Na cidade síria de Aleppo devastada pela guerra, o médico Mohammad Wassim Maaz abraçou enquanto pôde a missão de salvar as crianças, mas a morte resolveu cruzar seu caminho.Médico Mohammad Wassim Maaz morreu em ataque na quarta-feira (Foto: Omar Etaki/IDA/FP)
Barba bem aparada, olhos penetrantes e dono de um grande senso de humor,  Maaz “era considerado o melhor pediatra e, certamente, um dos últimos a permanecer no inferno de Aleppo”, afirmaram seus colegas à AFP.
Apenas seus olhos revelavam o imenso cansaço de alguém que, dia após dia, sem trégua, tentava salvar as crianças doentes e feridas pelos bombardeios do regime em áreas controladas pelos rebeldes em Aleppo, a segunda maior cidade da Síria.

Na quarta-feira, sua vida foi levada, bem como a de um dentista, de três enfermeiros e 22 outros civis em um ataque aéreo contra o hospital al-Quds nesta cidade dividida desde julho 2012 entre rebeldes e o governo.
Maaz tornou-se uma nova vítima desta guerra que matou mais de 270 mil pessoas desde 2011.

Cerca de 13.500 crianças foram mortas nos combates, de acordo com um balanço apresentado em fevereiro pelo Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH).

Amigo destacou que ele era ‘o pediatra mais qualificado da cidade’ (Foto: Omar Etaki/IDA/FP)
Em Aleppo, Dr. Maaz salvou dezenas de tal destino.

Para o seu colega o dr. Hatem, diretor de um hospital infantil em Aleppo, ele era “o pediatra mais qualificado da cidade e o mais formidável do hospital”.

‘Humano e corajoso'”Ele era amigável e muitas vezes brincava com a equipe. Ele era humano e corajoso”, escreveu em uma carta publicada na quinta-feira pela campanha “Syria campaign”.

Originário de Aleppo, o dr. Maaz trabalhava de dia no hospital infantil e se ocupava das emergências durante a noite no hospital al-Quds.

Sua família está na Turquia e ele deveria visitá-la antes da morte encontrá-lo.
Quando os bombardeios se intensificaram vários dias antes do ataque fatal, ele e o resto da equipe levaram as incubadoras para o piso térreo para tentar protegê-las.

Para Mirella Hodeib, porta-voz em Beirute da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que apoiava financeiramente o hospital al-Quds, dr. Maaz “era um pediatra muito dedicado e escolheu arriscar sua vida para ajudar o povo de Aleppo”, uma cidade devastada pela destruição, bombas e cortes de água e energia.

“Al-Quds era o principal hospital pediátrico e ele era um pediatra importante. Ele trabalhava neste estabelecimento há anos.

Sua morte é uma perda terrível”, disse à AFP.
Contatada por telefone em Kilis (Turquia), Miskilda Zancada, chefe de missão da MSF na Síria, descreveu sua morte como “uma tragédia”.

“Restam apenas 70 ou 80 médicos para 250 mil habitantes na parte não-governamental (de Aleppo), porque 95% deles deixaram a cidade ou foram mortos”, diz ela.
Em uma carta publicada pela organização Crisis Action, médicos de Aleppo lançaram um grito de desespero.

“Em breve, não haverá mais profissionais da saúde em Aleppo. A quem os civis vão recorrer quando precisarem?”, questionaram.

Segundo eles, ao menos 730 médicos foram mortos na Síria em cinco anos.
“Nossos hospitais estão perto do colapso” em razão da intensificação dos ataques que têm feito “quase quatro mortos e mais de cinquenta feridos todas as horas”, acrescentaram os médicos.

“As mulheres, crianças e idosos de Aleppo pagam o preço do fracasso dos Estados Unidos e da Rússia” de fazer manter a trégua, consideraram.
Unicef e a Organização Mundial da Saúde se disseram “revoltados pela frequência dos ataques contra pessoas da área da saúde e estruturas de saúde na Síria”.

A vida cotidiana se torna cada vez mais difícil para o povo de Aleppo. Mas “aqueles que permaneceram são os mais vulneráveis, porque não têm os meios financeiros para sair”, ressaltou Zancada.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, descreveu como “imperdoável” o ataque contra o hospital al-Quds, pedindo “justiça para estes crimes”.
Os bombardeios a hospitais são estritamente proibidos pelo Direito Internacional Humanitário.

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Fonte: G1