O vendedor Jorge Luiz comemora o aumento da venda de cobertores de doação por causa das baixas temperaturas no Rio de Janeiro (Foto: Cristiane Caoli / G1)
O frio que vem batendo recordes no Rio de Janeiro tem afetado o comércio da cidade. No Saara, um dos principais mercados populares da capital, as baixas temperaturas têm sido motivo de comemoração pelos lojistas que vendem casacos, cobertores e acessórios de inverno. Em apenas uma loja, foram vendidos 360 cobertores “de doação” em três horas.

Vendedor há 28 anos, Jorge Luiz comemora o movimento na Sociedade dos Amigos e das Adjacências da Rua da Alfândega, Saara, área de comércio popular a céu aberto no Centro do Rio, tanto pelo aumento das vendas quanto pela solidariedade das pessoas que estão comprando os cobertores para doar.
“O frio começou mais cedo neste ano.

Estamos vendendo muitos cobertores de doação. Ainda há muita gente de bom coração.

O que tínhamos para vender hoje já acabou, e está chegando mais”, disse, acrescentando que outros 1.200 cobertores para solteiros e 660 para casal chegarão no dia e que todos “já estão vendidos”.

A cidade foi tomada pelo frio desde o fim de maio. No dia 13 de junho, os termômetros chegaram a registrar 8,6ªC, a menor temperatura para o Rio de Janeiro em 14 anos.

Gerente de loja de roupa no Saara, comércio popular do Rio, comemora aumento de vendas por conta do frio. (Foto: Cristiane Caoli / G1)Frio aquece comércioO frio vem aquecendo também a venda de calças e casacos, informou a gerente de loja alagoana, Aline Araquam, de 32 anos, que mora no Rio de Janeiro há quatro.

“Casaco é o foco [de busca na loja onde trabalha]. Esse frio pegou os comerciantes de surpresa.

Ana passado não teve vendas. Estamos vendendo o estoque todo do ano passado”, comemorou.

Segundo pesquisa do Centro de Estudos do Clube de Diretores Lojistas (CDLRio) feita a pedido do G1, 82% dos comerciantes afirmam que a mudança brusca na temperatura da cidade “está influenciando a venda”. Entre os ouvidos, 86% não estavam preparados para o movimento.

Entre eles, 53,5% por causa “dos estoques encalhados do ano passado”.
“As vendas nesse ano melhoraram com certeza.

Em maio já começou. Ano passado foi muito ruim.

Hoje, com esse tempo mais frio as vendas estão melhorando muito. O estoque do ano passado já foi tudo.

De doações [cobertores] não tem mais nada. Estamos esperando chegar mais”, relatou a vendedora Josélia Fernandez, de 44 anos, que trabalha em uma loja de roupas de cama há 23 anos.

O vendedor Tiago Barral, de 29 anos, também está sentindo que o movimento aumentou na loja onde trabalha no Saara.
“Estamos vendendo cachecol, luvas, gorros.

E estamos vendendo bem”, disse. De acordo com a pesquisa do CDLRio, 62% da procura é por artigos de vestuário, como casacos e camisas de manga comprida, seguido de 26% por acessórios como meias, cachecóis, segunda pele, luvas de lá, toucas e cobertores.

A pesquisa do CDLRio mostrou ainda que para 88% dos lojistas as vendas estão boas. Apenas 11,6% apontaram como “iguais” às do ano passado, e 0,4%, como “pior”.

Segundo os comerciantes, o aumento nas vendas está em torno de 10% a 20% para 86,4% dos ouvidos. Para 12,5%, o crescimento foi de 20 a 25%, e acima de 30%, somente 1,1%.

Segundo os lojistas desses segmentos, “a queda brusca da temperatura do Rio de Janeiro, trazendo um inverno que há muitos anos não se tinha, está estimulando a venda de produtos desta estação. Como no Rio os clientes não têm hábito de comprar roupas de frio e aqui está gelado, o estoque preparado para esse ano foi pequeno, e o que se tinha do ano passado já foi todo ou quase todo vendido.

O lojista diz que está enfrentando dificuldade, por falta de tempo hábil, de repor as mercadorias, e isso pode ser um motivo para não se ter aumento maior nas vendas”, informou o Centro de Estudos do CDLRio.
Além do frio, 70% dos lojistas ouvidos afirmaram que venda fraca no ano passado também impactam melhores vendas neste ano.

