Mães indígenas. À direita, Ümaünâ (Foto: Ive Rylo/G1 AM)
O pássaro “azulão” que sobrevoa as aldeias da etnia Tikuna no município de Tabatinga, a 1. 108 km de Manaus, ganhou fama para além das terras do Alto Solimões nesta semana.

  Em uma grande roda, o poema indígena que fala sobre a ave foi entoado por mães Tikunas para mães e crianças não indígenas em uma escola na capital. Mais que um momento de descontração às vésperas do “Dia das Mães”, a singela canção aproximou culturas distintas e semeou a necessidade da tolerância e respeito às diferenças entre os pequenos.

Respeito este, que vem sendo defendido pela artista e artesã Tikuna, Eucilene Ponciano Pereira, 49 anos, Ümaünâ, há anos. “Acredito que tem que respeitar.

Preconceito existe mas, não serve para nós. Somos todos iguais”, defendeu.

Ümaünâ lembra que assim que chegou a Manaus, há 24 anos, a filha mais velha – hoje com 30 anos – foi agredida pelos “coleguinhas” em uma escola pública, quando descobriram que ela é indígena. “Quando ela chegou em casa, depois da agressão, chorou.

Ela me perguntou porque os outros alunos chamavam ela de índia e brigavam. E eu dizia que nós somos índios e temos que ter orgulho de ser indígena.

Dizia também para ela não revidar, se cutucassem outra vez”, disse. Quinze anos depois, Ümaünâ assiste ao caçula passar pelo mesmo drama na escola.

  “Nossas crianças agora passam pela mesma coisa. Meu filho de 14 anos estuda na mesma escola e também chamam ele de índio, [como se fosse] ruim.

Continua tudo igual”, lamentou. Mãe e filha durante encontro (Foto: Ive Rylo/G1 AM)Na tentativa de contribuir para a abolição deste preconceito social enraizado, Ümaünâ usa a cultura indígena como arma.

Junto ao grupo, ela leva a música, o artesanato e a dança Tikuna para escolas em toda a capital. “A gente mostra a nossa cultura, a nossa língua, como a gente vive.

Passamos para nossos filhos e para os outros que não conhecem. Isso é importante para que nos conheçam e nos respeitem, porque não é porque somos indígenas que valemos menos”, avaliou.

Cultura na escolaFoi na Creche Escola Vida, no bairro Aleixo, Zona Centro-Sul, que mães indígenas e não indígenas trocaram experiências e deram um passo importante em busca de transpor a barreira do preconceito. A atividade fez parte de um projeto que vem sendo realizado há um mês pela unidade.

Lá, diferentes etnias, grafismos, artesanato, culinária e modo de viver dos indígenas do Amazonas, viraram matéria de sala de aula. “É uma proposta desafiadora, todos sabem que o preconceito existe e queremos quebrar esses preconceitos.

Olhar para nosso irmãos índios de uma forma diferente, aceitá-los em nossa sociedade e tratá-los com dignidade. As mães abraçaram a ideia e as crianças puderam conviver com  esta cultura maravilhosa”, afirmou a diretora da Creche Escola Vida, Swely Imbiriba da Costa.

Os estudantes tiveram oportunidade inclusive de visitar a escola Tikuna, que fica na comunidade Wotchimaücü, no bairro Cidade de Deus, Zona Leste. “Algumas (crianças) se olharam e ficaram desconfiadas, depois elas brincaram juntas.

E puderam presenciar aquilo que as professoras já tinham falado como o alfabeto Tikuna e as pinturas indígenas. Criança em qualquer lugar é criança.

O preconceito quem coloca são os adultos”, afirmou a diretora.  Interação aprovada pelas mãesO pequeno Bernardo do Lago Barros, 3 anos, participou da visita à escola indígena.

Em casa, a mãe dele, a jornalista Emanuela Lago, 37 anos, ouviu um relato encantado do filho. “Ele chegou em casa contando que foi na escola indígena e que gostou dos instrumentos musicais.

Ele adorou o som que sai do chocalho”, afirmou. A proposta de aproximar famílias de culturas diferentes causou, no primeiro momento, certo estranhamento às mães.

“Confesso que tive certo receio assim como outras mães, mas depois que eu entendi, gostei muito. São culturas diferentes e foi bem legal vivenciar isto junto aos meus filhos.

Foi muito bom para que eles percebam que não existe só aquele mundo que eles vivem”, disse. As danças indígenas chamaram mais atenção do pequeno Lucas de Deus Rabello, 5 anos, durante visita a comunidade.

Para a mãe dele, a bióloga Cláudia Pereira de Deus, 52 anos, a oportunidade de possibilitar ao filho experiências novas foi muito positivo. “É uma experiência bem diferente, trazer a cultura indígena para próximo de nós, uma cultura que também faz parte da gente, porque somos brasileiros.

Quanto mais diversificar melhor”, analisou. Mães que participaram o evento (Foto: Ive Rylo/G1 AM)Conhecer a cultura indígena é um passo importante para que o respeito às diferenças floresça.

“Cada vez mais a gente se distancia da nossa tradição e acho importante conhecer e valorizar a nossa cultura indígena. É importante as crianças aprenderem desde cedo a história, para que a criança não vire um adulto com preconceito.

A escola faz bem este papel de integrar”, analisou a Analista de Marketing Priscila Furtado, 32 anos, mãe do Lucca Furtado, 3 anos. Já a bióloga Cristina Bührnheim, 45 anos, mãe da Ava Kinupp, 4 anos, observa que além do respeito as diferenças, a experiência também chamam atenção para a importância de preservar a natureza.

 “Esse contato com a cultura indígena, é muito válida, faz valorizar os elementos da natureza. A professora enfatiza que é muito importante a criança perceber o ar, a água, a terá, interagir com a natureza de forma harmônica.

A Escola Vida trabalha muito a interação. A interação com indígenas faz, não só valorizar a cultura, mas respeitar o indígena e respeitar o próximo”, disse.

Grupo de mães (Foto: Ive Rylo/G1 AM)
.