O sírio Abdo Jarour com a brasileira Valdivia Oliveira (Foto: Abdulbaset Jarour/Arquivo pessoal)
Separado da família há cinco anos por causa da guerra, o sírio Abdulbaset Jarour escreveu uma emotiva mensagem de Dia das Mães em seu perfil do Facebook. A homenagem foi dedicada a duas mulheres: sua mãe biológica, que mora na Síria, e a professora brasileira Valdivia Oliveira, que o acolheu no Brasil e a quem ele considera sua “segunda mãe”.
Abdo, como é conhecido, é natural da cidade de Aleppo, onde acontecem alguns dos mais ferozes combates da guerra civil síria.

Ele saiu de lá há cinco anos, para o alistamento obrigatório no exército, e desde então não viu mais sua mãe e os seis irmãos. O pai teve um infarto e morreu nesse período.

Não tenho filhos, então Deus me mandou um lá das Arábias”
Valdivia Oliveira
O sírio de 26 anos chegou ao Brasil em 2014. Com dificuldade para trabalhar por causa de problemas de saúde adquiridos na guerra, acabou sendo “adotado” por Valdivia, de 54 anos, que o conheceu por meio de um amigo em comum.

A brasileira o convidou para morar em sua casa, colocou-o como dependente no posto de saúde do bairro onde mora e conseguiu que ele operasse o joelho, machucado por um bombardeio. Uma amizade forte surgiu entre os dois, e ela assumiu o papel de cuidar do jovem.

“Vou lá cobri-lo na hora de dormir, me preocupo se ele comeu direito, dou conselhos. Acho que sou até superprotetora demais”, diz Valdivia.

“Como não tenho filhos, Deus mandou um lá das Arábias”, brinca.O sírio Abdo Jarour com a brasileira Valdivia Oliveira; frase (Foto: Abdulbaset Jarour/Arquivo pessoal)
A professora não poupa elogios ao “filho sírio”.

“Ele é muito inteligente, sensível. É uma pessoa que enxerga longe.

E tem muito carisma, não tem quem não se encante com ele”, derrete-se.
Abdo valoriza todo esse cuidado: “Ela me dá carinho, atenção, força.

Tive muita sorte. Foi Deus que me deixou conhecê-la.

Ela me ama muito, e eu também a amo”, diz.Saudade da mãeA família de Abdo vivia com conforto antes do começo da guerra.

Os pais eram comerciantes e ele também tinha uma loja de produtos eletrônicos. Depois do início do conflito, quatro irmãs dele migraram para outros países.

A caçula de 13 anos e o mais velho, de 35, ficaram com os pais em Aleppo.
Abdo se preocupa muito com eles.

Quando a internet de lá não cai por causa de alguma explosão, eles conseguem se comunicar. “Lá é guerra 24 horas.

Nossa casa e nossas lojas foram bombardeadas, eles dormem cada dia em um lugar, não têm o que comer. Perdi um amigo seis dias atrás.

Meu primo está ferido. Vou acabar perdendo minha família se eles não saírem de lá.

”Abdo Jarour com a mãe, ⁠⁠⁠Khadija, que ainda está em Aleppo, na Síria; frase (Foto: Abdulbaset Jarour/Arquivo pessoal)
O sírio diz que já tentou de várias maneiras tirar a família da zona de guerra, mas a operação é cara e até agora ele não conseguiu. Para juntar algum dinheiro, ele já trabalhou em loja de celular, deu aula de árabe, cantou em festas e deu palestras.

Atualmente está sem trabalhar por causa da cirurgia que fez no joelho. Valdivia criou uma campanha na internet para ajudá-lo a colocar a família a salvo.

Entre as lembranças que tem da mãe, Abdo ressalta a saudade “do carinho dela, da comida, das palavras que davam força”. “Ela me ensinava muita coisa”, diz.

Levar para casaO sírio Abdo Jarour com a brasileira Valdivia Oliveira; ‘segunda mãe’ (Foto: Abdulbaset Jarour/Arquivo pessoal)
Quando convidou Abdo para morar em sua casa, Valdivia teve que lidar com o preconceito e a preocupação de conhecidos. “As pessoas diziam: ‘Mas você vai colocar uma pessoa estranha na sua casa?’ ‘E se ele tem uma bomba?’ ‘E se te roubar?’ É mais fácil eu roubá-lo porque ele tem roupas boas, tênis de marca”, diverte-se ela.

Valdivia decidiu fazer o convite quando percebeu que o sírio deixou de sair com ela e os amigos por falta de dinheiro. Um ano depois, não se arrependeu: diz que tem sido uma experiência enriquecedora para ela.

“Passei a acompanhar a guerra mais de perto. Uma coisa é você ver na TV.

Outra é vivenciar junto. Ver a dor da pessoa, a preocupação.

Não tem como passar por experiência dessa e continuar mesma pessoa. Aprendo muito com ele.


O Dia das Mães é comemorado em março na Síria, mas Abdo decidiu que vai entregar um presente para Valdivia neste domingo. Os dois ainda não sabem o que vão fazer na data, mas já sabem que terão a companhia um do outro.

“Vai ser um dia muito especial para mim”, diz Abdo.Visão geral mostra região de Aleppo destruída por conta da guerra; mãe de Abdo vive na cidade(Foto: Hosam Katan / Arquivo / Reuters)
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Fonte: G1