Delegados posam para sessão de fotos durante cerimônia de abertura do congresso de líderes islâmicos moderados em Jacarta. A organização Nahdlatul Ulama (NU) organiza o evento de dois dias (Foto: Adek Berry/AFP)
Centenas de partidários do islã moderado na Indonésia batalham na internet para tentar impedir que a pregação do grupo jihadista Estado Islâmico (EI) se propague no país com o maior número de muçulmanos do mundo.
Nunca deixaremos que o islã seja refém de imbecis com o coração cheio de ódio”
Syafi’Ali, membro do NU, no Twitter
“Nunca deixaremos que o islã seja refém de imbecis com o coração cheio de ódio”, afirmou, em uma mensagem no Twitter para milhares de seguidores, Syafi’Ali, um dos 500 membros de “ciberguerreiros” do Nahdlatul Ulama (NU), Renascimento do Islã, uma das maiores organizações muçulmanas do mundo.

“Para nós, o islã deve contribuir com a civilização existente, e não substituí-la”, afirma uma mensagem publicada pelo líder da seção juvenil da NU, Yakut Quomas.
A propaganda na internet desempenha um papel-chave no recrutamento de militantes do EI, como no caso dos cerca de 500 indonésios que nos últimos anos viajaram ao Oriente Médio para se unir ao grupo.

O perigo da crescente influência do Estado Islâmico na Indonésia ficou evidente em janeiro, quando uma série de ataques reivindicados pelo grupo jihadista deixaram quatro civis e quatro extremistas mortos, nos atentados mais graves desde 2009.
Para disputar com o EI o controle do ciberespaço, os membros do NU disparam mensagens no Twitter, criaram sites divulgando a ideologia do grupo, lançaram um aplicativo para Android e canais de televisão online, que difundem sermões de pregadores moderados.

Os líderes destes ciberguerreiros trabalham em um pequeno escritório em Jacarta, e se comunicam pela rede com os demais membros, que enviam suas mensagens a partir de lugares isolados.Máquina de propagandaO NU, uma entidade dirigida por ulemás (teólogos especialistas em leis islâmicas) que há anos pregam um islã moderado, admite a dificuldade de reduzir o atrativo de uma organização que dispõe de grandes recursos financeiros e controla vastos territórios na Síria e no Iraque.

“Cada vez que conseguimos fazer com que sofram uma derrota, eles não demoram em recompor suas forças”, afirma o secretário-geral do NU, Yahya Cholil Staquf.
O NU vai levar sua campanha que promove uma forma tolerante do islã para uma reunião de responsáveis religiosos mundiais de dois dias que começou nesta segunda-feira em Jacarta.

A Indonésia, um arquipélago de 17.000 ilhas, tem 255 milhões de habitantes, dos quais 225 milhões são muçulmanos moderados.

O Estado indonésio se baseia na chamada doutrina dos “cinco princípios”, que trata sem distinção as cinco religiões reconhecidas no país — diferentemente de vários países com maioria muçulmana, que se inspiram exclusivamente na ‘sharia’ (lei islâmica). Do mesmo modo, a Constituição indonésia não faz nenhum referência ao islã, como acontece na vizinha Malásia.

O NU, fundado em 1926, aspira a que a Indonésia sirva de inspiração para muçulmanos ao redor do mundo, já que o país tem um modelo de organização política que permite a coexistência pacífica de minorias religiosas e múltiplos grupos étnicos.
Mas apesar das boas intenções, seus ciberguerreiros parecem meros amadores ao lado da máquina de propaganda do EI, cujos militantes têm experiência no manejo das redes sociais.

Robi Sugara, especialista em terrorismo, considera que os esforços do NU não são em vão: “É uma boa estratégia para tornar visíveis os conteúdos do islã moderado nas buscas do Google”, afirma.
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Fonte: G1