Distrito de Molenbeek, em Bruxelas, está no centro das atenções desde os atentados de Paris, em novembro (Foto: AP Photo/Peter Dejong)
Nas pobres áreas centrais de Bruxelas, capital da Bélgica, privações, pequenos crimes e radicalização parecem caminhar juntos.
O jornalista da BBC Secunder Kermani aponta como a violência e o consumo de drogas – combinado ao ressentimento com a sociedade belga pela suposta discriminação contra os árabes – preparam jovens para o papel de combatentes na Síria e terroristas na Europa.
Molenbeek é um lugar cheio de contradições.

A minutos de distância do coração da União Europeia, esse populoso distrito de Bruxelas tem 40% da sua juventude desempregada.
O distrito está nos holofotes desde os ataques de Paris em novembro, quando foi revelado que o líder dos atentados, Abdelhamid Abaaoud, e três outros envolvidos cresceram em Molenbeek.

Entre eles está Salah Abdeslam, que foi preso neste mês em seu bairro de origem após quatro meses de perseguição.
Abdeslam tem ligações com o terceiro suspeito dos atentados no aeroporto de Bruxelas, o único que continua vivo.

Najim Laachraui teve seu DNA localizado em “material explosivo usado nos atentados” da capital francesa.
Como Abdeslam conseguiu se manter escondido por tanto tempo? E por que tantos jovens de Molenbeek acabam como jihadistas?
A maioria dos moradores de Molenbeek está cansada de jornalistas – eles condenam a forma como o bairro costuma ser retratado na mídia, como “capital jihadista da Europa”.

Uma frase recorrente dos moradores a repórteres é “terrorismo não tem nada a ver com o Islã”.
Mas muitos moradores do distrito que se juntaram ao grupo extremista autodenominado Estado Islâmico não tinham formação religiosa.

Abdeslam Salah é visto em um aviso da polícia francesa em sua conta no Twitter (Foto: Police Nationale/Divulgação/via Reuters)
Salah Abdeslam e seu irmão mais velho, Brahim, que se explodiu nos ataques de Paris, gerenciavam um café em Molenbeek que vendia álcool e foi fechado por delitos ligados a drogas.
Um amigo dos irmãos disse que via regularmente Brahim “assistindo a vídeos do Estado Islâmico com um baseado em uma mão e uma cerveja em outra”.

Ele disse que Brahim fazia declarações radicais em público, mas ninguém o levava a sério.
Outro amigo mostrou um vídeo dos irmãos Abdeslam com mulheres em uma casa noturna de Bruxelas, bebendo e dançando – isso foi em fevereiro de 2015, apenas meses antes de começarem a planejar os ataques em Paris.

A rede de influências que rodeava os irmãos Abdeslam – baseada em lealdade pessoal, descrença, pequenos crimes e ideologia radical – seria a chave da fuga de Abdeslam após os ataques de Paris.
Essa rede não se concentrava apenas em Molenbeek, mas se espalhava pela chamada “croissant pauvre” (crescente pobre) de Bruxelas – um semi-círculo de bairros pobres no centro da cidade, que inclui Schaerbeek, onde Abdeslam tinha uma casa segura, e Laeken, onde cresceram algumas das pessoas que o ajudaram a se esconder.

Rede de apoioO repórter da BBC Secunder Kermani teve acesso à transcrição do interrogatório de dois amigos de Abdeslam, para quem ele ligou na noite dos atentados de Paris pedindo ajuda.
Hamza Attou e Mohammed Amri disseram à polícia que Abdeslam disse que havia sofrido um acidente de carro e precisava ser resgatado.

Attou afirmou que, uma vez que eles chegaram ao local combinado, Abdeslam ameaçou “explodir o carro se não o levássemos para Bruxelas”.
Amri descreve como os três homens dirigiram por Paris durante “o tempo que levou para fumar um baseado” antes de tentar a jornada de volta.

De acordo com Attou, eles tentaram circular por rodovias menores e menos movimentadas, mas acabaram se perdendo e voltando para uma estrada principal.
Em seguida, fumaram mais três cigarros de maconha na viagem de volta a Bruxelas – e foram parados em três postos policiais diferentes, mas autorizados a passar.