Frio no Rio faz aumentar a procura por cachecóis e outros acessórios de inverno, como luvas e gorros. (Foto: Cristiane Caoli / G1)Preço baixoO economista da Confederação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes, ressaltou que apesar do aumento da demanda, os preços não mostraram crescimento no mês de maio, conforme mostrou a prévia da inflação, medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“O que a gente observa de preços é que a inflação do vestuário que, em maio foi de 0,72%,  em junho caiu para 0,42%. Em junho do ano passado foi de 0,68%.

O frio para o comércio não está se dando só nos termômetros, mas no nível de atividade. É de longe o pior ano do segmento de vestuário.

Então, não tem espaço para o varejista aumentar o preço para pegar carona no frio”, explicou o economista.
“Frio ajudou o comércio? Claro, mas nem de longe compensou as perdas que esses dois segmentos tiveram ao longo do ano”, completou Fábio Bentes.

o movimento caiu cerca de 90%, afirma Edvan da Costa, de 39 anos, que faz tatuagem de henna no Posto 9 da Praia de Ipanema (Foto: Cristiane Caoli / G1)Ambulantes praianos sofremJá para os ambulantes que vivem do turismo nas praias do Rio, o movimento caiu cerca de 90%, afirma Edvan da Costa, de 39 anos, que faz tatuagem de henna no Posto 9 da Praia de Ipanema, na Zona Sul.
“A crise ajuda.

Num dia bom, faço R$ 300 por dia. Hoje, não estou fazendo nem R$ 50.

Trabalhava como frentista em um posto de gasolina, mas fui demitido. Também trabalhei como garçom, mas sempre fazia as tatuagens em paralelo”, disse.

De acordo com ele, as praias estão ficando vazias nos dias frios. “Turista, só argentino, que está tão duro quanto a gente”.

Vendedor de canga e biquínis desde 2001, Reisnan Araújo, de 28 anos, culpa a baixa temperatura pelas vendas fracas. No dia da entrevista, ele comemorava que uma excursão havia chegado à praia mais cedo, e por isso conseguiu emplacar algumas vendas.

“Frio e muito roubo na areia nos fins de semana. Dei sorte hoje porque teve uma excursão.

Fiz uma vendinha, mas na época boa, vendo 70 pares de biquínis. Agora, vendo de 5 a 6 pares”, disse.

Vendedor de canga e biquínis desde 2001, Reisnan Araújo, de 28 anos, culpa a baixa temperatura pelas vendas fracas. (Foto: Cristiane Caoli / G1)Turismo e serviçosO frio – e outros fatores conjunturais – também estão afetando o setor de serviços e turismo da cidade.

Segundo Fernando Blower, vice-presidente de Meios de Hospedagem do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio), a ocupação hoteleira em junho caiu entre 30 a 40% em relação ao ano anterior.
“Caiu um pouco [o movimento], mas acho que na verdade a gente tem uma conjunção de vários fatores.

Não dá para atribuir só ao clima, só o clima estaria menor sim, mas a conjuntura econômica pesa muito. Do ponto de vista interno, temos menos dinheiro e pessoas cortando custos no lazer.

E do ponto de vista internacional, a gente acaba caindo na canalização por conta das Olimpíadas”.
Ainda de acordo com ele, parte do público que vem ao Rio neste período do ano está “adiando” a vinda para uma data mais próxima dos Jogos Olímpicos.

Blower acrescentou que o vírus da zika é outro fator que “afastou” os turistas.
“Isso certamente afetou as viagens de turismo que são agendadas com muita antecedência.

Quem programou férias de verão, no hemisfério Norte, por exemplo, eles programaram há 6 meses, quando o tema ainda estava muito em foco”.
Para driblar o movimento baixo, o vice-presidente informou que bares e restaurantes têm buscado alternativas criativas para atrair a clientela, com foco no inverno, no entanto, com opções de pratos quentes, como caldos, sopas, fondue e vinho.

“Parte das pessoas nem é por uma questão financeira, mas por receio do futuro. Ela não está ganhando menos, mas por consequência, está poupando.

Ou diminui o número de saídas ou tíquete médio de gasto por noite”.
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Fonte: G1