Com os olhos vendados, pele pintada e trajando adereços confeccionados a partir de penas, índias da tribo Tikuna participam do ritual da “Moça Nova”, que representa a passagem para a vida adulta. Em Manaus, a festa resiste ao convívio do índio com a sociedade civil e marca uma importante fase da vida da mulher indígena. Durante o ritual, elas têm os cabelos arrancados como forma de simbolizar a nova vida.

A tradição diz que, após a primeira mestruação, a índia Tikuna deve se manter reclusa do restante da tribo. O afastamento marca o início de uma temporada de três meses onde a menina deve aprender uma série de atividades essenciais para a inserção na vida adulta.

No dia do ritual intimamente ligado à mulher indígena, a festa se inicia ao som de tambores e danças, que são marcadas pela sequência de movimentos repetitivos acompanhados de um sapateado forte. “O ritual dos tambores significa que estamos aclamando o povo para mais uma confraternização onde haverá comidas, bebidas, tudo da natureza, não deixando de faltar a bebida típica, o Pajuaru e o Caiçuma, que todos os participantes devem beber”, contou o vice-cacique dos Tikuna, Delmir Santana.

De joelhos, índias têm parte dos cabelos arrancados durante o ritual (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)
A parte mais sensível do ritual acontece com a entrada das “moças novas”, que estão passando pelo período da puberdade, época considerada perigosa para os Tikuna, onde as índias poderão ser influenciadas por maus espíritos.
Os olhos estão vendados, a pele marcada com tinta preta e envolta com penas.

Os cabelos estão amarrados e os pés no chão. A dança é retomada, e dessa vez com uma cantoria realizada em língua Tikuna, representando a Mãe-Natureza, que aconselha as “moças novas” sobre os perigos da vida adulta.

Ritual celebra passagem da índia para a vida adulta (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)Após a dança, as meninas são colocadas de joelho, onde parte de seus cabelos são arrancados, simbolizando a nova vida. Essa fase para os Tikuna representada a entrada à vida adulta, de responsabilidades e deveres com a tribo.

“Ela sai de uma moça jovem e preparada para a sociedade como uma mulher, pronta para servir a sociedade, isso que é importante para a nossa cultura”, contou. Mascarados, índios representam espíritos do mal que podem influenciar as jovens da tribo (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)
Vivendo em Manaus há 20 anos em uma comunidade composta por 20 famílias na Zona Leste de Manaus, os Tikuna afirmam que preservar a cultura é difícil dentro da cidade, e que o preconceito ainda é expressivo na capital, que abriga cerca de 30 mil indígenas de diversas etnias.

Nós vivenciamos vários preconceitosa”
cacique Peres
“Esse rito vem da nossa aldeia, da nossa comunidade, estamos implantando na cidade, para que esse futuro jovem não deixe morrer essa cultura. Esse ritual começou há muito tempo com os nossos antepassados, e em Manaus é a nossa primeira”, afirmou Santana.

Mesmo após abandonar o estilo de vida na floresta, os índios Tikuna ainda buscam manter as tradições. Segundo o cacique Agnilson Peres, o ritual da Moça Nova é a prova do resgate da cultura dos antepassados.

“Nós vivenciamos vários preconceitos, várias desvalorizações da cultura em relação ao preconceito. Então hoje nós estamos trabalhando essa atividade de resgate do ritual da Moça Nova para ter essa comunicação com a sociedade civil e ver como nós organizamos nossa grande festa”, afirmou.

Índios Tikuna afirmam vontade de manter tradições em meio a cidade (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)
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