Felipe Higashi e Maria Dias, criadores da Cake 4 You: desemprego levou a ideia de vender bolos (Foto: G1/Arquivo pessoal)
Felipe Higashi, de 25 anos, saiu da casa dos pais pouco tempo antes de ser demitido da agência de viagens onde trabalhava. Sem emprego e com contas para pagar, ele levou quatro dias para decidir começar a vender pedaços de bolo em potes com sua namorada. “Eu precisava encontrar um jeito rápido de sobreviver”, conta.

Há três meses, começaram com um pequeno investimento de cerca de R$ 200 para comprar os ingredientes dos bolos, que faziam na cozinha da avó. Segundo Higashi, as vendas ainda não garantem seu sustento pessoal – que ele completa com trabalhos freelance – mas elas já pagam os custos.

“Todo o dinheiro que entra nós reinvestimos nos ingredientes e em publicidade na internet”, conta Higashi. Os potes de bolo são deixados em espaços de coworking (trabalho compartilhado) e empresas no esquema “pague quanto quiser”.

O consumidor deposita o dinheiro em uma caixa sem ser cobrado. Higashi admite que já houve casos de “calote”, mas garante que o esquema funciona bem.

Risco calculadoNão existe risco nulo quando o assunto é abrir um negócio, dizem especialistas. Quem perdeu o emprego e pensa em empreender precisa calcular as chances de sua ideia fracassar e tomar as precauções necessárias para reduzir esse risco.

“O risco é inerente à atividade do empreendedor. Por isso, abrir um negócio deve ser fruto de uma reflexão e não de um impulso”, alerta o presidente nacional do Sebrae, Afif Domingos.

Ao ser demitido, o trabalhador geralmente recebe uma quantia razoável em dinheiro na recisão do contrato com carteira assinada. Não é incomum ver aí uma oportunidade para investir em um negócio próprio.

Mas não adianta ter o dinheiro em mãos se não houver planejamento, uma vez que trabalhar por conta própria exige conhecer as regras do segmento no qual se pretende atuar.
“Depois de calcular o risco que ele vai correr, o empreendedor precisa estudar o mercado onde ele quer atuar e isso exige muita dedicação”, aconselha o especialista em empreendedorismo e presidente da ABDI (Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial), Guto Ferreira.

O aspirante a empreendedor deve desconfiar de promessas de ganho fácil e rápido para abrir um negócio, recomenda o especialista. “É melhor fugir de negócios que prometem rentabilidade de 100% do investimento e gurus de internet que oferecem fórmulas fáceis de sucesso”, diz.

Ele considera que a crise econômica deve ser encarada como oportunidade, e não como momento para frear o ímpeto de abrir um negócio ou trabalhar por conta própria. “É justamente nessa hora que poucas pessoas estão investindo, e isso faz toda a diferença”, diz.

VEJA ABAIXO DICAS PARA MITIGAR O RISCO AO ABRIR UM NEGÓCIO PRÓPRIO:
Segundo Ferreira, é muito comum que o empreendedor desconheça as leis que regem o seu negócio, e isso pode causar muita dor de cabeça. É preciso saber o custo que sua empresa terá no Simples (sistema tributário para empresas menores) e quanto seu produto vai recolher de ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços), por exemplo.

“Hoje não tem mais desculpa para não aprender sozinho, está tudo na internet”, diz Ferreira.
Assim como os impostos, o empresário que pretende contratar um funcionário precisa entender quais são os custos, para saber se tem condições de contratar alguém ou se vai trabalhar sozinho.

Segundo Ferreira, o custo é sempre em torno de 80% maior que o salário efetivamente pago ao empregado.
Você sabe fazer um bolo de cenoura delicioso e pensa em abrir uma loja, mas na mesma rua tem um estabelecimento que vende o mesmo bolo.

“É preciso conhecer a concorrência e entender qual o diferencial do seu produto”, considera o especialista em empreendedorismo Ferreira. Seu bolo terá uma cobertura mais grossa? O preço será mais competitivo? Tudo isso deve ser levado em conta em relação ao concorrente para ganhar mercado.

Existem franquias sérias no mercado, mas também há experiências problemáticas, que acabam deixando o franqueado na mão. Para separar o joio do trigo, a Associação Brasileira de Franchising (ABF) tem uma lista com as franquias mais bem avaliadas, um termômetro para medir a seriedade e aceitação da rede no mercado.

“Não se deve colocar todos os ovos na mesma cesta”, recomenda Domingos, do Sebrae. É preciso ter dinheiro não só para abrir o negócio, mas para mantê-lo enquanto ele não dá o retorno esperado.

Para isso, deve-se guardar o equivalente a quatro a oito meses em recursos até esperar o negócio começar a “empatar”, sugere Ferreira. “O retorno mesmo só costuma aparecer depois de um ano e meio”, diz.

Segundo Domingos, um erro muito comum é o empresário usar o dinheiro do faturamento para cobrir despesas da casa e com a família. “O ganho dele tem que ser decorrência do lucro de seu negócio e não meter a mão no faturamento”, diz.

O comércio eletrônico tem, em geral, custos fixos bem mais baixos do que uma loja física, explica Guto Ferreira. “Existe o risco natural de todo negócio, mas ele é menor e a oportunidade de escala é bem mais ampla”.

Ele cita as áreas de alimentação, vestuário e de beleza como segmentos com boas oportunidades no ecommerce no atual momento.
Muitos segmentos podem ter grande procura de consumidores, mas podem estar com oferta em excesso, o que reduz as chances de ganhos.

Ferreira vê a alimentação por quilo e as lojas físicas de roupa como alguns exemplos, ponderando que tudo depende do ponto onde estão. Outro mercado que não costuma trazer muito resultado financeiro, segundo ele, são as vendas diretas de marcas conhecidas no porta a porta.

“É comum que aproveitem o desespero de quem está desempregado com um discurso bonito, mas o resultado não é permanente e precisa de uma dedicação 300% maior”, considera.
Os especialistas sugerem evitar ao máximo tomar empréstimos bancários para abrir uma empresa.

“Os juros são absurdos e os bancos costumam empurrar produtos ou serviços ao empresário que só aumentam seus custos”, opina Ferreira. O ideal, segundo ele, é guardar uma reserva para emergências.

“É preciso ter certeza da viabilidade do negócio antes de pegar crédito”, alerta Domingos, do Sebrae.
Apesar do forte recuo em setores como o automobilístico e a linha branca, há segmentos que ganham espaço neste momento, como os serviços de reparos, diz o presidente do Sebrae.

“Está faltando mão de obra e gente capacitada para atuar por exemplo como costureira, encanador, chaveiro”, diz.
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Fonte: G1