Amor materno é algo que não se define, não há como estabelecer dimensões para esse sentimento. Uma mãe é capaz de tudo, inclusive abrir mão de si mesma para cuidar dos seus filhos, principalmente se alguma coisa ameaça a vida deles.
Foi o que fizeram Edirlete, Ana Lúcia e Maria Josefa.

Três mães entrevistadas pelo G1 que têm em comum a luta para conseguir livrar os filhos do vício das drogas. Neste Dia das Mães, elas mostram o tamanho da força do amor materno.

Mãe e filho contam como conseguiram superar, juntos, o vício das drogas (Foto: Luis Vitor Melo/G1)
Ana Lúcia era cozinheira de uma casa de acolhimento e assistência social infantil em Maceió, no bairro de Bebedouro, quando conheceu Francisco José da Silva. Hoje com 32 anos, ele tinha apenas 10 quando foi deixado na casa de acolhimento com o irmão mais velho.

“Acompanhei toda a adolescência do Francisco, ele era um menino levado, fazia muitas coisas erradas, mas acabei me afeiçoando a ele. Passei a nutrir um amor muito forte por ele, ajudando em seu desenvolvimento quando precisava”.

Após sete anos, Ana decidiu levar Francisco e o irmão para morar na casa dela, assumindo o papel de mãe deles. Foi aí que os problemas começaram.

Então com 18 anos, Francisco passou a se envolver com drogas. O irmão também se envolveu com o crime e acabou assassinado.

“Foi um dos momentos mais difíceis e sofridos que passei na vida, em um curto espaço de tempo, perdi dois filhos, o meu legítimo e o irmão do Francisco, só Deus para me fazer aguentar”, lembra Ana Lúcia. Francisco se drogava cada vez mais após a morte do irmão.

“Por diversas vezes, por impulso e raiva momentânea, o expulsei de casa, foram muitas idas e vindas. Mas era mais angustiante para mim não tê-lo por perto, não saber notícias dele.

O meu amor sempre falou mais alto, e não demorava muito pra eu ficar logo aflita e trazê-lo de volta para casa”, disse Ana. “A última vez que fui resgatá-lo da rua foi chocante, o encontrei todo sujo, cabelo grande, totalmente irreconhecível jogado nas calçadas.

Foi demais para mim, atingi o meu limite de suportar vê-lo naquela situação”, relata. Esse foi o fator definitivo para fazer com que a mãe convencesse Francisco a se tratar.

Faz seis meses desde a conclusão do tratamento dele, em uma clínica localizada em Arapiraca, Agreste alagoano. Emocionado, Francisco, que hoje canta em um coral de uma igreja evangélica do seu bairro, fala da importância do amor materno para ajudar a atravessar o período difícil.

“Em todo momento, foi ela quem me apoiou, mesmo quando pensei estar sozinho. Ela, com seu amor, me acolheu e nunca desistiu de mim.

Minha mãe tem grande responsabilidade na minha recuperação, eu só sai dessa situação porque ela esteve em todos os momentos ao meu lado”, admite. A cabeleireira Edirlete Ângela dos Santos, 47, tem dois filhos, e viu o mais velho, que pediu  para não ter o nome revelado, jogar todos os sonhos fora devido ao alcoolismo.

Até aceitar ajuda, foram cinco anos de vício. A cabelereira acredita que o problema começou com a gravidez inesperada da namorada e a frustração de ver perdido o sonho de entrar na faculdade de educação física.

“A gente nunca imagina que uma situação dessas vá bater na nossa porta. O tempo passava, as oportunidades passavam e ele continuava na mesma, algo tinha que ser feito, eu sofria muito vendo ele naquela situação.

Foi quando convenci ele a procurar ajuda”, conta a mãe.
O internamento que deu início ao tratamento durou seis meses, também em uma clínica localizada em Arapiraca.

Durante esse tempo, o contato de Edirlete com o filho era feito apenas uma vez por mês, pessoalmente. Período dividido entre a criação do filho mais novo e a angústia pela incerteza da recuperação do mais velho.

Mas ela conta que nunca perdeu a fé e a esperança. “Sempre apresentava meu filho nas minhas orações, pedia que se fosse da vontade de Deus a internação do meu filho, que não houvesse então nenhum impedimento e que o tratamento fosse um sucesso”.

Os momentos de angústia passaram. Hoje, três anos depois da internação, o filho de Edirlete está reabilitado, estuda, trabalha e vive em Arapiraca.

“Ele foi um guerreiro, é um vencedor, retomou sua vida normalmente, o curso de educação física, que era seu sonho, foi retomado e está noivo. Os laços familiares e afetivos foram restaurados completamente”, comemora a mãe orgulhosa.

A situação é semelhante em toda família com algum dependente químico. Mesmo as que não têm lanços de sangue, sofrem na mesma proporção.

Ana Lúcia Santos, de 48 anos, teve dois filhos biológicos, mas o amor a fez se tornar mãe de outras duas crianças.
É essa alegria que ainda espera viver Maria Josefa, de 52 anos.

Ela tem dois filhos, e o mais velho, que não vai ter o revelado por questões de segurança, se envolveu com drogas. Ele está em tratamento para se livrar do vício em uma casa terapêutica no interior do estado.

O drama de Josefa teve início há cerca de quatro anos, quando ela descobriu que tinha um filho viciado em drogas como cocaína e álcool, além de fazer uso de maconha. De lá para cá, a mãe conta que foram muitas noites angustiantes, mal dormidas, por não saber se o veria novamente ao amanhecer.

“Seu filho sair e ficar aquela expectativa se vai vê-lo novamente era quase que uma rotina na minha vida, eu sofria bastante, com uma sensação de impotência. Quis muitas vezes me culpar, me perguntava onde foi que havia errado com ele”, conta Josefa.

Psicóloga ressalta importância do amor de mãeno tratamento de dependentes químicos(Foto: Luis Vitor Melo/G1)
Ela diz que descobriu que ele fumava maconha, mas não conseguiu impedí-lo. A situação piorou quando soube que André estava cheirando cocaína.

“Mãe nenhuma cria seu filho para a perdição, eu tinha que dar um basta naquilo. Ainda tenho na memória como eu encontrava meu filho, dói lembrar”.

“Foi um alívio muito grande quando meu filho se dispôs a se tratar, ele tinha que querer sair dessa situação também. Ele agora está em tratamento e só depende dele, tenho fé que vai dar tudo certo, e sempre estarei com meu amor ao lado dele para o que ele precisar”, diz emocionada.

Amor ajuda no tratamentoPara a psicóloga Mônika Maciel, da Comunidade Terapêutica Casa Dona Paula, muitas mães ainda sofrem mais por não saberem como ajudar os filhos quando descobrem que eles estão viciados em drogas.
“As mães chegam aqui desesperadas, mas durante o tratamento há a reconstrução familiar, social, psicológica, como também é restaurada a confiança entre os membros da família”, explica a psicóloga, ao ressaltar que a questão das drogas deve ser tratada como uma doença a ser tratada por profissionais especializados.

Mônika ressalta a importância do amor materno no tratamento. “A mãe é o maior elo na recuperação da dependência química do seu filho.

Ela torna-se referência para os filhos, porque, em sua maioria, são elas que conduzem o lar, seguram a barra sozinha. Todos esses sentimentos acabam sendo transmitidos para o filho, podendo na maioria das vezes influenciar positivamente no tratamento.

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