Em um deles, de acordo com Attou, o policial “perguntou a Amri se ele tinha bebido”. “Amri disse ‘sim’.

..

O policial disse a Amri que não era bom ter bebido, mas que aquela não era a prioridade do dia.”
De volta a Bruxelas, Abdeslam mudou as roupas e a aparência.

De acordo com Attou, ele foi a um salão onde ele “barbeou-se, aparou o cabelo e raspou uma linha na sobrancelha”.
Então, ele ligou para outro amigo e pediu a Attou que o deixasse em outro bairro.

Os três amigos foram presos horas depois. Segundo outro membro do grupo, “eles estão na cadeia por nada, apenas porque ajudaram Salah sem pensar”.

Abdeslam permaneceria em fuga pelos quatro meses seguintes antes de ser preso.
Pode ser difícil imaginar alguém concordando em ajudar uma pessoa envolvida em uma atrocidade como os ataques de Paris – mas parece que ele foi capaz de recorrer tanto à rede de apoiadores do Estado Islâmico como a um pequeno círculo de pessoas que não eram necessariamente extremistas, mas nutriam lealdade em relação a ele – e desconfiança em relação ao Estado belga.

Desalento Prisão de Salah Abdeslam em Bruxelas, dias antes do atentado na cidade (Foto: VTM via AP)
Há certamente um sentimento de desalento em Molenbeek. Kermani, da BBC, conta como passou uma noite em uma esquina conversando com um jovem muçulmano que tinha sido acusado de tentar viajar para a Síria.

“Ele alternava olhares intensos e recusa ao contato visual – exalando um ar de instabilidade. Inicialmente, quando disse que queria entender por que alguém cometeria um ataque como o de Paris, ele me disse que deveria viajar a Raqqa (na Síria) e perguntar as pessoas lá.

Para ele, os ataques aéreos do Ocidente contra o Estado Islâmico eram a resposta”, disse.
“Mas depois ele mudou de opinião.

Era culpa das condições domésticas. Ele protestava contra o governo belga – contra os belgas brancos, que odiavam os de ascendência árabe, ele disse.

E repetia ‘não há democracia aqui’- um sentimento de que você não pode expressar qualquer opinião discordante do ‘mainstream’ sem ser rotulado de extremo”, completou.
Kermani diz que muitos outros jovens com quem conversou não tinham conexão com o extremismo, mas queixavam-se da forma como os muçulmanos são tratados.

“Alguns descreveram como ter endereço em Molenbeek dificulta conseguir um trabalho, e meninas que usavam hijab reclamavam das leis que proíbem o véu em muitos locais de trabalho.”Sem perspectivaSheikh Bassam Ayachi costumava ser considerado um líder e pregador radical em Molenbeek.

O clérigo sírio, de 70 anos, chegou na área nos anos 1990. Alguns o acusam de ter plantado a semente do Islã radical no distrito, mas ele condena eventos como os ataques de Paris.

Quando o conflito na Síria começou, ele viajou de volta ao país natal. Aliado à maioria entre os rebeldes islamitas, ele é um forte opositor tanto do regime de Bashar al Assad como do Estado Islâmico.

Tanto é que o grupo tentou assassiná-lo plantando uma bomba em seu carro. O ataque lhe custou um braço, mas ele sobreviveu.

Questionado, em entrevista por Skype, sobre a razão de tantos jovens de sua antiga vizinhança estarem se juntando ao Estado Islâmico – grupo que, disse ele, “mancha o nome do Islã e da revolução síria” -, ele citou a falta de ação contra o regime de Assad e também fatores domésticos.
“Os jovens de Molenbeek se sentem frustrados porque foram marginalizados pelo governo belga.

Nunca tentaram dar a eles trabalho, educação, ajuda social para integrá-los na sociedade”, disse.
“Alguns deles eram delinquentes, vendendo haxixe e assim por diante.

Com o tempo, acabaram na prisão. Na prisão, descobriram que voltar à religião era algo surpreendente: ‘Nós podemos esquecer qualquer coisa estúpida que fizemos na vida’.

Então, eles se voltaram para a religião, mas com ódio contra a sociedade ocidental.”
Esse sentimento de necessidade de expiar pecados passados talvez seja uma das razões pelas quais tantos moradores de Molenbeek que acabaram no Estado Islâmico têm antecedentes criminais.

