Valério Neves Campos (primeiro de amarelo) e Paulo Cesar Roxo Ramos foram presos na 28ª fase da Lava Jato (Foto: Dirceu Souza / RPC)
Os dois presos temporários da 28ª fase da Operação Lava Jato, Paulo Cesar Roxo Ramos, assessor do ex-senador Gim Argello (PTB-DF), e o ex-secretário-geral da Câmara Legislativa do Distrito Federal Valério Neves Campos, disseram à Polícia Federal que são inocentes de quaisquer crimes apontados contra eles. Os dois prestaram depoimentos na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, onde estão detidos.
O advogado Adercílio Sebastião Peixoto, que representa Valério Campos, disse que cliente respondeu a todas as perguntas da Polícia Federal e se declarou inocente.

Ele, no entanto, não quis dar detalhes sobre a oitiva. “O depoimento foi longo, foi esclarecedor”, limitou-se a dizer.

O advogado de Valério Neves Campos, Daniel Gerber, também afirmou que o cliente não sabia de nenhuma irregularidade. Segundo ele, Neves disse à Polícia Federal que trabalhou para angariar dinheiro para a campanha de Argello ao Senado, mas que não tinha conhecimento de que os valores pudessem ter alguma origem ilícita.

Os dois foram presos na terça (12) e, desde então, estão detidos na carceragem da corporação. A prisão deles é temporária, com prazo de cinco dias, podendo ser prorroogada pelo mesmo período ou convertida em preventiva, que é por tempo indeterminado, caso a Justiça considere necessário.

Também foi detido nesta nova etapa da Lava Jato o ex-senador Gim Argello, porém, a prisão dele é preventiva. Segundo a PF, o depoimento dele deve ocorrer em dez dias.

‘Vitória de Pirro’A atual fase da operação foi batizada de “Vitória de Pirro” e investiga a cobrança de propinas para evitar convocação de empreiteiros em comissões parlamentares de inquérito sobre a Petrobras em 2014 e 2015. Gim, à época, era membro da CPI no Senado e vice-presidente da CPMI, da Câmara e do Senado.

Ele foi senador entre 2007 e 2015. O nome da operação significa uma vitória obtida a alto custo.

O nome de Gim Argello pareceu nas delações do senador Delcídio do Amaral (sem partido-MS) e do dono da UTC, Ricardo Pessoa. O Ministério Público Federal (MPF) diz que há evidências de que o ex-senador pediu R$ 5 milhões em propina para a empreiteira UTC Engenharia e R$ 350 mil para a OAS.

As duas empresas são investigadas na Lava Jato.
Os recursos foram enviados a partidos indicados por Gim – DEM, PR, PMN e PRTB – na forma de doações de campanha.

O procurador Carlos Lima afirmou que o esquema de travestir propinas em forma de doações aparentemente legais “já existe e há muito tempo”.
Os investigadores dizem que não há indícios de que os partidos beneficiados sabiam das negociações e da origem ilícita dos recursos.

As siglas, juntamente com o PTB, formaram em 2014 a coligação “União e Força”, pela qual Gim Argello era candidato a novo mandato de senador pelo DF.
Já Paulo Cesar Roxo Ramos e Valério Neves Campos tinham papel fundamental no esquema, segundo o MPF.

“Ambos atuavam como operadores de Gim Argello na negociação e no recebimento de propinas dissimuladas que foram pagas pela UTC. No caso, os representantes deslocaram-se, por diversas vezes, de Brasília para São Paulo, para fazer reuniões na sede da UTC com o fim de apontar a forma pela qual a propina destinada a Gim Argello deveria ser paga”, disseram os procuradores em documento que fundamentou a 28ª fase.

O juiz Sérgio Moro determinou o bloqueio de R$ 5,35 milhões do ex-senador Argello e do mesmo valor para o assessor Paulo Cesar Roxo Ramos. Projeto: alcoólico’Em despacho, o juiz Sérgio Moro autorizou, a pedido do MPF, a quebra do sigilo de dados telefônicos de Gim Argello e de Paulo Roxo.

“A quebra do sigilo de dados telefônicos revelou que Ricardo Ribeiro Pessoa contatou, no dia 28/05/2014, por volta das 15:13, o então Senador Gim Argello por telefone. Trata-se da mesma data de instalação da aludida Comissão Parlamentar Mista de Inquérito”, argumentou Moro.

O juiz também afirmou que foi identificada uma anotação em uma agenda apreendida com Ricardo Pessoa de um encontro com Gim na casa do ex-senador.
Mensagens trocadas entre executivos da empreiteira OAS, sobre o ex-senador Gim Argello (PTB), mostram apelidos e códigos que eram usados para tratar da propina ao político.

Em uma das mensagens, de maio de 2015, Léo Pinheiro diz que precisa atender uma doação de R$ 350 mil para a Paróquia São Pedro, em Taguatinga, reduto eleitoral do ex-senador. O empresário diz que a mensagem faz parte do “projeto: alcoólico”, uma referência a Gim, segundo os investigadores.

Esse custo foi suportado pelos contratos da OAS junto à Refinaria do Nordeste Abreu e Lima, da Petrobras, afirmou o juiz Sérgio Moro. Outro ladoPor meio de nota, a família do ex-senador Gim Argello manifestou indignação quanto à prisão dele: “Gim Argello, pessoa pública, vive em Brasília há mais de 50 anos, onde tem residência fixa e conhecida.

Ao longo de toda a investigação, sempre colaborou com a Polícia Federal sem nunca se opor a prestar esclarecimentos ou informações. Sua prisão  baseada apenas em denúncias não confirmadas  é injustificada sob qualquer ótica”.

Em nota, a OAS informou que “estão sendo prestados todos os esclarecimentos solicitados e dado acesso às informações e documentos requeridos pela Polícia Federal, em sua sede em São Paulo, na manhã desta terça-feira. A empresa reforça que está à inteira disposição das autoridades e vai continuar colaborando no que for necessário para as investigações”.

Procurada pelo G1, a UTC Engenharia afirmou que “a empresa não comenta investigações em andamento”.
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