Os preços de camelos campeões podem atingir US$ 30 milhões (R$ 105 milhões) (Foto: BBC/Divulgação)
Na sala de espera de um voo para Doha (Catar), no aeroporto internacional de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, dois homens estão sentados e trajam roupas no estilo do Golfo Pérsico – seus turbantes indicam que são do país vizinho Omã, mas detalhes assim não seriam facilmente notados por alguém que não esteja familiarizado com a cultura da região.
Depois de eu tomar a iniciativa e começar a conversar com eles, Faisal e Ahmed me contam que uma das razões pelas quais visitaram Dubai foi para participar de uma corrida de camelos.
Corrida de camelos? – questiono, ansiosa por saber mais sobre o assunto.

“Aprecio a criação e as corridas de camelo, é uma tradição de família”, responde Faisal.
“Meu avô por parte de pai e sua família amavam criar camelos, e meu avô por parte de mãe e sua família gostavam de criar cavalos.

Sou obcecado por camelos desde criança.”
Hoje em dia, camelos não são mais criados para obter leite e carne, como costumava ser.

Em vez disso, tornaram-se uma forma de ficar milionário.Ovos, tâmaras e melHoje, os jóqueis são robôs, depois de ONGs denunciarem que crianças morriam nesta função (Foto: BBC/Divulgação)
Faisal trabalha na indústria de telecomunicações e conta que se dedica a criar camelos com a ajuda da família nos horários de folga, porque “isso absorve a energia negativa acumulada durante a semana”.

Faisal explica que camelos são alimentados com uma dieta completa, que inclui mel, leite fresco, ovos, tâmaras e vitaminas. Pergunto se não é caro dar mel para os camelos.

“Gastamos mil libras por mês (cerca de R$ 5,5 mil) para preparar o camelo para a corrida”, diz.
Ele também conta que esses animais começam a disputar provas com idades que variam de dois a sete anos – é o treinador quem decide quando o camelo está pronto para correr.

O preço de um campeãoCriar camelos é uma tradição na família de Faisal (Foto: BBC/Divulgação)
Corridas de camelos são, de fato, uma atividade cara.
Os governantes dos Estados do Golfo geralmente determinam os preços dos animais.

“Eles compram os camelos e os criam, mas nunca os vendem”, diz Faisal. “Os governantes participam em pé de igualdade com seus cidadãos nas competições.


Mas quanto custa um camelo? Faisal diz que os preços começam em US$ 55 mil (R$ 193 mil), mas puros-sangues podem sair bem mais caros. Em 2010, um fã de corridas dos Emirados Árabes gastou US$ 9,45 milhões (R$ 33,7 milhões) com três animais.

Os preços de campeões chegam ainda mais alto, podendo atingir US$ 30 milhões (R$ 105 milhões). Faisal parecia indiferente ao mencionar esses valores, enquanto eu tentava não aparentar surpresa.

Mas chegar a essse nível não é fácil. Camelos precisam passar por etapas preliminares em países do Golfo, com os vencedores sendo premiados com o direito de participar das corridas mais importantes.

Apostas proibidasCamelos percorrem de 1,5km a 8km numa prova, de acordo com sua idade (Foto: BBC/Divulgação)
Quanto mais Faisal fala da importância das corridas de camelos, mais entendo como os países do Golfo são um grande mercado – os animais são vendidos para reprodução ou para as corridas.
Feiras semanais e corridas locais são organizadas com o objetivo de escolher os melhores para participarem das principais competições, como a Gulf Racing Cup, o Camel Racing Festival, realizado anualmente em Dubai, e a Shahannya Camel Races, no Catar.

A extensão das pistas de corrida varia entre 1,5km e 8km, de acordo com a idade dos animais. Há provas para camelos de dois, quatro, seis e oito anos.

Ao ganhador da prova final é dada uma espada como prêmio simbólico e o valor de US$ 3 milhões. “Como em Wembley”, diz Faisal, fazendo referência a um dos principais estádios londrinos, palco de decisões esportivas.

Corridas movimentam muito dinheiro, mas apostas são proibidas (Foto: BBC/Divulgação)
Com tanto interesse e dinheiro investidos nas corridas de camelo, as pessoas podem apostar? Elas nunca fazem isso, diz Faisal, porque é algo proibido pelo Islã.
Nos anos mais recentes, os Estados do Golfo deixaram de usar crianças como jóqueis e passaram a empregar robôs, após muitas críticas de organizações de defesa de direitos humanos, que denunciaram que as crianças estavam morrendo no circuito.

Mas adultos ainda podem disputar as provas, diz Faisal. Ele acredita que as corridas possam se tornar um evento esportivo popular em diferentes partes do mundo e até mesmo na Europa.

Mas a Europa não é muito fria?, pergunto. “É ainda melhor para os camelos”, responde Faisal.

“Porque um lugar quente e seco suga a energia do camelo.”
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Fonte: G1