém do livro “As Baquetas”, de dezembro de 2004, em que Fabíola compartilha a dor da perda com pitadas generosas de otimismo e fé em Deus e na Vida, a escritora lançou também “Pétalas de Luz” em Maio de 2010. “Nele falo sobre 10 mulheres importantes na minha vida a quem homenageei dando o nome de ‘Pétalas de Luz’.

Falo como elas me encontraram e como hoje me ajudam a conduzir o GAPS”, afirmou. Ela se concentra agora na produção da terceira obra, que ainda não tem previsão para lançamento e deve se chamar “Pontes que atravessei”.

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