Pelo menos 14 civis morreram nesta quarta-feira (27) em um ataque do regime sírio contra um hospital e um edifício residencial próximo na parte leste da cidade de Aleppo (norte), controlada pelos rebeldes.
Os serviços de Defesa Civil, também conhecidos como capacetes brancos, informaram à agência France Presse que “pelo menos 14 pessoas morreram devido a ataques aéreos do regime contra o hospital Quds e um edifício residencial próximo, situados no bairro de Al Sukari, na zona leste de Aleppo”, e a ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) confirmou os ataques aéreos.As grandes potências esperavam que o cessar-fogo decretado em 27 de fevereiro facilitasse as negociações de paz entre o regime sírio de Bashar al Assad e os rebeldes com a finalidade de por fim a uma guerra de cinco anos, na qual já morreram mais de 270 mil pessoas.

Mas, a terceira rodada de negociações em Genebra, auspiciadas pela ONU, termina na quarta-feira sem nenhum avanço. Os principais representantes da oposição deixaram a mesa de negociações em protesto contra a degradação da situação humanitária na Síria e as violações da trégua.

Nos últimos dias, os bombardeios na província de Aleppo, sobretudo na cidade homônima, se multiplicaram, causando a morte de mais de uma centena de civis desde a sexta-feira.
O principal ponto de desacordo, que impede qualquer avanço nas negociações, é de fato o destino de Bashar al Assad.

A oposição exige que deixe o poder, mas para os representantes do regime, este ponto não é negociável.
Segundo previsões, as negociações de paz devem ser retomadas em 10 de maio.

Trégua rompidaOs moradores de Aleppo são testemunhas de uma intensificação dos combates nos últimos dias, e consideram que a trégua decretada há dois meses na Síria está definitivamente rompida, apesar de as grandes potências resistirem a admitir isso.Voluntários da Defesa Civil da Síria retiram corpo de homem que ficou preso em escombros de prédio após relatos de bombardeios aéreos no bairro Bab al-Nayrab, na cidade de Aleppo, Síria (Foto: AMEER ALHALBI / AFP)
“Não sei de que trégua falam.

Aqui não há trégua”, diz Abu Mohamed, morador da parte leste da cidade de Aleppo, no norte da Síria, controlada pelos rebeldes.
“Os bombardeios e disparos de foguetes não param nunca.

É como se estivéssemos em plena guerra mundial”, continua este pai de quatro filhos, dono de uma loja.
O balanço anunciado nesta quarta-feira, antes do ataque ao hospital, era de ao menos 12 mortos, informaram os meios de comunicação e fontes da saúde.

“As pessoas mortas são moradores, majoritariamente mulheres e crianças. Onde está a trégua?”, questiona, indignado, Mohamed Kahil, médico legista da parte leste de Aleppo, cidade dividida em dois desde 2012.

Os moradores da parte oeste, controlada pelo regime, se irritam também quando escutam as grandes potências falar de um cessar das hostilidades.
“A palavra ‘trégua’ se transformou em uma palavra provocadora que os moradores de Aleppo já não suportam”, explica Saad Aliya, motorista de táxi de 27 anos.

“Não acho que um só combatente de Aleppo queira a trégua. São todos assassinos e estão nos matando”.

“Se isto é uma trégua, então, rogo-lhes, tragam a guerra!”, diz, furioso.’Grande preocupação'”A trégua que se mantém é entre os Estados Unidos e a Rússia, não entre a oposição e o regime”, resume Abu Mohamed.

Washington e Moscou, os dois patrocinadores do cessar-fogo, insistem em que a trégua se mantém em grande parte.
“Não estamos prontos para declará-la rompida”, disse nesta terça-feira o porta-voz do Departamento de Estado americano, Mark Toner.

“Acreditamos que se mantém fora de Aleppo. Admitimos que dentro e ao redor de Aleppo há uma multidão de incidentes que nos preocupam seriamente”, acrescentou.

“A situação no terreno e no âmbito político cria grande preocupação”, declarou, por sua vez, o ministério russo das Relações Exteriores, Maria Zakharova. “A trégua resiste, mas está sendo desafiada quase diariamente”.

Riad Hijab, coordenador-geral do Alto Comitê de Negociações (ACN), que suspendeu sua participação em Genebra, falou de “graves violações da trégua de parte do regime e seus aliados”.
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Fonte: G1