Turistas percorrem corredor em mina desativada em Onça de Pitangui (Foto: Nicodemos Rosa/Arquivo pessoal)
Galerias subterrâneas construídas há mais de 200 anos por bandeirantes em busca de ouro viraram atração turística em Onça do Pitangui, no Centro-Oeste de Minas. Um grupo de amigos usa a internet para organizar passeios por túneis que ficam em diferentes pontos da cidade. Entre os integrantes, um geólogo explica sobre as formações rochosas encontradas nos caminhos que marcaram o início do desenvolvimento de povoações na região.

A ideia de criar a expedição partiu do pesquisador Vandeir Santos, que conhece muito do que há debaixo da terra na região. “Onça do Pitangui foi formada por bandeirantes e garimpeiros que buscavam ouro nessa região no início do século 18, praticamente ao mesmo tempo que ocorria o mesmo em Pitangui”, contou.

Ele está acostumado a explorar galerias como essas. Começou em 2009, visitando algumas que resistem à ação do tempo em Pitangui.

Já no município de Onça de Pitangui, fez a primeira exploração em 2010. A expedição mais recente às galerias ocorreu no dia 24 de abril.

Começou pela manhã, na Mina da Caixa D’Água, que recebe esse nome porque fica perto de um reservatório.
O grupo seguiu até uma propriedade particular onde fica a entrada do local onde mineradores alemães extraíam ouro nas primeiras décadas do século 20.

Hoje o terreno pertence ao arquiteto Rodrigo Vilaça, que abriu as porteiras para os visitantes e acompanhou os procedimentos.
Antes de entrar pelo pequeno buraco que dá acesso ao primeiro corredor subterrâneo, o grupo fez uma pausa para revisar os equipamentos de segurança.

Vandeir Santos reforçou algumas dicas que já havia dado ao grupo, como usar calçados fechados, chapéu, blusa e calça compridas e, se possível, carrapaticida.
“Essas galerias sempre têm morcegos e aranhas.

O Cláudio Faria, que também as frequenta há mais tempo, já viu uma cascavel em uma das minas de Onça. Aviso ao pessoal que todos devem ficar alertas aos predadores, evitar correr e não esbarrar nas paredes.

Já os carrapatos costumam estar nas matas de acesso às fendas”. Paulo Bastos, um dos aventureiros, posa para foto em salão de mina (Foto: Vandeir Santos/Arquivo pessoal)
No primeiro local visitado existem duas minas com características bastante parecidas.

“As paredes têm traços bem específicos. São corredores amplos e bem confortáveis”.

O risco de desabamento, diz o pesquisador, é muito pequeno. “Dentro não tem perigo.

O terreno é bem estável. Existem canais escavados há séculos e que estão do mesmo jeito até hoje.

Só se ocorresse um terremoto, o que é bem difícil no Brasil, é que correríamos algum perigo”. Isaías Leite escalou por fenda e alcançou galeriassuperiores (Foto: Vandeir Santos/Arquivo pessoal)
Em um dos pavimentos, o supervisor de limpeza Isaías Dias Leite Machado, um dos visitantes, decidiu escalar uma galeria vertical e entrar em outra, horizontal, que ainda não havia sido explorada por ninguém do grupo.

“Foi uma experiência bem diferente de tudo o que eu já tinha feito. Dá certo medo, mas isso é que é bom.

Pretendo participar mais vezes”.
Quando já não havia mais o que percorrer nesse conjunto de corredores, o grupo seguiu de carro até outro ponto, localizado a um 1,3 quilômetro ao norte do Centro de Onça de Pitangui.

No local, ficam as terras de José de Abreu, um morador de Pitangui que também autorizou a entrada do grupo, que seguiu o curso do Rêgo de Água Limpa, recentemente atingido por rejeitos de mineração.
Ao final, muitos visitantes que ainda não conheciam as galerias ficaram encantados.

É o caso da auditora trabalhista Patrícia Ribeiro. “É entretenimento para quem gosta e uma oportunidade para quem ainda não conhece.

Cresci brincando nos quintais em Onça de Pitangui, mas não sabia sobre essas minas”, disse ela. Ângela Luciano, Cláudia Pereira e Patrícia Ribeiro visitam galerias (Foto: Vandeir Santos/Arquivo pessoal)Existem outrasSegundo Vandeir Santos, existem outras galerias subterrâneas em Onça de Pitangui.

Uma delas foi descoberta recentemente, durante uma obra. Essa teve a entrada obstruída por terra.

O fotógrafo Nicodemos Rosa é um explorador de galerias de primeira viagem. Ele conta que deixou o medo de lado e isso valeu a pena.

“Ir às entranhas da terra não era algo que me atraía. Mas, quando já estava dentro dos túneis, me fiz um monte de perguntas.

Como eram as disposições físicas e mentais das pessoas que trabalharam ali? Isso foi o que me atormentou durante todo o tempo”, confidenciou. O fotógrafo Nicodemos Rosa (C) visitou galerias pelaprimeira vez (Foto: Vandeir Santos/Arquivo pessoal)
Dentro das galerias subterrâneas, o tempo parece passar devagar.

As paredes possuem marcas feitas por picaretas há pelo menos dois séculos. Mas, os cortes à mostra espantam os olhares dos visitantes, pois parecem ter sido feitos em tempo bem mais recentes.

No meio da equipe de visitantes havia um geólogo, profissional que estuda a formação das camadas do solo. William Campos trabalhou por muito tempo em uma mineradora na região.

“Fui ao passeio porque tenho interesse em ver de perto as condições desses locais onde ocorria extração de ouro. Também quis comparecer para fornecer informações técnicas aos participantes durante o percurso”, detalhou.

Para o especialista, o potencial de produção de ouro da região é grande. “A parte por onde andamos não tem ouro.

Mas, abaixo dela existem rochas onde com certeza há. Já existem, inclusive, algumas empresas de olho nisso, pois alguns locais das galerias possuem marcações recentes, feitas com sprays, que indicam locais onde alguém esteve para analisar o solo.

Essas estruturas também têm enorme potencial turístico, como o que é trabalhado em cidades como Ouro Preto e Diamantina”, explicou.
O potencial turístico das galerias é a bandeira defendida por Vandeir Santos, que guiou o grupo nessa expedição e já planeja a próxima.

“O importante é estarmos sempre alertas e procurando buscar a preservação dos valores históricos”, finalizou. Particpiantes de roteiro a minas de ouro em frente à entrada de uma delas (Foto: Vandeir Santos/Arquivo pessoal)
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