Manifestantes acendem velas em Molenbeek, subúrbio de Bruxelas, nesta quarta-feira (18) durante ato de solidariedade às vítimas dos ataques em Paris (Foto: AFP PHOTO / EMMANUEL DUNAND)
Para um dos amigos dos irmãos Abdeslam, a explicação não é suficiente. “Todos nós tivemos problemas com a polícia, mas nem todos acabamos assim.


Ele se perde ao tentar explicar a causa da radicalização – agarra-se a uma ideia de que talvez tenham feito isso por dinheiro, sem perceber no que estavam se envolvendo.
Talvez a razão para o cruzamento entre crime e jihad seja o “glamour machista” associado a ambos.

Um conhecido de uma das principais figuras dos ataques de Paris descreveu o colega como “alguém que sempre gostou de uma luta”.RecrutadoresMuitos desses jovens não tropeçaram sozinhos no mundo jihadista.

Nos primeiros anos do conflito sírio, de acordo com os líderes da comunidade, era normal ver “recrutadores”, impedidos de operar em mesquitas, falando a grupos de seguidores nas ruas, em cafés ou círculos privados de estudo.
Um dos mais bem-sucedidos deles era um homem chamado Khalid Zerkani – agora na prisão na Bélgica.

Seu séquito incluía Abdelhamid Abaaoud, além de outros envolvidos nos ataques de Paris, e um homem que está atualmente na prisão no Marrocos por supostas ligações com a célula de Paris.
De acordo com os arquivos do tribunal, Abaaoud não pregava apenas para aspirantes a jihadistas, mas os colocava em contato com contrabandistas na Turquia que podiam transportá-los para a Síria e distribuia presentes roubados para eles – por isso chegou a ser apelidado de “Papai Noel”.

Um dos jovens homens no círculo de influência de Zerkani foi Yoni Mayne – que acabou viajando para a Síria ao lado Abdelhamid Abaaoud.
A mãe do rapaz hoje culpa Zerkani pela radicalização do filho.

“Ele destruiu a vida do meu filho, que tinha 23 anos. Ele também destruiu minha vida.

Eu não vou perdoá-lo.”
Em 2013, Yoni partiu para a Síria.

Ele voltou, mas sua mãe tinha pavor de que ele fosse para o país em guerra de novo.
“Eu disse à polícia que ele pretendia ir porque o telefone não parava de tocar, mesmo quando ele estava dormindo.

Entrei em contato com a polícia mais uma vez e eu disse que ele pretendia ir. Eles disseram que ele não iria, e que eles iriam fazer algo.


Mas a polícia não fez nada. Yoni partiu para a Síria no início de 2014 e foi morto meses depois.

Quando ele e muitos outros começaram a sair de Bruxelas para a Síria, o conflito era muito mais simples Eles podem ter tido interpretações fundamentalistas da religião, mas a sua principal intenção era interromper abusos cometidos pelo regime de Assad.
Mas a maioria acabou sob influência do Estado Islâmico, ampliando a radicalização e a dessensibilização à violência.

Busca de identidadeHá pessoas que tentam resolver essas questões em Bruxelas. Na academia BBA – que tem muitos membros de Molenbeek – há uma mistura de cores, raças e religiões.

Um antigo frequentador da academia acabou indo para a Síria e sendo morto. Outro está preso na Turquia, acusado de ligações com os ataques de Paris.

O presidente da academia, Mohamed Maalem, diz que sua maior tarefa é dar aos jovens um senso de auto-estima.
Muitos que são imigrantes de terceira ou quarta geração lutam com a sua identidade, diz ele.

“Eles vão para o Marrocos e dizem para eles que eles são belgas. Aqui eles escutam que são marroquinos.

Eles não se sentem em casa em lugar nenhum – então eles estão sempre tentando descobrir quem são.”
Um dos treinadores no clube argumenta que a causa fundamental da radicalização em Molenbeek é uma sensação, com ou sem razão , de não ter um futuro.

“A radicalização não começa com um ideal religioso”, diz . “Os caras que conheço [que foram para a Síria] não têm ideologia, não têm grandes ideias.

Eles estão indo porque eles estão deixando alguma coisa. Eles são cansados desta sociedade.


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Fonte: G1