Udai em foto tirada dois dias antes de morrer (Foto: AP Photo/Maad al-Zikry)
O pequeno Udai Faisal nasceu na guerra, mesmo com aviões atacando sua aldeia no Iêmen. Cinco meses depois, ele morreu por causa da guerra: seu corpo esquelético, castigado pela desnutrição, parou de funcionar.
Ele vomitou um líquido amarelo pelo nariz e pela boca, e parou de respirar.

“Ele não chorou e não havia lágrimas, apenas rigidez”, disse sua mãe, Intissar Hezzam. “Eu gritei e desmaiei”, contou à agência AP.

A onda de fome tem sido a conseqüência mais horrível de guerra do Iêmen desde que rebeldes xiitas capturaram a capital e a Arábia Saudita e seus aliados, apoiados pelos Estados Unidos, responderam com uma campanha de ataques aéreos e um bloqueio naval há um ano. A empobrecida nação de 26 milhões de pessoas, que importa 90% de sua comida, já tinha uma das mais altas taxas de desnutrição no mundo, mas, no ano passado, as estatísticas deram um salto.

O número de pessoas consideradas em “insegurança alimentar grave” – ​​incapazes de colocar comida na mesa sem ajuda externa – passou de 4,3 milhões para mais de 7 milhões, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos. Dez das 22 províncias do país são classificadas como a um passo da fome.

A mãe de Udai tenta alimentá-lo na última terça-feira (22), num hospital em Sanaa (Foto: AP Photo/Maad al-Zikry)Desnutrição em altaOnde antes da guerra em torno de 690 mil crianças menores de 5 anos sofriam desnutrição moderada, agora o número é de 1,3 milhão. Ainda mais alarmantes são as taxas de desnutrição aguda grave entre as crianças — os piores casos, em que o corpo começa a definhar — dobrando de cerca de 160 mil, há um ano, para 320 mil agora, de acordo com estimativas da Unicef.

Os números exatos de pessoas que morreram de desnutrição e suas complicações são desconhecidos, já que a maioria provavelmente não conseguiu sequer receber algum cuidado ou atenção. Mas, em um relatório divulgado terça-feira, a Unicef disse que cerca de outras 10 mil crianças menores de 5 anos adicionais morreram de doenças evitáveis ​​no ano passado por causa do colapso dos serviços de saúde, além da taxa anterior de cerca de 40 mil crianças por ano.

“A escala do sofrimento no país é impressionante”, diz a Unicef ​​no relatório, e a violência “terá um impacto para as gerações vindouras”. A coalizão liderada pela Arábia Saudita lançou sua campanha em 26 de março do ano passado com o objetivo de deter o avanço de rebeldes xiitas conhecidos como houthis, que tomaram a capital Sanaa, expulsaram o governo internacionalmente reconhecido e atacaram o sul.

O avanço houthi foi interrompido, mas eles continuam a manter Sanaa e o norte. No centro do país, lutam contra fações apoiadas pelos sauditas que apoiam o governo que detém frágil controle da cidade de Áden.

Cerca de 2,3 milhões de pessoas foram expulsas de suas casas. Ataques aéreos destruíram armazéns, estradas, escolas, fazendas, fábricas, redes elétricas e estações de água.

O bloqueio naval da ONU, impondo um embargo de armas sobre os rebeldes, interrompeu também a entrada de alimentos e suprimentos.UdaiO triste destino de Udai é um exemplo dos muitos fatores, todos agravados pela guerra, que levam à morte de uma criança no Iêmen.

O pai de Udai rega sua sepultura, marcada apenas por pedras (Foto: AP Photo/Maad al-Zikry)
Sua família vive da pensão que o pai de Udai, Faisal Ahmed, recebe ex-soldado — cerca de US$ 200 por mês — para alimentar ele, sua esposa e outras nove crianças de 2 a 16 anos. Ele costumava às vezes trabalhar em construção para complementar a renda, mas esse tipo de trabalho desapareceu na guerra.

Com os preços dos alimentos crescentes, a família come uma vez por dia, geralmente iogurte, pão e ervilhas — isso em um bom dia.
No dia em que Udai nasceu, aviões de guerra da coalizão liderada pelos sauditas atacaram uma base militar usada pelos houthis no distrito de Hazyaz, uma favela na zona sul de Sanaa.

Estilhaços atingiram a casa de um quarto onde a mãe de Udai estava em trabalho de parto.
“Ela estava gritando e dando à luz o bebê enquanto o bombardeio balançava a casa”, diz o pai.

Hezzam amamentou seu filho recém-nascido por cerca de 20 dias, mas depois seu leite acabou, provavelmente devido à sua própria desnutrição. Mesmo após o parto, ela tinha que recolher lenha para o fogão de tijolos de barro na porta de sua casa.

Como grande parte do país, a eletricidade tem tido cortes em sua vizinhança por causa de ataques aéreos ou falta de combustível, e raramente há gás de cozinha.
“Vou todos os dias para lugares distantes para procurar a madeira e, em seguida, a levo para casa em minha cabeça”, disse ela.

Água com açúcarA família recorreu a fórmula para alimentar Udai, mas nem sempre havia o produto disponível e eles nem sempre podiam pagar. Assim, Udai recebia fórmula e, quando não havia, ele recebia água com açúcar.

Caminhões de água ocasionalmente chegam à área onde moram,  mas quando não vinham seus pais tiveram que usar água suja. No ano passado,  o número de iemenitas sem acesso regular a água potável aumentou de 13 milhões de pessoas para mais de 19 milhões — quase três quartos da população.

Com três meses, Udai estava sofrendo de diarreia. Seu pai o levou para clínicas locais, mas estas ou não tinham suprimentos, ou ele não as podia pagar.

Finalmente, em 20 de março, ele chegou à seção de emergência do hospital Al-Sabeen.
Udai tinha desnutrição severa, diarreia e uma infecção no peito, disse Saddam al-Azizi, chefe da unidade de emergência.

Ele recebeu antibióticos e uma solução de alimentação através do nariz. A AP viu Udai em al-Sabeen em 22 de março.

Com cerca de cinco meses de idade, ele pesava 2,4 kg.
Dois dias depois, seus pais o levaram para casa.

Seu pai disse que fizeram isso porque os médicos disseram que não havia saída. Ele queixou-se de que não estavam dando o tratamento suficiente.

Al-Azizi disse suspeitar que era porque a família não podia pagar medicamentos. A permanência hospitalar é gratuita, mas porque os medicamentos estão escassos, as famílias devem pagar por eles, disse ele.

“Foi um erro tirá-lo”, disse. O tratamento  precisaria de mais tempo para funcionar.

Al-Azizi tinha dado a Udai apenas 30% chance de sobrevivência.
O Al-Sabeen já estava lidando com dezenas de crianças desnutridas.

Nos primeiros três meses do ano, tratou cerca de 150 crianças com desnutrição, o dobro do mesmo período do ano passado, disse al-Azizi. Cerca de 15 morreram, sem contar Udai.

Udai durou quando muito três horas depois de ser levado para casa, disseram seus pais. Ahmed, seu pai, disse que culpa a campanha aérea da Arábia Saudita pela morte de seu filho.

Eles enterraram a criança no sopé das montanhas próximas. Seu pai leu o Alcorão sobre a pequena sepultura marcada apenas por rochas, recitando “De Deus nós dependemos.


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Fonte: G1